Entre pintura, fotografia, escultura e design, cinco nomes que cruzaram os caminhos da CASACOR e da SP-Arte em 2026
Publicado em 2 de set. de 2026, 12:00

CASACOR São Paulo 2026 e SP-Arte Rotas 2026. (CASACOR)
A CASACOR São Paulo e a SP-Arte são dois dos principais eventos do calendário cultural brasileiro, reunindo diferentes expressões da produção artística e colocando em evidência nomes que ajudam a construir a cena criativa do país. Em 2026, a presença de artistas em ambos os eventos revela também a amplitude de suas pesquisas e a capacidade de suas obras de estabelecer diferentes diálogos com o público – seja na mostra de arquitetura e decoração, seja no contexto de uma feira de arte.
Entre diferentes gerações, linguagens e trajetórias, Amadeo Lorenzato, ZUMVI Arquivo Afro Fotográfico, Helô Sanvoy, Carol Ambrósio e Lucas Recchia têm em comum a representação nos dois eventos neste ano. Suas obras transitam por pintura, fotografia, escultura, assemblage e design, evidenciando a diversidade da produção brasileira e oferecendo um recorte interessante sobre alguns dos artistas que estão se destacando em 2026. A seguir, conheça seus trabalhos e descubra onde eles estiveram presentes na CASACOR São Paulo e na SP-Arte Rotas.
Amadeo Lorenzato foi um artista mineiro, nascido em Belo Horizonte e descendente de italianos. Ainda jovem, mudou-se com a família para a Itália, onde estudou na Reale Accademia delle Arti, em Vicenza, e percorreu diferentes países europeus, ampliando seu contato com a arte. Durante esse período, conheceu artistas como Gino Severini e aprofundou seu interesse pelos impressionistas e mestres renascentistas italianos. Em 1949, após o fim da Segunda Guerra Mundial, retornou ao Brasil e se estabeleceu novamente em Belo Horizonte.
Antes de se dedicar integralmente à arte, Lorenzato trabalhou como pintor da construção civil, experiência que deixou marcas particulares em sua produção. A partir de 1956, depois de um acidente que o levou à aposentadoria, passou a concentrar-se nas artes e incorporou às telas o pente de metal usado na ornamentação de paredes, criando linhas tortuosas e pequenas reentrâncias na superfície. Seus temas vinham do cotidiano, entre paisagens, naturezas-mortas e retratos, realizados também sobre materiais como madeira, papelão e tela de arame. A combinação entre formas essenciais, cores e gestos espontâneos tornou-se uma das características de sua obra.
No living, os móveis de design brasileiro formam uma composição com a lareira com símbolos que remetem ao conceito do espaço. (Maura Melo/CASACOR)
Essa relação com a memória e o cotidiano também encontrou espaço na CASACOR São Paulo 2026. Uma de suas obras integrou a Casa Coral Celeiro Alvorada, de Nildo José, ambiente que reunia lembranças de fazenda do arquiteto em homenagem à memória de seu pai, em sintonia com o tema Mente e Coração.
A paisagem, tão presente em sua produção, ganhou outra leitura na SP-Arte Rotas, onde Lorenzato participou da exposição do Setor Mirante. A seção especial reuniu cerca de 70 obras produzidas ao longo de um século por mais de 50 artistas brasileiros e de outras regiões da América Latina, questionando o conceito de “paisagem” a partir de diferentes formas de viver, sentir, imaginar e inventar o mundo. A obra sem título apresentada na ocasião pertence à galeria Gomide&Co.
Amadeo Luciano Lorenzato, Sem título, 1900-1995. (Gomide&Co/CASACOR)
O ZUMVI Arquivo Afro Fotográfico foi criado em 1990 por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, três jovens negros das periferias de Salvador que encontraram na fotografia uma forma de registrar e preservar a cultura e a memória afro-brasileiras. Os fundadores documentavam manifestações culturais e políticas, além de cenas do cotidiano da população negra, com a ideia de “fotografar hoje para o futuro”. Desse trabalho nasceu um chamado “quilombo visual” dedicado à criação de um arquivo de memórias imagéticas que, até então, era inédito no Brasil contemporâneo.
Atualmente, o arquivo reúne cerca de 50 mil fotografias de sete fotógrafos e permanece aberto à incorporação de novos acervos. Sua atuação busca preservar e promover a memória afirmativa afro-brasileira, utilizando a fotografia como ferramenta de educação, produção e difusão cultural. Ao reunir registros de diferentes momentos e aspectos da experiência negra, o ZUMVI contribui para ampliar a presença e a representação da população afro-brasileira na história da fotografia e na construção da memória do país.
Senac São Paulo + Estúdio Guto Requena - Arena do Conhecimento. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Roberta Gewehr/CASACOR)
Uma fotografia, em particular, estabeleceu uma ponte direta entre os dois eventos em 2026. Jovem percussionista participando da primeira caminhada da consciência negra no bairro da Liberdade, Salvador, 2000, de Lázaro Roberto, integra a série Estética Negra e foi apresentada tanto na CASACOR quanto na SP-Arte.
Na mostra de arquitetura, a imagem ocupou a Arena do Conhecimento, do Senac São Paulo em parceria com o Estúdio Guto Requena, espaço criado para receber palestras e bate-papos durante o evento. Na feira de arte, a fotografia foi apresentada pela Mitre Galeria ao lado de outros trabalhos do ZUMVI.
