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Ester Carro e arquitetura social: como transformar realidades com projetos de impacto

Fundadora do Fazendinhando, Ester Carro lidera iniciativas voltadas à moradia, aos espaços comunitários e à capacitação de mulheres nas periferias

Por Milena Garcia

Publicado em 7 de set. de 2026, 10:00

10 min de leitura
Ester Carro e arquitetura social: como transformar realidades com projetos de impacto

(Adriana Barbosa/CASACOR)

Muitos projetos arquitetônicos começam pelo desenho do layout, por uma demanda estética ou pela escolha dos materiais. Os de Ester Carro partem, muitas vezes, de questões mais elementares: viver com mais segurança, ter um banheiro dentro de casa ou até transformar um terreno abandonado em um espaço de convivência.


Fundadora do Instituto Fazendinhando aos 23 anos — projeto dedicado à transformação territorial, cultural e socioambiental das favelas —, Ester saiu de Paraisópolis para se tornar um dos principais nomes da arquitetura social no Brasil. Hoje doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pelo Mackenzie, ela levou esse olhar também à CASACOR São Paulo, em participações nas edições de 2023 e 2024 que seguem rendendo frutos até hoje. A seguir, uma entrevista completa sobre a trajetória de Ester Carro.

Do sonho de ser professora até a arquitetura social


Ester Carro

(Instituto Fazendinhando/CASACOR)

O sonho de Ester Carro, inicialmente, não era ser arquiteta. Moradora do Jardim Colombo, no Complexo Paraisópolis, ela passou a infância e a adolescência imaginando que cresceria para se tornar professora. Depois de ouvir muitas vezes de amigos — e até dos próprios professores — que deveria considerar outro caminho, resolveu dar uma chance à arquitetura.


Apesar de serem caminhos bastante diferentes, o propósito de Ester em ambas as profissões era o mesmo: mudar o local onde cresceu. A jovem trabalhou em um escritório de arquitetura, na Secretaria da Habitação e na Secretaria da Infraestrutura Urbana e, antes mesmo de concluir a graduação, já havia fundado o Fazendinhando.


"Eu comecei a olhar a arquitetura com outros olhos, além do processo criativo. Foi naquele momento em que entendi a sua importância como um instrumento de transformação social das favelas. Quando eu entendi melhor as possibilidades da profissão, foi quando eu fiquei encantada", relembra em entrevista à CASACOR.

Arquitetura como instrumento de transformação


Ester enfrentou diversas barreiras para estruturar o Fazendinhando, em 2021. O projeto foi um dos primeiros voltados à construção de moradias e espaços públicos dignos, seguros e acessíveis para pessoas de baixa renda ou em situação de vulnerabilidade no Brasil: a chamada arquitetura social. Segundo ela, quando começou, não havia referências na área nas quais pudesse se inspirar.


"Na faculdade, não se falava em arquitetura social. Quando pensávamos em atuar nas favelas, o trabalho estava sempre relacionado ao poder público, ao urbanismo. O trabalho que eu realizo hoje é diferente. São moradias precárias, interiores invisíveis. São espaços pequenos, mas que têm grandes impactos", comenta.

Projeto casa 4 m² Ester Carro Fazendinhando Paraisópolis Jardim Colombo

Inauguração da nova mini casa do Tiquinho, no Jardim Colombo (Onenoir/CASACOR)

Hoje, no entanto, Ester percebe uma realidade diferente: governos, empresas e os próprios arquitetos passaram a olhar com mais atenção para o que acontece dentro das favelas e a se mobilizar em busca de melhorias. Nesse cenário, o Fazendinhando divide sua atuação em diferentes frentes e busca também capacitar outras instituições no Brasil e no mundo. Entre seus principais projetos, estão:

  • Fazendinha: Projeto de transformação de um lixão do Jardim Colombro em colaboração com os moradores e voluntários para a criação de um espaço público comunitário utilizando materiais reaproveitados.

  • Fazendeiras: Iniciativa dedicada à capacitação de mulheres moradoras de comunidades por meio de cursos e ações nas áreas de gastronomia, artesanato e construção civil.

  • Fazendolar: Frente dedicada à reforma de moradias em situação precária, com o objetivo de transformar as casas em lares mais dignos, seguros e confortáveis.

No Jardim Colombo, em Paraisópolis (SP), o antigo terreno da Fazendinha foi transformado em parque e espaço cultural pelo Instituto Fazendinhando, criado por moradores para promover a regeneração urbana e social da comunidade.

No Jardim Colombo, em Paraisópolis (SP), o antigo terreno da Fazendinha foi transformado em parque e espaço cultural pelo Instituto Fazendinhando, criado por moradores para promover a regeneração urbana e social da comunidade. (Instituto Fazendinhando/CASACOR)

Mesmo com a crescente visibilidade da arquitetura social — e do próprio Fazendinhando —, a presidente do instituto afirma que a dificuldade para conseguir recursos ainda é uma realidade. "Quando falamos em reformas em moradias precárias, não existe um edital no âmbito público para a captação de recursos dentro da área".

