Entre reciclagem e doações, a desmontagem da CASACOR São Paulo prolonga a vida útil de materiais e peças presentes nos ambientes
Publicado em 26 de ago. de 2026, 8:00

Estudio Musgo - Refúgio Fleury. Divisor do circuito de visitação, o jardim assinado pelo paisagista Denis Bessa e sua equipe se coloca como um intervalo sensorial. Provocar pequenos deslocamentos na atenção dos passantes — por meio de contrastes entre as texturas das plantas ou mesmo da variação da incidência de luz sobre elas, por exemplo — dispara uma espécie de reorganização pessoal. A paisagem de 270 m² tira partido de figuras geométricas que se desdobram em recortes no deque de garapeira, em uma linguagem ritmada e precisa. Espalhados pelo caminho, há espelhos de Tomas Graeff e poltronas de balanço Astúrias, de Carlos Motta. (Juliano Colodeti, do MCA Estúdio/CASACOR)
A CASACOR São Paulo 2026 chegou ao fim em 9 de agosto e, com isso, uma nova etapa da organização do evento é iniciada: a desmontagem. Com forte viés sustentável, a mostra tem como prioridade a destinação correta de tudo o que foi utilizado nos ambientes expositivos – do encaminhamento para reciclagem até as doações de itens e materiais para as diversas ONGs parceiras da CASACOR.
(Adriana Barbosa/CASACOR)
Sob a supervisão do diretor de operações Darlan Firmato, o processo começa antes mesmo do encerramento, com o pré-cadastro de arquitetos e marcas interessados em realizar doações. A partir daí, Alice Criado, consultora da CICLO e responsável pela operação Lixo Zero, entra em contato com as organizações parceiras e coordena a separação entre os itens que podem ser reaproveitados e aqueles que devem seguir para reciclagem. O trabalho contribui para que a CASACOR São Paulo mantenha o Certificado Lixo Zero há seis edições consecutivas.
(Adriana Barbosa/CASACOR)
A seguir, conheça as ações sustentáveis e sociais que fazem parte da desmontagem da maior mostra de arquitetura, design de interiores e paisagismo das Américas.
A atuação de Alice Criado acompanha diferentes momentos da CASACOR São Paulo: começa na gestão dos resíduos gerados durante a montagem, passa pelo lixo comum produzido ao longo do funcionamento da mostra e chega à desmontagem. Consultora Lixo Zero certificada pelo Instituto Lixo Zero Brasil (ILZB), ela trabalha para garantir que os resíduos sejam separados e encaminhados de acordo com suas características. A certificação é concedida a empresas e eventos que comprovam o desvio de pelo menos 90% dos resíduos de aterros sanitários.
(Adriana Barbosa/CASACOR)
Após o encerramento do evento, uma das principais tarefas é justamente a triagem dos resíduos de obra. “Os entulhos ficam em caçambas menores, enquanto madeira, gesso e materiais recicláveis ficam em caçambas maiores. Cada um desses itens tem um sistema de reciclagem próprio”, explica Alice em entrevista à CASACOR.
(Adriana Barbosa/CASACOR)
Nem tudo o que é retirado dos ambientes durante a desmontagem se transforma em resíduo. Muitos materiais permanecem em perfeito estado e podem continuar sendo utilizados depois do fim da mostra. Entre eles estão pisos, azulejos, decks de madeira, bancadas de pedra e bacias sanitárias. Portas, itens de marcenaria, peças de vidro e acessórios de jardinagem também estão entre os materiais que podem ganhar uma nova destinação.
As ONGs parceiras têm prioridade na escolha dos itens disponíveis, mas pessoas físicas também podem demonstrar interesse por materiais que não sejam absorvidos pelas instituições. “Nós buscamos sempre as ONGs primeiro para que elas informem se têm interesse naquele material ou não. Para nós, o mais importante é que tudo tenha um bom uso após a CASACOR. Não queremos que nada vá para o lixo”, ressalta Alice.
Todos os anos, diferentes organizações são cadastradas para receber materiais provenientes da desmontagem da CASACOR São Paulo. Entre as instituições parceiras estão Lia Esperança, Rogacionistas e Fazendinhando, projeto da arquiteta e integrante do elenco CASACOR Ester Carro. Para Alice, a destinação desses materiais representa uma oportunidade de prolongar sua vida útil e atender necessidades concretas das comunidades.
Cada organização define como os itens serão distribuídos ou incorporados aos próprios projetos. No Fazendinhando, por exemplo, cerca de 35% dos materiais utilizados nas reformas realizadas pela instituição são reaproveitados. “Tudo é pensado para ganhar um novo uso, seja nas nossas próprias reformas, seja por meio da destinação desses materiais para outras famílias e projetos do território. O que chega ao Fazendinhando sempre encontra uma nova possibilidade de uso”, explica Ester.
A arquiteta também destaca outro aspecto desse processo: a possibilidade de levar materiais de qualidade para famílias de baixa renda. “Dentro do Fazendinhando, prezamos muito pela qualidade arquitetônica e acreditamos que isso também faz parte da promoção da dignidade. É muito interessante perceber o impacto que esses materiais têm para os próprios moradores. Muitas vezes, eles nos dizem coisas como: ‘Nossa, eu não imaginava que poderia ter um porcelanato na minha casa’. Existe uma mudança na própria percepção que essas pessoas têm sobre a casa onde vivem”, finaliza ela.