ZUMVI Arquivo Afro Fotográfico. Estética Rara. (Mitre Galeria/CASACOR)
Nascido em Goiânia, em 1985, e radicado em São Paulo, Helô Sanvoy é mestre em Poéticas Visuais pela ECA/USP e licenciado em Artes Visuais pela FAV/UFG. Desde 2011, integra o Grupo EmpreZa, coletivo de performance com o qual desenvolve uma pesquisa voltada às possibilidades de expressão do corpo e dos materiais. Em sua produção, o artista experimenta diferentes linguagens e suportes, transitando entre escultura, desenho, vídeo, fotografia, performance e instalação.
A obra de Helô Sanvoy parte de uma investigação sobre a poética do corpo e a comunicação, explorando as fronteiras entre aquilo que pode ser dito, compreendido e aquilo que permanece indizível. O artista também pesquisa as possibilidades discursivas dos materiais, considerando os contextos históricos, sociais e políticos aos quais estão associados. A partir dessas relações, suas obras estabelecem nexos entre matéria, memória e sociedade, refletindo sobre as complexidades do processo de formação do Brasil.
Maria Araujo Arquitetura - Casa Brasiliense. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Camila Santos/CASACOR)
No ambiente Casa Brasiliense, assinado por Maria Araujo Arquitetura, a produção artística do Centro-Oeste brasileiro ganhou destaque na CASACOR São Paulo 2026. Sediado em Brasília, o escritório escolheu valorizar artistas da região na composição do living, entre eles, Helô Sanvoy, que esteve representado por uma de suas obras da série Lucidez Difusa.
A experimentação material do artista também pôde ser vista na SP-Arte 2026. No estande da Cerrado Galeria, a escultura Fazendo Ausências, da mesma coleção, reuniu vidro temperado, madeira, couro e chumbo — materiais que evidenciam a investigação de Sanvoy sobre as possibilidades expressivas da matéria e suas relações com memória e contexto.
(Cerrado Galeria/CASACOR)
Entre objetos garimpados, fragmentos e referências à natureza, Carol Ambrósio constrói uma produção marcada pela transformação e pela ressignificação. Nascida em São Paulo, em 1981, a artista trabalha com assemblages e colagens a partir de peças encontradas em feiras, viagens e antiquários. Bibelôs, porcelanas, vasos, cerâmicas e figuras de mulheres, animais e elementos vegetais deixam suas funções originais para integrar novas composições, em um processo intuitivo no qual cada elemento ganha novos sentidos.
Em suas obras, Carol Ambrosio explora o contraste entre a rigidez da arquitetura urbana e a organicidade da natureza, incorporando também desgastes e imperfeições dos materiais. Nas assemblages, figuras humanas e elementos naturais ganham protagonismo e se articulam em um mesmo campo metafórico, criando composições que sugerem uma passagem da contenção à expansão.
Totens da série Verdades, de Carol Ambrósio, no ambiente (Adriana Barbosa/CASACOR)
Foi justamente essa relação entre objetos e natureza que ganhou uma configuração inusitada na CASACOR São Paulo 2026. Os totens da série Verdades foram incorporados ao jardim de Maria Fernanda Marques, entre plantas nativas e flores. A escolha cria um contraste particular: objetos originalmente concebidos para o interior das casas passam a ocupar o espaço externo, em diálogo com a vegetação.
Na SP-Arte 2026, a pesquisa da artista apareceu em uma escala mais ampla. A WG Galeria apresentou cinco obras produzidas no ano, entre colagens, pinturas e assemblages: Caber em mim, Não me deixava mentir, Voo de dentro, Ter asas, correr pelo chão e Refazer-se nas asas. Juntas, as peças revelam diferentes possibilidades do processo de coleta, recombinação e ressignificação que caracteriza sua produção.
(WG Galeria/CASACOR)
Lucas Recchia é um designer brasileiro cuja prática transita entre a escultura e o mobiliário, tendo como ponto de partida uma profunda investigação sobre materiais e técnicas artesanais. Em seu trabalho, explora principalmente vidro, bronze e pedras brasileiras raras, combinando processos tradicionais, como fusão e moldagem a quente, a uma abordagem contemporânea. O resultado são peças de caráter escultórico que evidenciam as particularidades de cada material.
Sua produção também é marcada pela colaboração com artesãos e pelo interesse nas tradições ancestrais relacionados aos materiais que utiliza. Suas peças refletem sobre permanência e transformação, buscando criar objetos capazes de carregar memórias, emoções e referências aos lugares de onde vêm. Recchia já colaborou com marcas como Louis Vuitton, Dior e Off-White, consolidando seu nome no cenário do design colecionável contemporâneo.
Gui & Dado Castello Branco - Apartamento Deca. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Ornare/CASACOR)
Presente em diferentes edições da CASACOR, Lucas Recchia voltou à mostra em 2026 com uma de suas peças no Apartamento Deca, assinado por Gui & Dado Castello Branco. Entre as mais de 80 obras de arte que compunham o ambiente, estava um vaso da coleção Petra, trabalhado individualmente a partir da combinação entre pedra natural e vidro. Na peça, o amarelo do vidro contrasta com a materialidade da pedra, evidenciando a investigação que está no centro de sua produção.
O diálogo com a arte colecionável se estendeu à SP-Arte Rotas, onde o designer participou com um estande próprio, como um dos poucos representantes do design no evento. Além dos vasos, apresentou espelhos, candelabros e outras esculturas, reunindo peças que exploram diferentes possibilidades do vidro, da pedra e das técnicas artesanais.