comScore
CASACOR
Profissionais

Wesley Lemos: o arquiteto que há 20 anos faz da CASACOR um instrumento de transformação social

Com três ambientes em duas mostras simultâneas — e mais uma a caminho —, Wesley Lemos usa a CASACOR para falar sobre o papel social da arquitetura

Por Milena Garcia

Publicado em 7 de ago. de 2026, 12:23

Mais de 10 min de leitura
Wesley Lemos.

Wesley Lemos. (Instagram/@branco.casa/CASACOR)

Poucos profissionais conseguem imprimir uma identidade tão consistente em projetos distintos quanto Wesley Lemos. Presente na CASACOR há mais de duas décadas, o arquiteto vive um dos momentos mais intensos de sua trajetória: em 2026, assina dois ambientes na CASACOR Bahia, um na CASACOR São Paulo e já se prepara para a estreia da CASACOR Sergipe, marcada para 1º de outubro. Apesar das linguagens estéticas distintas, seus projetos compartilham um mesmo propósito: utilizar a arquitetura como ferramenta de transformação social.

Wesley Lemos - Casa Bem Vivida Electrolux. Projeto da CASACOR Bahia 2026.

Wesley Lemos - Casa Bem Vivida Electrolux. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)

Natural de Estância (SE), Wesley faz questão de manter suas origens como fio condutor de suas criações. Em Geometria do Afeto, na Galeria de Arte Ernesto Bitencourt | Aurelino dos Santos e na Casa Bem Vivida Electrolux, o profissional explora temas como inclusão, ancestralidade e regionalismo, demonstrando que a arquitetura também pode preservar memórias, provocar reflexões e ampliar vozes. A seguir, ele fala sobre inspirações, processo criativo e o propósito que atravessa sua atuação na CASACOR.

Wesley Lemos - Galeria de Arte Ernesto Bitencourt | Aurelino dos Santos. Projeto da CASACOR Bahia 2026.

Wesley Lemos - Galeria de Arte Ernesto Bitencourt | Aurelino dos Santos. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)

1. Conte sobre o conceito e as referências do seu ambiente na CASACOR São Paulo 2026.

"O espaço da CASACOR São Paulo é um retorno à mostra meu após um hiato de quatro anos. Eu quis aproveitar a oportunidade dessa escada para trazer uma expografia artística mostrando um pouco esse meu outro lado, que além de arquiteto e designer de produtos, também sou curador. Foi uma grande oportunidade de criar uma grande instalação – onde reuni muitos artistas independentes em volta do Parque da Água Branca. Eu quis mostrar aos visitantes que a arte vai além dos quadros na parede. Ela envolve a pesquisa e a intelectualidade dos artistas, não apenas a matéria".

Wesley Lemos - Geometria do Afeto. Projeto da CASACOR São Paulo 2026.

Wesley Lemos - Geometria do Afeto. (Juliano Colodeti, do MCA Estúdio/CASACOR)

2. Conte sobre o conceito e as referências dos seus ambientes na CASACOR Bahia 2026.

"Na Bahia, nós entregamos dois ambientes. Um deles é a Casa Bem Vivida Electrolux. Fomos convidados pela marca a assinar um dos espaços mais importantes da mostra. Para mim, foi um desafio falar sobre design em um espaço de eletrodomésticos e tecnologia, mas preservando o meu olhar sobre história, antropologia e o bem viver na Bahia. Acho que o projeto resume uma maturidade minha e do meu escritório em atingir um resultado sem necessariamente impor algum estilo, sem ser alegórico. A ideia era descaracterizar os atributos do imóvel até chegar ao original, um casarão de quase 200 anos.


Nessa toada, eu venho repetindo o meu trabalho de curadoria pelo terceiro ano consecutivo na CASACOR Bahia. Dessa vez, nós quisemos mostrar aos visitantes quais são os verdadeiros artistas que fizeram os pilares modernistas e contemporâneos da Bahia. O ápice desse movimento foi abrir o claustro da Casa Nossa Senhora das Mercês, pela primeira vez, para abrigar a Galeria Aurelino dos Santos. Ele é um mestre descoberto pela Lina Bo Bardi na década de 1970 e faz parte de grandes coleções pelo mundo. É um artista popular, mas que constrói sua narrativa dentro do centro urbano – um lugar diferente do que estamos acostumados a ver nas artes. O Aurelino é um daqueles homens à margem da sociedade, que desenvolve uma intelectualidade própria e uma geometria absoluta.

Wesley Lemos - Galeria de Arte Ernesto Bitencourt | Aurelino dos Santos. Projeto da CASACOR Bahia 2026.

Wesley Lemos - Galeria de Arte Ernesto Bitencourt | Aurelino dos Santos. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)

3. Os três ambientes apresentam estéticas bastante diferentes, especialmente em relação às cores. Como cada um deles se relaciona com o tema Mente e Coração?

"O tema da CASACOR combina muito com o que eu faço também no meu dia a dia. Eu sempre falo que eu não trabalho com decoração, eu trabalho de-coração. É como se fosse do meu coração para o coração de quem está me contratando, me escolhendo. Eu acredito que esse tema desmaterializa muita coisa que o mercado pregou durante muitos anos: as tendências, a cor do ano, os materiais do ano, o artista do ano... O que estamos buscando agora é mais verdade e menos algoritimo.


