Numa cidade que carrega o imaginário do concreto, das linhas retas e do legado de Oscar Niemeyer, a 34ª edição da mostra reserva um protagonismo inesperado a macramês, cerâmicas, cobogós e trançados manuais
Publicado em 27 de ago. de 2026, 8:00

Larissa Dias e Natália Dias - Nosso Alpendre. Projeto da CASACOR Brasília 2026. (Edgard César/CASACOR)
Brasília não é, à primeira vista, uma cidade associada ao artesanal. Sua identidade visual foi construída sobre outra base: o concreto aparente, as curvas monumentais, a régua e o compasso de Niemeyer, o brutalismo que virou sinônimo da capital. É justamente por isso que a 34ª CASACOR Brasília, montada na Casa do Candango sob o tema "Mente e Coração", surpreende ao colocar o feito à mão no centro de tantos ambientes — não como detalhe decorativo, mas como parte estrutural da narrativa dos projetos.
Rick Hudson - Sebrae Feito à Mão. Projeto da CASACOR Brasília 2026. (Edgard César/CASACOR)
O exemplo mais direto dessa virada está no Feito a Mão Sebrae, assinado por Rick Hudson. O projeto transforma o artesanato brasileiro em protagonista, traduzindo a riqueza cultural do Cerrado para a arquitetura de interiores. Em 100 m², loja e residência se fundem numa experiência imersiva com curadoria voltada a peças de designers e artesãos do Distrito Federal — entre os destaques está a coleção Nós, assinada por Pé Esquerdo, Studio Jader Rodrigues e Instituto Ser Tão Fort, que reúne luminárias, mesas e espelhos em madeiras brasileiras e cordões artesanais. O ambiente prioriza ainda sistemas construtivos industrializados a seco e materiais recicláveis, provando que tradição manual e consciência ambiental podem, sim, caminhar juntas.
Alex Claver e Wilker Medeiros - Entre. Projeto da CASACOR Brasília 2026. (Edgard César/CASACOR)
Em Entre, de Alex Claver e Wilker Medeiros, do Studio 2 Arquitetura, o artesanal ganha um espaço quase ritualístico. No coração do ambiente de 150 m², um núcleo batizado "Altar do Feito à Mão", envolto por cortinas de veludo verde, recebe oficinas artísticas em tempo real — uma celebração explícita do trabalho manual dentro de um projeto que também reúne obras de Di Cavalcanti, Alfredo Volpi, Vik Muniz e Siron Franco, com curadoria da Galeria Expoarte.
Ana Luísa Jardim - Praça Raiz. Projeto da CASACOR Brasília 2026. (Edgard César/CASACOR)
Vários ambientes recorrem a técnicas e materiais tradicionalmente associados ao fazer manual regional. Na Praça Raiz, de Ana Luísa Jardim, a paisagem se converte em experiência sensorial: corda náutica, macramê e vasos de barro compõem uma atmosfera que valoriza a ancestralidade e o fazer manual, complementada por um mural exclusivo do artista Daniel Toys e um pergolado modular que organiza os espaços de convivência.
Tudo Arquitetura e Construção - Espaço São Geraldo. Projeto da CASACOR Brasília 2026. (Edgard César/CASACOR)
Já no Espaço São Geraldo, da Tudo Arquitetura e Construção, assinado por Alessandra Lima Oliveira, a paleta de tons naturais se apoia em palha, barro e cobogó — materiais que remetem a uma tradição construtiva bem distante do concreto armado que definiu a capital, mas que aqui aparecem lado a lado com obras de artistas como os Irmãos Campana.
Daniel Mendonça - Chalé Botteles – Terra e Fogo: A Casa é Cura. Projeto da CASACOR Brasília 2026. (Edgard César/CASACOR)
No Chalé Botteles - Terra e Fogo: A Casa é Cura, de Daniel Mendonça, a cerâmica artesanal entra na composição ao lado de pedra natural, aço com acabamento também artesanal, linho e couro — uma combinação que resgata a atmosfera acolhedora da vida no campo dentro de um espaço de apenas 78 m², simbolicamente marcado pela presença do fogo.
ON Arquitetura - Lar das Três Marias. Projeto da CASACOR Brasília 2026. (Edgard César/CASACOR)
Em Lar das Três Marias, da ON Arquitetura, o fazer artesanal ganha um sentido ainda mais pessoal. Inspirado na coleção autoral de luminárias criada por Luciana Canalli em homenagem à mãe, à avó e à bisavó, o ambiente de 60 m² reinterpreta o conceito de casa-ateliê, com curadoria assinada por mulheres e um grande painel artístico curvo que conduz a narrativa dedicada à potência da criação feminina.
Alessandra Passero e Didacio Duailibe - Loft Jade. Projeto da CASACOR Brasília 2026. (Edgard César/CASACOR)
O Loft Jade, de Alessandra Passero e Didacio Duailibe, segue linha parecida ao afirmar que a verdadeira sofisticação nasce da autenticidade dos materiais e do fazer artesanal — uma frase que poderia resumir o movimento inteiro observado nesta edição da mostra.
Larissa Dias e Natália Dias - Nosso Alpendre. Projeto da CASACOR Brasília 2026. (Edgard César/CASACOR)
Fechando esse levantamento, vale notar como o muxarabi — treliça vazada de origem árabe, historicamente associada à arquitetura tradicional brasileira — aparece em mais de um ambiente da mostra. Em Nosso Alpendre, de Larissa Dias Arquitetura, o muxarabi em cumaru integra uma composição que também usa quartzitos e pedra, valorizando o encontro e a conexão com a natureza.
Do altar dedicado às oficinas manuais ao cobogó que reinterpreta um ícone modernista na Livraria do Senac, a CASACOR Brasília 2026 sugere um deslocamento simbólico: a capital do traço reto e da escala monumental está, ao menos por essa temporada, testando o valor da imperfeição controlada, da textura feita à mão e da narrativa que só o artesanal consegue contar.