Em um edifício modernista no Centro carioca, os ambientes exploram a permanência de uma estética que marcou a arquitetura e o mobiliário brasileiros
Publicado em 21 de out. de 2026, 10:00

(André Nazareth/CASACOR)
A escolha do Edifício Aliança da Bahia como sede da CASACOR Rio 2026 cria um diálogo especial entre arquitetura e decoração. Construído entre 1957 e 1961 para abrigar uma companhia de seguros, o edifício é um marco modernista no Centro carioca, com fachadas envidraçadas e estrutura marcada por colunas integradas às lajes. Em frente ao Palácio Gustavo Capanema, outro ícone da arquitetura moderna, o endereço oferece um cenário em que passado e presente se encontram naturalmente.
Essa conexão também se revela nos interiores. Madeira escura, tijolos de vidro, cores vibrantes, cobogós, mobiliário de formas orgânicas e fibras naturais integram um repertório que ajudou a definir a identidade da decoração brasileira. Na mostra, esses elementos clássicos do modernismo brasileiro aparecem em interpretações que preservam suas qualidades estéticas e funcionais, ao mesmo tempo que dialogam com outras referências, objetos garimpados e modos contemporâneos de habitar.
A madeira ocupa um lugar importante na história do mobiliário moderno brasileiro, especialmente a partir de meados do século XX, quando designers passaram a explorar espécies nacionais e suas características expressivas. Jacarandá, imbuia e outras madeiras de tonalidade escura aparecem em móveis e revestimentos que valorizam os veios, a textura e a presença natural da matéria. Em contraste com superfícies claras e elementos de vidro, esses tons acrescentam profundidade aos interiores e ajudam a criar ambientes acolhedores, sem depender de ornamentos excessivos.
Rafael Ramos Arquitetura - Loft Pilotis. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2026. (André Nazareth/CASACOR)
No Loft Pilotis, de Rafael Ramos Arquitetura, a madeira participa da própria organização do espaço. Inspirado nos pilotis do Palácio Gustavo Capanema, o projeto traz pilares revestidos de madeira que parecem se desprender do piso, estabelecendo uma relação visual com a arquitetura moderna. A estante contínua, o painel tridimensional e o sofá modular vinho completam a composição, enquanto peças de diferentes períodos do design reforçam a ideia de uma casa construída por camadas de memória.
Translúcidos e geométricos, os tijolos de vidro encontraram lugar na arquitetura moderna por permitir a passagem da luz sem exigir a abertura completa dos ambientes. A superfície dos blocos difunde a iluminação natural e cria divisórias que preservam certa privacidade, sem interromper inteiramente a continuidade visual. Além da função prática, o material acrescenta ritmo às paredes e estabelece um contraste interessante com superfícies opacas, como madeira e concreto.
Raphael Assaf Arquitetura - Estúdio Orbe. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2026. (André Nazareth/CASACOR)
No Estúdio Orbe, assinado por Raphael Assaf Arquitetura, essa solução contribui para o aproveitamento dos 42 m² disponíveis. A divisória de tijolos de vidro separa a área íntima da sala e conduz a luz proveniente da fachada para o estar, favorecendo a fluidez da planta integrada. O concreto, a madeira escura e as obras de arte acrescentam outras camadas à composição, que propõe um refúgio urbano de atmosfera introspectiva.
A relação com a paisagem e a cultura brasileiras contribuiu para dar personalidade própria ao modernismo nacional. Nas artes visuais, na arquitetura e no design, a cor tornou-se um recurso expressivo capaz de criar contrastes, destacar volumes e estabelecer associações com diferentes referências culturais. Em interiores, tons vibrantes e tropicais, como vermelhos, amarelos mostarda e azuis marcantes, podem conviver com estampas, texturas e materiais naturais
Amanda Miranda Arquitetura - Estúdio 7. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2026. (André Nazareth/CASACOR)
Essa liberdade aparece no Estúdio 7, de Amanda Miranda Arquitetura, um loft de 70 m² que reúne sala, cozinha, quarto e jardim. A mistura de cores, texturas e estampas se aproxima de um modo de morar descontraído, enquanto móveis e objetos contemporâneos convivem com peças garimpadas.
