Com 1.280 m², projeto "O Avesso do Chão" combina vegetação do Cerrado, espécies adaptadas e soluções de reaproveitamento de materiais
Publicado em 17 de set. de 2026, 10:00

Estúdio Solo - O Avesso do Chão. Projeto da CASACOR Brasília 2026. (Edgard César/CASACOR)
Na CASACOR Brasília 2026, o Estúdio Solo, de Bárbara Oliveira Queiroz e Gabriel Domingues de Souza, criou O Avesso do Chão a partir de uma premissa diretamente ligada ao território: valorizar espécies adaptadas às condições do Cerrado. Em seus 1.280 m², o jardim reúne plantas nativas e outras selecionadas por sua adaptabilidade ao bioma e pela baixa demanda hídrica.
Essa escolha parte de um princípio importante do paisagismo nativo: uma planta ser brasileira não significa que seja naturalmente encontrada (ou adequada!) a todos os biomas do país. Espécies originárias de outras regiões podem ter necessidades diferentes de clima e solo e, em alguns casos, podem se tornar invasoras. Priorizar plantas nativas ou bem adaptadas às condições locais favorece jardins mais resilientes e pode reduzir as demandas de manutenção, além de contribuir para a biodiversidade do entorno.
O Avesso do Chão convida o visitante a percorrer um jardim que se revela aos poucos, transformando o caminhar em uma experiência de descoberta. A vegetação assume papel central, alternando copas densas e espécies rasteiras para criar diferentes percepções de acolhimento e amplitude. Como mencionado, as espécies vegetais escolhidas tiveram como critérios a adaptabilidade ao bioma local: o Cerrado.
Estúdio Solo - O Avesso do Chão. Projeto da CASACOR Brasília 2026. (Edgard César/CASACOR)
"Nossa ideia foi trazer as pessoas para o momento presente. Não queríamos que fosse um passeio que as pessoas dessem de forma automática. Então, fizemos o desenho de forma que os visitantes fossem descobrindo os caminhos aos poucos. Acreditamos que o jardim é muito mais interessante quando ele não se mostra todo de uma vez. Gostamos de dar pequenos spoilers da vegetação, sabe?", explica Bárbara em entrevista à CASACOR.
Os jardins característicos do Cerrado são definidos pelo uso de plantas adaptadas a longos períodos de seca e aos solos ácidos. Gramíneas ornamentais aparecem em composições com arbustos e ervas floridas. Muitas dessas plantas costumam mudar radicalmente de cor, aspecto, floração e frutificação ao longo das estações do ano – seguindo as transformações enfrentadas pelo bioma.
Estúdio Solo - O Avesso do Chão. Projeto da CASACOR Brasília 2026. (Edgar César/CASACOR)
A dupla do Estúdio Solo ressalta que, no entanto, o acesso às plantas nativas do Cerrado ainda é escasso atualmente. "Infelizmente, o nosso mercado ainda é muito pequeno. São plantas com uma peculiaridade de produção e que ainda não tem uma demanda alta, então a oferta também é fraca", menciona Gabriel.
Estúdio Solo - O Avesso do Chão. Projeto da CASACOR Brasília 2026. (Edgar César/CASACOR)
Um conselho dos paisagistas para compor jardins saudáveis no Cerrado é não escolher plantas apenas pela aparência – mas entender como elas se adaptam ao clima. Gabriel complementa: "Você pode trabalhar com plantas nativas do Brasil, mas que são invasoras em nosso bioma e que vão competir agressivamente com as nossas plantas".
Foram diversas as espécies utilizadas pelos paisagistas na composição do jardim, entre nativas e adaptadas às condições do Cerrado. Os destaques originários do bioma são copaíba, árvores verticais com copas amplas, gueroba, palmeiras conhecidas pelo palmito de sabor marcante, e orelha-de-onça, arbustos com folhas roxas .
Orelha-de-onça (Jardim prático/CASACOR)
Já quanto às espécies exóticas, ou seja, trazidas de outras regiões e introduzidas no Cerrado com os cuidados de adaptação dos paisagistas vale mencionar véu-de-noiva, herbáceas pendentes de aspecto delicado, petúnia-mexicana, herbáceas perenes e rústicas de altíssima resistência, chuva-de-prata, arbustos famosos pela folhagem prateada, e a justiça-vermelha, arbustos tropicais de grandes brácteas vermelhas.
justiça-vermelha. (Flores para o seu jardim/CASACOR)
Um destaque do O Avesso do Chão, para além da escolha das plantas, está no piso produzido com telhas de demolição. Os materiais foram captados pela equipe do Estúdio Solo de diferentes obras, cortadas e entremeadas com adobe. O resultado ressignifica os materiais e valoriza a memória, a textura e a impermanência.
Estúdio Solo - O Avesso do Chão. Projeto da CASACOR Brasília 2026. (Edgar César/CASACOR)
"Vimos uma proposta semelhante durante uma viagem ao Japão e quisemos trazer o conceito de reaproveitamento para um projeto nosso. Primeiro, sugerimos para uma cliente. Ela não gostou da ideia – e hoje está sendo uma das coisas mais comentadas da CASACOR! A mostra ajuda também a mostrar propostas inusitadas e a apresentar
De acordo com levantamento da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o Brasil recicla menos de 25% de todos os resíduos da construção civil – sendo que cerca de 98% desses materiais podem ser reciclados. Nesse cenário, a alternativa encontrada por Gabriel e Bárbara na CASACOR Brasília 2026 apresenta uma solução criativa e, ao mesmo tempo, sofisticada e bonita para reduzir o descarte de materiais.