Após sua 11ª participação na CASACOR São Paulo, Paulo Azevedo fala sobre memória, processo criativo, referências e os caminhos que pretende seguir
Publicado em 29 de ago. de 2026, 10:00

Paulo Azevedo (Fran Parente/CASACOR)
Paulo Azevedo entregou seu ambiente mais artístico entre todas as onze participações durante a CASACOR São Paulo 2026. O arquiteto diz que foi a vez que menos se preocupou com a repercussão e mais com expressar a sua verdade. A grande ironia (ou talvez, exatamente por isso) é que Memórias Costuradas em Uso foi um dos grandes sucessos da edição, tornando o nome de Paulo Azevedo um dos mais comentados do elenco.
Paulo Azevedo - Memórias Costuradas em Uso. (Carolina Mossin/CASACOR)
Localizado próximo à entrada do primeiro casarão da CASACOR, o projeto consistiu em uma cabana de 12 m² que traduzia perfeitamente o tema Mente e Coração ao refletir sobre afetos acumulados, luxo de habitar o tempo e aquilo que fica quando tudo passa: nossas memórias. Tanta profundidade vem da própria visão que Paulo Azevedo tem da arquitetura – e que se faz presente em tantos outros de seus trabalhos além da mostra.
Paulo Azevedo - Memórias Costuradas em Uso. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Carolina Mossin/CASACOR)
A CASACOR São Paulo 2026 chegou ao fim, mas talentos como esse merecem continuar sendo celebrados. A seguir, uma conversa para conhecer Paulo Azevedo para além de Memórias Costuradas em Uso, suas inspirações, conselhos e mais.
Paulo Azevedo: O principal desafio foi fazer um projeto que tivesse verdade. A CASACOR é um lugar onde existe uma expectativa muito grande de novidade, de impacto visual, de fotografia. E eu queria fazer justamente o contrário: criar um espaço que não dependesse apenas da imagem, mas que tivesse uma história e pudesse ser vivido.
Também foi um projeto muito intenso do ponto de vista de produção. Trabalhamos com uma estrutura grande de patchwork costurada à mão por seis costureiras, diferentes fornecedores e muitos elementos que precisavam conversar entre si. Fazer tudo isso acontecer em um prazo tão curto exige bastante da equipe e, principalmente, muita capacidade de adaptação.
A maior conquista foi perceber que o projeto conseguiu ultrapassar a ideia de 'cenário'. As pessoas entravam, queriam ficar, sentavam, mexiam nas coisas, olhavam os detalhes. Para mim, esse é o melhor indicador de que uma arquitetura funcionou.
Paulo Azevedo - Memórias Costuradas em Uso. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Carolina Mossin/CASACOR)
P.A.: Sem dúvida, a grande tenda de patchwork. Ela acabou sendo a síntese do projeto. O tecido foi construído manualmente, com retalhos e diferentes estampas. Existe uma beleza muito grande nessa ideia de juntar fragmentos que, isoladamente, talvez não significassem muita coisa, mas que juntos criam uma nova paisagem.
E acho que isso tem muito a ver com a própria ideia de 'memórias costuradas em uso': uma casa também é feita assim, de objetos, lembranças, viagens, pessoas, coisas novas misturadas com coisas antigas. Nada precisa combinar perfeitamente para fazer sentido.
P.A.: Descobri que arquitetura é muito menos controlável do que parece. Quando você desenha um projeto no papel, existe uma sensação de que tudo pode ser previsto. Na obra, você descobre que cada material tem uma personalidade, cada fornecedor tem seu tempo, cada detalhe pode criar um problema novo. E, no final, boa parte do trabalho é saber escolher quais batalhas realmente importam.
Também descobri o quanto existe de trabalho invisível por trás de uma imagem pronta. Uma fotografia de um ambiente pode parecer simples, mas existe uma quantidade enorme de pessoas, decisões, testes, ajustes e improvisos para chegar àquele enquadramento.
Paulo Azevedo - Cabana do Lago. Projeto da CASACOR São Paulo 2024. (Israel Gollino/CASACOR)
P.A.: Eu começo muito mais pela história do que pela estética. Gosto de entender quem vai viver naquele espaço, o que essa pessoa guarda, de onde veio, para onde viaja, o que gosta de ver, tocar, colecionar. Depois começo a construir uma espécie de repertório – com referências de arquitetura, arte, moda, cinema, objetos, tecidos, cores.
Não acredito muito em começar um projeto pensando 'qual é o estilo?'. Prefiro perguntar 'qual é a personalidade desse lugar?'. A partir daí, a estética aparece quase como consequência. E gosto muito da mistura. Antigo com novo, sofisticado com simples, uma peça muito especial ao lado de uma coisa quase banal. Acho que os espaços mais interessantes são aqueles que não parecem ter saído de uma única loja.
Projeto de Paulo Azevedo. (Fran Parente/CASACOR)
P.A: Acho que precisa ter repertório, mas também precisa ter opinião. Hoje existe uma quantidade enorme de informação disponível e, consequentemente, uma quantidade enorme de projetos visualmente parecidos. É muito fácil saber o que está na moda. O difícil é desenvolver um olhar próprio.
Também acho fundamental saber comunicar esse olhar. Um bom projeto precisa ser bom na realidade, mas vivemos em uma época em que ele também precisa conseguir contar sua história.
E, principalmente, é preciso ter curiosidade. Continuar olhando para o mundo, viajando, entrando em hotéis, restaurantes, museus, casas, mercados, olhando para uma vitrine aparentemente banal e pensar: 'por que isso me interessa?'.
Paulo Azevedo - Speakeasy. Projeto da CASACOR São Paulo 2023. Na foto, bar com mesas e cadeiras, piso e parede estampado e quadros. (Marco Antonio/CASACOR)
P.A.: Tenho vontade de levar meu trabalho cada vez mais para fora do Brasil e trabalhar em projetos que sejam capazes de cruzar arquitetura, interiores, objetos e hospitalidade.
Quero fazer um hotel fora do país em que eu possa participar de tudo, do conceito à última luminária. Um projeto com identidade muito forte, mas que não parecesse uma extensão do meu escritório no Brasil.
E tenho também uma vontade antiga de criar uma coleção de objetos e móveis. Acho interessante quando o arquiteto consegue sair do espaço e desenhar aquilo que vai habitá-lo.
Casa de Paulo Azevedo em São Paulo. (Fran Parente/CASACOR)
P.A.: Eu diria que a Itália, de maneira geral, moldou muito o meu olhar. Não apenas pela arquitetura, mas pela maneira como os italianos convivem com o tempo. Um palazzo pode ter séculos de história, uma cadeira dos anos 1950 e uma luminária contemporânea, e ninguém parece preocupado em fazer tudo parecer novo. Existe uma naturalidade na convivência entre épocas que me interessa muito.
Um filme que amo e que me inspira há muitos anos é A Single Man, do Tom Ford. Escolhi falar dele porque é um filme em que a estética nunca aparece separada da narrativa. Cada cor, cada textura, cada enquadramento e cada objeto ajudam a construir o estado emocional dos personagens e a atmosfera da história. O filme tem uma elegância muito precisa, mas, ao mesmo tempo, existe uma melancolia e uma humanidade muito fortes por trás daquela imagem tão controlada.
Acho que isso também se aproxima da maneira como penso os espaços. Não me interessa criar ambientes bonitos apenas para serem fotografados. Gosto quando a beleza está ligada a uma história, quando existe uma sensação de tempo, de uso e de vida acontecendo ali.