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Arte

O mapa da arte Brasil adentro e a jornada de Renan Quevedo pelos diferentes sotaques do território

Há quase uma década, Renan Quevedo cruza o Brasil em busca de artistas populares. Pelo caminho, encontrou histórias de tradição, sobrevivência e um outro entendimento sobre a arte brasileira para além dos circuitos de arte

Por Giovanna Jarandilha

Publicado em 3 de set. de 2026, 10:00

10 min de leitura
Ju Cabeleireiro e Renan Quevedo.

Ju Cabeleireiro e Renan Quevedo. (Divulgação/Renan Quevedo/CASACOR)

A primeira vez que Renan Quevedo saiu de São Paulo em busca de um artista popular brasileiro foi também a mais improvisada. Ele trabalhava em uma grande agência de publicidade quando decidiu conhecer pessoalmente Noemisa Batista dos Santos, ceramista do Vale do Jequitinhonha que até então Quevedo conhecia apenas através dos livros. Alugou um carro de um dia para o outro, terminou o trabalho numa sexta-feira e, às oito da noite, estava na Marginal Pinheiros, dirigindo em direção a Minas Gerais.


Foram 14 horas de estrada. Parava apenas para abastecer, comer um pão de queijo, tomar um café, e seguia viagem. Chegou ao Vale na manhã seguinte, quando descobriu que, para alcançar a casa de Noemisa, na zona rural, precisaria aceitar a ajuda de um desconhecido que encontrou em um mercadinho. Quando finalmente chegou, tinha apenas meia hora para conversar com Noemisa antes de enfrentar outras 14 horas de volta a São Paulo. “Foi uma viagem que transformou a minha vida, foi um divisor de águas”, relembra Renan.


No mês seguinte, repetiu a viagem. E depois outra vez. Ao todo, voltaria ao Vale do Jequitinhonha outras 40 vezes.

Primeira parada


Renan Quevedo Novos Para Nós

Renan Quevedo e Zé Bezerra. (Divulgação/Renan Quevedo/CASACOR)

Renan sempre se interessou por arte. Formado em Publicidade pela ESPM, foi ainda durante a graduação que entrou em contato pela primeira vez com a arte popular brasileira. “Naquele momento, eu não sabia dizer sequer um nome de um artista popular brasileiro”, conta. Foi após uma visita ao Instituto Tomie Ohtake, em 2012, que Renan passou a pesquisar por conta própria sobre arte, e, aos poucos, a curiosidade ficou grande demais para permanecer como um hobby.


Ainda na agência, Renan passou a usar as férias, feriados e qualquer brecha possível para atravessar o país em busca de artistas populares. Foi a Pernambuco, Pará, Mato Grosso, Rio de Janeiro, ao Sul do Brasil. Conheceu pesquisadores, curadores, famílias de artistas e personagens que não esperava encontrar pelo caminho. “Eu chegava num posto de gasolina, mercadinho ou borracharia, me apresentava e falava: 'estou em busca de artistas, artesãos, que trabalham com madeira, tapeçaria, cerâmica'”.

Renan Quevedo Novos Para Nós

Izabel, Andreia e Gloria Andrade, ceramistas de Santana do Araçuaí, Minas Gerais. (Divulgação/Renan Quevedo/CASACOR)

Assim começou o seu mapeamento de arte popular no Brasil profundo: seguindo pistas que recebeu de personagens improváveis pelo caminho. Em 2017, ele deixou a agência e pegou a estrada novamente, desta vez sem data para voltar. Percorreu mais de 27 mil quilômetros em cerca de sete meses, passando por 16 estados e pelo Distrito Federal. Nascia, de maneira ainda embrionária, o Novos Para Nós — projeto de pesquisa e mapeamento dedicado à arte popular brasileira.

Uma trilha de encontros


O nome do projeto funciona quase como uma provocação. Um artista pode ser consagrado em sua própria cidade ou ter produzido por décadas e, ainda assim, continuar sendo novo para boa parte do público. É justamente essa distância — geográfica, social, cultural — que seu trabalho procura encurtar.


Hoje, além da pesquisa, o Novos Para Nós reúne curadorias, exposições, projetos especiais, palestras e uma operação comercial. Renan abriu no fim de 2025 um espaço físico na Alameda Itu, em São Paulo, onde reúne produções de diferentes partes do país. A participação na SP-Arte Rotas 2026, encerrada em 30 de agosto, foi mais um desdobramento desse percurso.

Mas a alma do trabalho continua sendo aquela simples lógica da estrada: a de perguntar.

Uma história leva à outra


Renan Quevedo Novos Para Nós

Jasson Gonçalves da Silva e Renan Quevedo. (Divulgação/Renan Quevedo/CASACOR)

Uma das histórias que melhor traduz o projeto aconteceu em Alagoas, com Jasson Gonçalves da Silva. Renan sabia apenas que o artista era alagoano e tinha ouvido falar de seu trabalho por meio de galerias e colecionadores, mas ninguém dizia exatamente onde ele vivia. A pista veio, mais uma vez, de um lugar banal: um posto de gasolina.


Renan levou meses para chegar à casa do artista: errou entradas e pegou caminhos que não levavam a lugar nenhum. Um dia, encontrou um senhor agachado perto de uma cerca, trabalhando com madeira. Depois de duas horas de conversa, Jasson finalmente se apresentou e o levou para conhecer sua produção.