Mente e Coração se alinham nesses ambientes quando eu busco traduzir minha ancestralidade afro-brasileira e recontar histórias. Por exemplo, falar do Aurelino na CASACOR Bahia é validar a experiência de um homem não-alfabetizado, neurodivergente, mas que não perde em nada para alguém que foi para a universidade. Já na Casa Electrolux, eu empresto a minha própria história e levo meus objetos pessoais ao espaço – trazendo emoção e mostrando que eu também posso usufruir daquilo que sempre projetei aos meus clientes.


Na CASACOR São Paulo, eu falo sobre esse lugar que precisamos ter, enquanto sociedade, de andar de mãos dadas, homens pretos e homens brancos. Não me interessa vir para uma mostra apenas apresentar uma tendência, o que me faz vir aqui é discutir o papel social do arquiteto, provar que podemos avançar com estética, mas também com compromisso de uma transformação social".

Wesley Lemos - Geometria do Afeto. Projeto da CASACOR São Paulo 2026.

Wesley Lemos - Geometria do Afeto. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Juliano Colodeti, do MCA Estúdio/CASACOR)

4. Como está sendo a experiência de participar das duas mostras ao mesmo tempo, assinando três ambientes?

"É muito louco, mas eu tenho paixão demais por tudo o que eu faço. Me dedicar tanto a esse trabalho talvez seja uma transposição de fases da vida para mim. E ainda vou fazer mais uma CASACOR esse ano: Sergipe! Quando menos espero, eu recebo uma ligação com o convite.


Lá, eu vou assinar um espaço de convivência e uma enoteca. A ideia é levar para o grande público a cultura do vinho – que não está só na Itália, ela está presente em vários lugares das Américas e da África também. Eu vou resgatar a história do vinho como um lugar de fartura, prosperidade, reunião e multiplicação".

5. Como funciona o seu processo criativo ao desenvolver um ambiente para a CASACOR?

"É um turbilhão, viu? Não é fácil, porque eu estou sempre viajando. Eu vivo em três lugares distintos: Aracaju, Salvador e São Paulo. Minhas inspirações vêm de tudo, às vezes de lugares de amor, às vezes de dor. Vejo muitas notícias tristes sobre a realidade das pessoas marginalizadas que compõem o meu processo criativo. Meu trabalho perpassa pelo cultural, mas também tem um lado social muito forte. Os meus olhares são muito abertos, para, quem sabe de alguma forma, tentar superar e contribuir para um mundo melhor".

Wesley Lemos - Casa Bem Vivida Electrolux. Projeto da CASACOR Bahia 2026.

Wesley Lemos - Casa Bem Vivida Electrolux. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)

6. Quais as dicas para fazer uma boa curadoria de peças e obras de arte, como você fez em seus projetos?

"Eu acho que o primeiro passo é fugir do comodismo comercial, esse efeito manada. O segundo é tentar entender aquilo que você está usando. Eu só uso aquilo que verdadeiramente me apaixono e, para isso, eu tenho que entender. Eu quero saber como é a fabricação, se polui ou não, se utiliza mão de obra escrava ou não, de onde vem...


Antes mesmo de me tornar arquiteto, eu sempre fui muito curioso. Mas, com a profissão, veio a responsabilidade de seguir à risca o que me trouxe até aqui: as novas linguagens contemporâneas, as questões de sustentabilidade, as ODS da ONU, a preservação das comunidades tradicionais, o fazer manual... Além disso, gosto de enxergar sempre equidade, tanto racial quanto de gênero e etária.


É complexo, mas depois que você aprende essa cartilha, você descoloniza seu pensamento. Não tem nada que chegue até você que você não faça esse raio-x rápido. Esse exercício é para qualquer pessoa, de qualquer área. É importante você olhar para um objeto, situação ou evento e conseguir enxergar diversidade".

Wesley Lemos - Geometria do Afeto. Projeto da CASACOR São Paulo 2026.

Wesley Lemos - Geometria do Afeto. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Juliano Colodeti, do MCA Estúdio/CASACOR)

7. Como você interpreta a importância falar sobre ancestralidade em seus trabalhos?

"Quando falamos em ancestralidade, é de um lugar em que podemos recriar e recontar histórias através da cosmovisão [modo particular como um indivíduo ou grupo enxerga, interpreta e responde ao mundo]. A Grada Kilomba, que é uma grande artista contemporânea, diz que a arte é o verdadeiro lugar onde a cura da colonialidade pode existir. Então, essa questão de buscar esse passado que poderia ter sido diferente, é também sobre o desejo de criar um futuro melhor. Tem um ditado africano que é Ubuntu: só é bom para mim quando é bom para todo mundo. Eu ainda insisto nisso".

Wesley Lemos - Casa Bem Vivida Electrolux. Projeto da CASACOR Bahia 2026.

Wesley Lemos - Casa Bem Vivida Electrolux. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)

8. Após duas décadas de CASACOR, o que você diria para o Wesley que estava apenas começando?

"Eu diria: 'Valeu a pena ter brincado tanto de casinhas'. As minhas brincadeiras sempre foram assim. Eu via meu pai construir todas as casas em que moramos, com as próprias mãos. Tem fotos minhas de criança carregando tijolos, dos multirões que fazíamos com os amigos para construirmos nossas casas. Valeu muito a pena e hoje eu consigo desfrutar de conforto para mim e para os meus.


Hoje eu não construo paredes, mas construo a geometria do afeto. Eu acredito muito que a arte e o design unem, transformam e transcendem. Assim como transcendeu a minha vida, ao sair da escassez e hoje poder aproveitar com responsabilidade o meu lugar".