À frente do GF Estúdio 55, Gabriel Fernandes transforma pesquisa de campo e cultura popular em uma linguagem autoral
Publicado em 24 de set. de 2026, 10:00

Gabriel Fernandes (Divulgação)
Nascido e criado em Praia Grande, no litoral paulista, Gabriel Fernandes encontrou na arquitetura um caminho para investigar diferentes maneiras de morar e, ao mesmo tempo, valorizar o fazer manual brasileiro. Antes de se formar em Arquitetura e Urbanismo e fundar o GF Estúdio 55, iniciou um curso de Moda, mas foi a convivência desde a infância com o trabalho artesanal da mãe que deixou uma das marcas mais duradouras em seu olhar criativo.
Gabriel Fernandes - Casa Simonetto - Tributo a Janete Costa. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/Divulgação)
Essa relação ganhou novas camadas a partir de 2020, quando criou o projeto Brasis que Vi, uma pesquisa sobre modos de habitar em diferentes regiões do país. As descobertas feitas ao longo das viagens passaram a atravessar seus projetos, marcados pela presença da arte popular, do artesanato, de materiais brasileiros e de referências culturais diversas, sempre interpretados a partir de uma linguagem contemporânea. Em quatro participações na CASACOR, essa pesquisa também encontrou espaço em novas escala — e levou o arquiteto à capa do anuário da mostra, selecionado como um dos ambientes mais memoráveis, em duas edições.
Gabriel Fernandes - Casa Simonetto - Tributo a Janete Costa. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/Divulgação)
Na CASACOR São Paulo 2026, Gabriel apresentou a Casa Simonetto – Tributo a Janete Costa, uma morada de 160 m² que presta homenagem à arquiteta e designer pernambucana conhecida por aproximar arquitetura, design e arte popular. Inspirado pelo tema Mente e Coração, o projeto reúne monumentalidade, simetria, marcenaria em pau-ferro, entalhes feitos à mão, tecidos de tear manual e obras ligadas ao universo de Janete Costa, colocando a manualidade brasileira no centro da narrativa. A seguir, Gabriel Fernandes fala sobre sua trajetória, as pesquisas que moldaram seu trabalho e os caminhos por trás de sua quarta participação na CASACOR.
Gabriel Fernandes: Para esse ano, meu ambiente localizado no último pavimento da mostra, carregava em conjunto com todos os privilégios, as dificuldades também. A manipulação de materiais e a administração das entregas em um edifício histórico (que requer uma atenção muito delicada de cuidado para que a integridade do patrimônio seja mantida), no andar mais alto do prédio, foi um fator de preocupação a mais.
As conquistas eu penso que o resultado evidencia bastante. Tivemos a honra de ser a capa do anuário CASACOR São Paulo este ano, fomos agraciados também com a capa de uma revista internacional e todo o alcance de mídias muito significativo, o que eu considero muito importante na escala do trabalho que nós, do GF Estúdio 55, nos propomos a fazer: os artesãos são vistos, os trabalhos são apresentados, nós conseguimos criar protagonismo para os elementos que marcam e valorizam nossa cultura e o poder criativo do nosso povo.
GF: A estante Simonetto, que projetamos em madeira natural Pau-Ferro com as gavetas entalhadas a mão, uma a uma por Nelinho (Rondinelly Santos), que é um artesão muito importante de Tiradentes, em Minas Gerais. Nós a projetamos para isso, para ser o elemento principal.
Além do trabalho de Nelinho ter uma estética muito ligada ao Barroco, ele fala sobre esse resgate da manualidade com muita intensidade – é sobre o volume na madeira que ele consegue trazer para a terceira dimensão com a sutileza que só a mão humana consegue regular com tanta preciosidade. O trabalho de Nelinho fala sobre as nossas riquezas. Ele evidencia nossas ancestralidades, e complementa tudo o que acreditamos ser o ideal para um futuro promissor de valorização da nossa própria identidade.
Outro ponto importante que eu preciso destacar é o tecido do sofá, produzido pelo Instituto Renato Imbroisi no Muquém, também em Minas Gerais, um território que teve esse resgate da técnica do tear manual através do designer que trabalha desenvolvendo comunidades de artesanato e trabalhos manuais pelo mundo todo. Esse trabalho específico foi um desenvolvimento meu com Renato, em um xadrez delicado.
