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Entre memórias e afetos: conheça Rafaella Manso, destaque na CASACOR São Paulo 2026

Em entrevista, a arquiteta Rafaella Manso fala sobre o processo criativo, os desafios da mostra e o sonho de levar sua linguagem ao exterior

Por Milena Garcia

Publicado em 3 de set. de 2026, 12:00

08 min de leitura
Rafaella Manso na CASACOR São Paulo 2026

Rafaella Manso na CASACOR São Paulo 2026 (Wesley Nery e Henrique Padilha/Divulgação)

Rafaella Manso assumiu a responsabilidade de assinar um ambiente de circulação de 74 m² em sua estreia na CASACOR São Paulo. A oportunidade surgiu 14 anos após sua primeira visita à mostra paulistana e apenas dois anos após a inauguação de seu escritório homônimo. Com sua leitura sensível e profundamente afetiva da arquitetura, a profissional transformou o espaço em um dos mais comentados da edição — tanto pelo clima acolhedor quando pelas escolhas criativas de peças para compor o Notas em Linhas.


A arquiteta viajou o mundo antes de chegar à CASACOR: passou pela Florence University of the Arts (Itália), pela University of the Arts (Reino Unido) e pela Copenhagen School of Design and Technology (Dinamarca). Porém, quando recebeu o desafio de interpretar o tema Mente e Coração na mostra, voltou-se à sua fonte de aprendizados mais íntima, suas memórias em família.

Rafaella Manso Arquitetura - Notas em Linhas. Projeto da CASACOR São Paulo 2026.

Rafaella Manso Arquitetura - Notas em Linhas. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Fernando Crescenti/Divulgação)

Ela relembrou os domingos em que ouvia a avó tocar o piano que havia ganhado na adolescência, em 1951. Às vezes, até mesmo se arriscava a acompanhá-la nas teclas. O instrumento foi o destaque do Notas em Linhas, ao lado de uma escultura de maças feita por Gisele Leal. A peça simboliza fartura, prosperidade e proteção.


As escolhas afetivas conduzem o trabalho de Rafaella Manso para além da CASACOR São Paulo 2026. Após o encerramento do evento, conversamos com a estreante para conhecer as suas inspirações, opiniões e planos futuros. Confira a entrevista abaixo!

Rafaella Manso Arquitetura - Notas em Linhas. Projeto da CASACOR São Paulo 2026.

Rafaella Manso Arquitetura - Notas em Linhas. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Fernando Crescenti/Divulgação)

1. Quais foram os principais desafios de participar da CASACOR? E as principais conquistas?

Rafaella Manso: A estreia é sempre um grande desafio. É entrar em um universo novo e assumir a responsabilidade de assinar um ambiente, em que cada escolha precisa ter uma intenção e contar uma história. No meu caso, o desafio foi ainda maior por se tratar de um ambiente de circulação. Eu não queria criar apenas um espaço de passagem, mas um ambiente de pausa, que convidasse as pessoas a desacelerar e a se conectar com a proposta.


Recebi muitos elogios e tive o projeto divulgado em diferentes matérias e publicações (o que foi muito especial!), mas a maior conquista foi acompanhar a reação dos visitantes, ver pessoas emocionadas e envolvidas com o conceito. Perceber que o ambiente despertou sentimentos e criou uma conexão genuína foi, sem dúvida, a minha maior realização.

Rafaella Manso Arquitetura - Notas em Linhas. Projeto da CASACOR São Paulo 2026.

Rafaella Manso Arquitetura - Notas em Linhas. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Fernando Crescenti/Divulgação)

2. Qual foi o elemento mais especial do seu projeto na CASACOR São Paulo?

R.M.: O ponto de partida do projeto foi muito afetivo, o piano de 1951 da minha avó e o violino do meu avô. Mais do que peças, eles carregam parte da minha história e das minhas memórias familiares. Poder levar esses objetos para dentro do projeto tornou a experiência ainda mais especial, como uma forma de trazer a minha família para esse momento. E, claro, a cascata com mais de 300 maçãs também chamou muita atenção. Foi um elemento inesperado, que despertou a curiosidade dos visitantes e acabou se tornando uma das marcas do ambiente.

3. O que você descobriu fazendo a CASACOR que quem vê de fora nem imagina?

R.M.: O que mais me surpreendeu foi perceber tudo o que existe por trás de um ambiente que, para o visitante, parece simplesmente pronto. São muitas decisões, profissionais, detalhes e histórias envolvidos em cada escolha. Também descobri que, em uma mostra, a arquitetura vai além da estética e da funcionalidade. Cada elemento tem um propósito e ajuda a construir uma experiência. A CASACOR permite explorar o lúdico, o inesperado e soluções que talvez não façam parte de um projeto residencial convencional. É uma oportunidade de provocar, despertar emoções e apresentar a arquitetura de uma maneira diferente.

4. Como funciona o seu processo criativo para desenhar um novo projeto?

R.M.: Meu processo começa pela escuta. Antes de pensar em formas, cores e materiais, procuro entender quem vai viver aquele espaço, sua história, personalidade, rotina e desejos. A partir daí, busco um conceito que conduza as escolhas e dê identidade ao projeto. Gosto que cada elemento tenha um propósito e converse com o conjunto. Também acredito muito no equilíbrio entre estética e funcionalidade. Um projeto precisa ser bonito, mas, principalmente, precisa fazer sentido para quem vai utilizá-lo. Muitas vezes, a inspiração vem de uma memória, uma obra de arte, uma viagem, um material ou até de algo simples do cotidiano.

5. O que um arquiteto precisa ter para se destacar no mercado atualmente?

R.M.: Acredito que, acima de tudo, precisa ter identidade. Em um mercado com tantas referências e informações, ter um olhar próprio e desenvolver uma linguagem faz toda a diferença. Mas não basta ter repertório estético. É preciso estar aberto a aprender, acompanhar as transformações do mercado, conhecer novos materiais e tecnologias e, principalmente, entender as pessoas para quem estamos projetando. Para mim, arquitetura também é sobre contar histórias. Um projeto com conceito e propósito vai além de uma tendência e consegue criar uma conexão verdadeira com as pessoas.

Rafaella Manso

(Divulgação)

6. Qual sonho profissional você gostaria de realizar?

R.M.: Um dos meus grandes sonhos é conquistar cada vez mais um reconhecimento internacional, levando meu trabalho para novos públicos e mercados. Tenho muita vontade de participar de uma edição internacional da CASACOR e levar minha linguagem, meu olhar e a forma como acredito na arquitetura para uma esfera global.

Projeto de Rafaella Manso

(Divulgação)

7. Indique um livro, filme ou destino que moldou seu olhar criativo.

R.M.: Alguns destinos foram muito importantes para construir o meu olhar criativo. Copenhagen, pela arquitetura, pelo design e pela forma como o funcional e o estético convivem de maneira tão natural. Lisboa, pela história, pelas cores, pelas texturas e pela capacidade de preservar sua identidade ao mesmo tempo em que se reinventa.


E Alagoas, especialmente pela riqueza do artesanato, das técnicas tradicionais e dos materiais naturais. Gosto muito da valorização do feito à mão e de como a cultura local está presente nos detalhes. Um exemplo especial foi a obra da artista Fernanda Jatobá, uma escultura têxtil em macramê criada exclusivamente para o meu ambiente. Foi uma peça que trouxe ainda mais personalidade e significado ao projeto.