Participações na CASACOR e sua repercussão


O impacto do trabalho de Ester Carro no Jardim Colombo a levou à maior mostra de arquitetura, design e paisagismo das Américas: a CASACOR. Sua primeira participação aconteceu em 2023, com o Espaço Motirõ, um ambiente de 34 m² com hall de trabalho, banheiro com lavanderia, sala integrada à cozinha e quarto, pensado para retratar o morar periférico.


"O Espaço Motirõ abriu uma oportunidade de mostrar um outro lado da Ester, um lado mais técnico. Isso porque, nos espaços em que eu trabalho, os desafios são mais complexos. Há não apenas a limitação criativa, mas a limitação de recusos e de espaço. E, ao mesmo tempo, mostrar à sociedade como são essas moradias. Como elas podem ser mais confortáveis. Tudo isso também trazendo aspectos ancestrais e sustentáveis", afirma.

Ester Carro - Espaço Motirõ. Projeto da CASACOR São Paulo 2023. Na foto, loft com beliche, canto alemão e armário com pintura indígena.

Ester Carro - Espaço Motirõ. Projeto da CASACOR São Paulo 2023. (André Mortatti/CASACOR)

Em 2024, Ester assinou a Casa do Wallece, o primeiro projeto de moradia da história da CASACOR. Com pouco mais de 10 m², a iniciativa nasceu do sonho do entregador Wallece Gonzaga de Souza de ter um chuveiro e mais privacidade. A intervenção foi além: resultou em uma residência completa pensada sob medida para suas necessidades.


"Wallece é uma pessoa extraordinária e nós vimos que, após a entrega da casa, outras oportunidades também foram se abrindo para ele, outras capacitações e cursos. Foi algo que mexeu muito comigo, tenho muito orgulho desse projeto".

Wallece Souza e Ester Carro

Wallece Souza e Ester Carro (André Del Casalle /CASACOR)

Dois anos depois, Ester comenta com satisfação sobre os efeitos de suas participações. Um deles está nas parcerias construídas durante a mostra, muitas das quais permanecem ativas. Parte do valor dos ingressos da CASACOR é também doada anualmente ao Instituto Fazendinhando, que recebe materiais retirados dos ambientes após a desmontagem do evento.


O outro está no próprio amadurecimento profissional. "Quando você assina um ambiente na CASACOR, o seu nível de exigência frente a outros projetos se torna muito maior. Por mais que o tempo seja curto, tudo é entregue com um altíssimo nível de detalhes e de qualidade na CASACOR. Isso foi uma escola para mim. Esse nível de exigência, em um bom sentido, eu acabo trazendo hoje para todos os meus projetos".

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Transformação que vai além da arquitetura


Destaque na Forbes Under 30, vencedora do Prêmio de Responsabilidade Socioambiental da Câmara de Vereadores de São Paulo e eleita uma das 100 mulheres extraordinárias do Brasil pelo livro Rebel Girls, Ester Carro vê seus reconhecimentos como uma forma de ampliar a visibilidade de seu trabalho. O alcance da arquitetura, nesse caso, também está em quem ela inspira.


A profissional relembra dois episódios que traduzem esse impacto. "Teve uma criança, com umas 7 ou 8 anos, que me viu na rua e falou: 'eu te vi na Globo, eu quero estar lá um dia também'. Quando uma pessoa da favela, enxerga outra pessoa da favela nesses espaços, automaticamente ela começa a ser uma referência também".

IV Festival Fazendinhando

(Divulgação/CASACOR)

Outra história envolve uma mulher vítima de violência doméstica. Ao fugir do estado onde morava, ela escolheu o Jardim Colombo como refúgio por conhecer o trabalho de Ester na comunidade. Hoje, é formada em Pedagogia e atua como uma das "fazendeiras" do Fazendinhando.


"Nós vamos quebrando um ciclo de mazelas, de violências, de achar que tudo o que vem das favelas é ruim. Na verdade, a criminalidade é uma parcela muito pequena de tudo o que acontece dentro do território. Não é porque temos menos acesso à infraestrutura urbana básica, às oportunidade que não temos uma potência por trás. Essas premiações mostram um outro lado das favelas".

Próximos passos de Ester e do Fazendinhando


Muitos dos sonhos de Ester Carro já se realizaram antes mesmo dos 30 anos. Ainda assim, seus próximos passos já estão desenhados. Entre projetos e parcerias que prefere manter em segredo, uma das principais metas é a construção da sede do Fazendinhando.

Festival das Mulheres, Movimento Fazendinhando

Projeto Fazendinhando que atua no Jardim Colombo, Zona Oeste de São Paulo / (Reprodução/CASACOR)

Além disso, Ester pretende seguir "mobilizando e levando aquilo que nós realizamos" para o Brasil e para a América Latina, por meio de consultorias e da expansão das ações já desenvolvidas pelo Fazendinhando. O que nasceu de uma realidade local começa, aos poucos, a ganhar outras escalas.