Gabriel Fernandes - Casa Simonetto - Tributo a Janete Costa. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/Divulgação)
GF: A importância da resiliência dentro dos projetos de arquitetura. A arquitetura é uma disciplina muito abrangente que faz parte da nossa habitação desse universo, desde que conscientemente no colocamos nesse mundo, nós procuramos um abrigo e fomos em busca de ir atendendo as nossas necessidades que foram mudando de lugar e sendo evoluídas, assim surgiu o design para resolver os elementos básicos do nosso dia a dia e a arquitetura para resolver a nossa estada por aqui.
Depois que o básico foi resolvido, nós começamos a procurar por resolver outras necessidades, e elas foram deixando cumprir somente o seu papel inicial de concepção e passando a exigir uma série de critérios estabelecidos por uma régua que a gente se propõe a elevar ou crescer todos os dias.
Se você não estiver disposto a resistir e se reinventar o tempo todo para chegar em um resultado que seja coerente com as suas próprias expectativas, você nunca chegará em um resultado que toque um visitante de CASACOR, por isso afirmo que resiliência, ainda foi um dos principais atributos que essas quatro participações no evento me trouxeram.
Gabriel Fernandes - Casa Veredas Simonetto. Projeto da CASACOR São Paulo 2024. (MCA Estúdio/Divulgação)
GF: Minha pesquisa sobre cultura brasileira é o que norteia tudo o que fazemos pelo GF Estúdio 55. Nós somos um time plural, uma equipe de profissionais super ‘antenada’ que busca evoluir o processo pautado sempre nas referências que nossos olhos enxergam beleza, isso faz com nossos processos sejam discutidos em diferentes escalas de expectativas. Neste ano nós apresentamos na CASACOR um tributo à Janete Costa, essa mulher que foi pioneira no processo de valorização da arte popular e do artesanato no Brasil. Nós entendemos nosso lugar de privilégio por ocupar o lugar em que estamos no mercado hoje, e a nossa busca é ocupar esse lugar com responsabilidade social também.
Para mim, jamais faria sentido ir buscar referências em Milão, Paris ou qualquer outra capital do mundo, se nós produzimos casas em um país tropical, que o calor chega 40 graus com facilidade – de que forma eu posso me apropriar de referências pensadas para resolver problemas de um povo totalmente diferente do nosso, que vive em um clima oposto, para fazer casas no Brasil? Nós temos grandes projetos recém-chegados no país, pensados e idealizados por profissionais internacionais que precisaram de profissionais brasileiros para serem tropicalizados. Foi construindo todo esse pensamento que nós decidimos olhar para tudo aquilo que tinha em nosso quintal.
Gabriel Fernandes - Casa de Novela. Projeto da CASACOR São Paulo 2025. (Denilson Machado/Divulgação)
GF: Propósito e personalidade são os dois grandes fatores que podem nos diferenciar um dos outros. Qual é a verdadeira intenção desse trabalho? Que tipo de expectativa eu tenho com ele? Quando isso fica claro, e você se propõe a trabalhar para chegar no seu objetivo, o caminho fica mais claro.
GF: Eu não tenho grandes expectativas profissionais tão especificas ao ponto de conseguir listá-las, eu tenho vontade de evoluir meu processo, minha arquitetura e me perceber vivo dentro disso. Eu vibro quando faço um trabalho que eu gosto, que eu me orgulho do resultado, que eu consigo enxergar o resultado da dedicação, impresso ali, na forma ele se mostra para o mundo. Meu maior sonho é ver meu trabalho tocando as pessoas com a mesma intensidade com que ele me toca.
Gabriel Fernandes - Somos. Projeto da CASACOR São Paulo 2022. (Denilson Machado/Divulgação)
GF: Minha linguagem se transformou quando estive pela primeira vez em Trancoso. A Bahia tem uma energia que é mágica. Eu senti o tempo passar diferente, eu consegui ver as coisas acontecerem no seu tempo, eu entendi a beleza da simplicidade e a força da natureza e, desde então, eu soube que o Brasil seria o meu lugar no mundo e fui investigar a vida do nosso povo com os meus próprios olhos através do Brasis Que Vi.
Gabriel Fernandes moderniza casa projetada por Bernardes Arquitetura. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/Divulgação)