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Quando propósito encontra personalidade: a trajetória meteórica de Gabriel Rosa na arquitetura

Aos 27 anos, o arquiteto que chegou cedo à CASACOR São Paulo constrói uma linguagem própria a partir de referências que atravessam moda, cinema e arquitetura, enquanto transforma sua trajetória em caminho para uma nova geração

Por Giovanna Jarandilha

Publicado em 10 de set. de 2026, 12:00

08 min de leitura
O arquiteto Gabriel Rosa, participante da CASACOR Sâo Paulo em 2024 e 2025.

O arquiteto Gabriel Rosa, participante da CASACOR Sâo Paulo em 2024 e 2025. (Vitor Guilherme/CASACOR)

A primeira participação de Gabriel Rosa na CASACOR São Paulo, em 2024, ainda carregava a ânsia de um jovem profissional que tinha acabado de encontrar uma oportunidade capaz de transformar a sua vida. Seu desejo era de que conhecessem o seu trabalho, que seu nome se tornasse reconhecido. Mas do que isso, estava disposto a fazer com que aquela vitrine significasse algo para a carreira que estava começando a construir. Aos 25 anos, recém-formado, ele saiu de lá com o título de arquiteto negro mais jovem a ser premiado pela mostra.


Hoje, aos 27, ele olha para aquele momento com outra perspectiva. “Eu tinha muita pressa de fazer com que as pessoas conhecessem o meu trabalho”, conta. O que veio depois lhe ensinou que reconhecimento não se sustenta apenas na velocidade. “Eu fui entendendo que tudo era um trabalho. As pessoas só iriam reconhecer meu trabalho a partir de um bom trabalho que eu entregasse”.

Lavabo Terra Sagrada, por Gabriel Rosa na CASACOR São Paulo 2024.

Lavabo Terra Sagrada, por Gabriel Rosa na CASACOR São Paulo 2024. (Theggrau/CASACOR)

A trajetória de Gabriel, de fato, avançou depressa. Em 2019, ainda na faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Nove de Julho, começou a desenvolver seus primeiros projetos. Em 2022, abriu o próprio escritório; no ano seguinte, concluiu a graduação. Vieram os trabalhos com influenciadores, a segunda participação na CASACOR São Paulo, em 2025, e o reconhecimento da Forbes Under 30. No meio disso tudo, foi construindo uma linguagem que não cabe facilmente em uma única definição.


“Eu tenho muitas referências”, diz. E elas vêm de lugares bastante diferentes: moda, música, cinema e, evidentemente, arquitetura. Seu estilo reúne contemporâneo, Mid-Century Modern e o afro-modernismo, movimento com o qual diz ter se identificado cada vez mais. O resultado é uma arquitetura sofisticada, que não esconde a pessoa que está por trás dela.

Um repertório bem tramado


Gabriel Rosa - Adega Legado. Projeto da CASACOR São Paulo 2025.

Gabriel Rosa - Adega Legado. Projeto da CASACOR São Paulo 2025. (Vitor Guilherme/CASACOR)

Gabriel fala de moda com a mesma naturalidade que trata de arquitetura. Gosta de se vestir bem e de observar o que está rolando nesse universo: as cores, as silhuetas, as texturas, as combinações. Para ele, não há uma distância tão grande entre a maneira como alguém escolhe uma roupa e a casa que escolhe habitar. “A nossa casa é uma extensão de quem a gente é”, costuma dizer aos clientes.


A própria maneira de se vestir, segundo ele, pode dar pistas sobre o gosto pessoal de um cliente. Não significa que o cliente vá necessariamente acompanhar a semana de moda de Paris ou Milão, brinca, mas é a partir dessa observação do vestir que o cliente vai alimentar outros campos do seu olhar. Uma cor, uma textura, uma estampa podem atravessar de um universo para outro.

Gabriel Rosa - Adega Legado. Projeto da CASACOR São Paulo 2025.

Gabriel Rosa - Adega Legado. Projeto da CASACOR São Paulo 2025. (Vitor Guilherme/CASACOR)

Seu processo criativo segue a mesma lógica. Quando monta um moodboard, Gabriel não pretende reunir materiais: sua mesa é povoada por tecidos, imagens, cores e texturas. Antes de desenhar, ele procura enxergar o conjunto. “Eu gosto de primeiro entender se a composição inteira me agrada em relação à composição de cores, texturas”, explica. O projeto vai se organizando a partir daí.