Na época, seu trabalho era comprado por poucas pessoas e por valores baixos. A produção existia, mas estava praticamente confinada àquele trecho de Alagoas. Após a publicação da história, galerias, lojas e instituições começaram a procurá-lo. Em pouco tempo, seu trabalho ganhou outros mercados. Dentro de um ano, uma de suas cadeiras chegou à Semana de Design de Milão.

Renan Quevedo Novos Para Nós

Marcos de Sertânia. (Divulgação/Renan Quevedo/CASACOR)

Apesar disso, Renan não se vê como alguém que “cria” artistas, mas como uma ponte. “Eu não consigo dizer: valorize isso daqui. O que eu posso fazer é oferecer um espaço para que você entre em contato se quiser valorizar, se quiser aprender mais. Se não quiser, cabe a você”.

Arte que nasce espontânea


Chamar esses artistas de “populares” é algo que Renan faz com cuidado. O termo pode carregar preconceitos, reconhece. Mas também acredita que ele ainda é útil para delimitar uma produção que, muitas vezes, nasce justamente fora das instituições formais. "São artistas que construíram suas linguagens a partir do trabalho, da família, da religião, da paisagem, da memória, das histórias escutadas na infância".


No Vale do Jequitinhonha, esse conhecimento passa de uma geração para outra. Dona Izabel, por exemplo, começou a fazer cerâmica por necessidade, depois de ficar viúva e precisar sustentar seus filhos. Produzia panelas, moringas e outros utilitários, até que um dia colocou uma cabeça de mulher em uma moringa.


Nas décadas seguintes, criou bonecas que a tornariam conhecida, especialmente as noivas. Mais tarde, veio o reconhecimento internacional. Um dos legados mais importantes de Dona Izabel, porém, talvez tenha sido outro: ela ensinou o ofício a filhos, vizinhos e amigos. Santana do Araçuaí, onde viveu, passou a ter na produção de cerâmica uma importante fonte de renda. “Quando ela vai dividindo o conhecimento, ela só faz com que ele se multiplique”, diz Renan.


A lógica aparece também nas trajetórias de João Pereira, genro e discípulo de Dona Izabel, e de Elia Soares, que aprendeu a modelar o barro com a mãe, que havia aprendido com a própria mãe. Aparece entre escultores que seguiram os pais, como Francisco Graciano, filho de Manuel Graciano.

Um Brasil feito de sotaques


Renan Quevedo Novos Para Nós.

Zé Bezerra. (Divulgação/Renan Quevedo/CASACOR)

Nas obras, as características do território aparecem na matéria, nos personagens, nas festas, nos animais, nas crenças e até na forma de inventar.


Véio transforma troncos, galhos e raízes descartados em figuras que parecem nascer de dentro da própria madeira. Ulisses Pereira Chaves transformava o barro do Jequitinhonha em criaturas híbridas, alimentadas por sonhos e visões. José Antônio da Silva registrou em pinturas a vida no campo, enquanto Agostinho Batista de Freitas transferiu para a tela tanto as plantações quanto os prédios, avenidas e letreiros de São Paulo.


Renan Quevedo Novos Para Nós.

Renan Quevedo e Espedito Seleiro. (Divulgação/Renan Quevedo/CASACOR)

Por isso mesmo é difícil falar em uma única arte popular brasileira: “esses territórios do Brasil pulsam diferentes identidades e os artistas conseguem externalizar um repertório que é muito único”.


Ele fala em “sotaques”, a entender que cada lugar teria sua maneira própria de olhar para o mundo e organizar aquilo que acontece ao redor. A Amazônia oferece matérias-primas diferentes do Cerrado. Já o sertão carrega festas, crenças e histórias particulares. No Vale do Jequitinhonha, a cadeia de conhecimento sobre o barro é secular. “Eu penso que essas obras funcionam como verdadeira memória escrita dessas pessoas, desses povos, desses territórios, desses estados”.

Lembranças de viagem


Hoje, Renan ainda viaja. Continua recebendo mensagens de artistas e familiares, acumulando indicações e juntando novas peças para esse mosaico da arte brasileira que vem construindo há quase uma década. Segue em busca de histórias que também transformaram sua própria maneira de enxergar o mundo. Uma das coisas mais importantes que essas viagens lhe ensinaram, diz, foi uma outra ideia de sensibilidade. “Para mim, sensibilidade não tem nada a ver com fragilidade. Na verdade, é o contrário. Tem a ver com o choque, com a coragem, com o fracasso”.


Renan diz que já perdeu um pouco as contas da estrada. São pelo menos 300 mil quilômetros rodados, muitos pneus furados e desvios de rota. Há, porém, uma conta que ele não consegue fazer: a dos encontros acumulados nesses anos. As horas de conversa, os cafés passados, as histórias contadas à mesa, os artistas que voltaram a procurá-lo, os filhos e netos que hoje seguem os ensinamentos de quem veio antes. Depois de tantas estradas, o que Renan parece ter encontrado não é apenas um amplo mapa da arte brasileira, mas uma rede de pessoas que já estava ali, apenas esperando para ser entrelaçada.