Criado em Pernambuco no final da década de 1920, o cobogó foi incorporado à arquitetura modernista brasileira nas décadas seguintes. Sua estrutura modular permite a circulação do ar e a entrada de luz natural, respondendo a condições climáticas do país, enquanto os desenhos vazados produzem padrões geométricos e jogos de sombra. A união entre funcionalidade e expressão plástica fez do elemento uma referência duradoura, presente tanto em fachadas quanto em divisórias internas.
Diego Raposo + Arquitetos - Astrodome Bistrô. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2026. (André Nazareth/CASACOR)
No Astrodome Bistrô, de Diego Raposo + Arquitetos, os cobogós também participam de uma narrativa sobre memória e passagem do tempo. O espaço ocupa o local onde funcionou por mais de quatro décadas o antigo restaurante Astrodome. A divisória vazada separa a cozinha do salão, preservando a continuidade visual e integrando-se à ambientação. Ao lado dos padrões geométricos e das texturas sobrepostas, o elemento modernista ajuda a construir uma atmosfera que recupera a familiaridade de um lugar histórico sem abrir mão de uma linguagem contemporânea.
As formas orgânicas ampliaram as possibilidades do mobiliário moderno brasileiro ao introduzir curvas e volumes que se afastavam da rigidez geométrica. Designers como Joaquim Tenreiro e Sérgio Rodrigues exploraram a relação entre desenho, conforto e materialidade, criando peças em que a madeira e as proporções do corpo participavam da concepção formal.
Cité Arquitetura - Ateliê Devir. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2026. (André Nazareth/CASACOR)
No Ateliê Devir, da Cité Arquitetura, a valorização dos objetos aparece por meio de uma abordagem experimental, que privilegia o gesto manual e a transformação. Conduítes e elementos construtivos aparentes convivem com móveis garimpados, tapetes antigos e peças marcadas pelo uso, em uma composição deliberadamente inacabada. O espaço dialoga com espírito de experimentação do modernismo ao colocar os objetos e os processos criativos no centro da experiência.
A presença de palhinha e outras fibras naturais no mobiliário moderno brasileiro expressa o encontro entre desenho industrial e tradição artesanal. A trama vazada da palhinha, utilizada em assentos e encostos, oferece leveza visual e ventilação, enquanto as fibras acrescentam textura e aproximam os objetos de técnicas manuais. Em conjunto com estruturas de madeira, esses materiais ajudam a criar um equilíbrio entre solidez e delicadeza.
Sérgio Conde Caldas Arquitetura - Recôndito Remanso. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2026. (André Nazareth/CASACOR)
No Recôndito Remanso, de Sérgio Conde Caldas Arquitetura, essa valorização da materialidade natural e do fazer artesanal se conecta à proposta de um espaço dedicado à pausa e à memória. O ambiente reúne hall, consultório de psicanálise e recanto de reconexão, com madeira, texturas, obras de arte, livros e objetos afetivos. Mais do que recorrer a uma peça específica como referência histórica, o projeto retoma a sensibilidade presente no design moderno: a de reconhecer nos materiais, nos objetos e em suas histórias parte essencial da experiência de habitar.
Onde: Edifício Aliança da Bahia, Rua Araújo Porto Alegre, 36, Centro, Rio de Janeiro – RJ
Quando: de 15 de setembro a 8 de novembro de 2026
Horário de funcionamento: de terça a domingo, das 12h às 22h
Horário da bilheteria: de terça a domingo, das 12h às 20h
Feriados: abertura excepcional na segunda-feira, 2 de novembro
Bilheteria digital: https://appcasacor.com.br/events/rio-de-janeiro-2026
Valores dos ingressos: R$ 120,00 (inteira) e R$ 60,00 (meia-entrada).
Meia-entrada:
- Idoso a partir de 60 anos.
- Estudante, apresentando documento válido com foto ou comprovante de pagamento.
- PCD (pessoa com deficiência) e seu acompanhante (conforme a Lei nº 12.933/2013).
- Professor da rede pública ou privada, apresentando documento válido com foto.
Gratuidade para crianças de até 10 anos, mediante comprovação.
Um mesmo CPF pode comprar no máximo 10 ingressos.
Venda para grupos: para compras acima de 10 ingressos ou por CNPJ, envie um e-mail para daniele@tresplus.com
Não há estacionamento próprio.