O olhar é do autor


Para ele, autenticidade não é apenas uma qualidade acessória: é, antes disso, um instrumento de trabalho. “Eu acho que a gente é artista”, afirma. E, para um artista criar, é preciso algum grau de liberdade.


O arquiteto acredita que o mercado pode ser bastante engessado e que não existe uma fórmula única para se destacar. “Eu acho que as pessoas se conectam com pessoas, e clientes se conectam com personalidades”, afirma. Construir essa personalidade leva tempo, reconhece, mas o caminho passa justamente por não tentar se moldar demais ao que já existe.

Gabriel Rosa - Adega Legado. Projeto da CASACOR São Paulo 2025.

Gabriel Rosa - Adega Legado. Projeto da CASACOR São Paulo 2025. (Vitor Guilherme/CASACOR)

Na CASACOR, isso ganha outra dimensão. Projetar para um cliente significa negociar com desejos, necessidades, preferências e limites. Na mostra, seu cliente é ele mesmo. A contrapartida dessa liberdade é uma cobrança maior consigo mesmo: a cada edição, Gabriel quer se surpreender com o seu trabalho novamente.

A primeira CASACOR teve ainda outro efeito. Gabriel passou a perceber que havia gente acompanhando seu trabalho não apenas como referência profissional, mas como possibilidade de trajetória. Ele recebe mensagens de estudantes que contam que, ao vê-lo naquele espaço, passaram a acreditar que também poderiam chegar lá. “Eu enxergo meu trabalho hoje como um porta-voz para que outras pessoas também consigam cruzar essas portas”, afirma. Essa dimensão também aparece no Núcleo Amandla, criado por Gabriel para apoiar e capacitar empreendedores de comunidades sub-representadas.

Histórias que ganham forma


Gabriel Rosa - Lavabo Terra Sagrada. Projeto da CASACOR São Paulo 2024.

Gabriel Rosa - Lavabo Terra Sagrada. Projeto da CASACOR São Paulo 2024. (MCA Estúdio/CASACOR)

Na CASACOR, essa disposição para trabalhar a partir de uma história aparece nos dois ambientes que assinou. Em 2024, no Lavabo Terra Sagrada, Gabriel voltou seu olhar para a tradição e a espiritualidade dos himbas, habitantes do norte da Namíbia profundamente ligados ao território. O ambiente de 27 m² foi construído a partir de cores terrosas, cerâmicas artesanais, padrões geométricos e materiais naturais. No ano seguinte, na Adega Legado, o ponto de partida foi o vinho, frequentemente associado à tradição europeia, que apareceu a partir de sua história no continente africano, onde já fazia parte de rituais no Egito antigo há mais de cinco mil anos. O espaço de 33 m² ganhou ares de santuário, com vitral, arcos e madeira em tons quentes.


Agora, ele começa a experimentar essa mesma lógica em uma escala diferente. O escritório prepara uma coleção de joias, aproximando ainda mais moda e design. "Essa coleção de joias também é um momento do mercado enxergar meu olhar para o micro, e tentar juntar um pouco mais a moda para meu universo de design”.

O próximo desenho


Gabriel Rosa - Adega Legado. Projeto da CASACOR São Paulo 2025.

Gabriel Rosa - Adega Legado. Projeto da CASACOR São Paulo 2025. (Vitor Guilherme/CASACOR)

Há ainda um projeto maior: Gabriel quer levar o trabalho para o exterior e colocar a arquitetura brasileira em outro radar. É um movimento que já começou, diz ele, e que pretende aprofundar nos próximos anos. Mas, quando fala sobre o futuro, o que chama atenção é a maneira como ele fala sobre liberdade.


Perguntado sobre o maior sonho profissional, Gabriel pensa um pouco e responde: “eu acho que meu sonho é poder ser um artista livre.” Ele imagina aquele artista que rabisca qualquer coisa e é aclamado pelo mundo. A ideia combina com tudo o que apareceu ao longo da conversa: a defesa da autoria, o gosto por misturar referências, a vontade de experimentar outras áreas e a recusa em caber em uma fórmula pronta. Essa combinação é o que torna o seu momento atual tão interessante: Gabriel parece menos preocupado em provar que chegou do que em descobrir onde ainda pode chegar.