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Arte

Das intervenções urbanas à CASACOR: os 30 anos de trajetória de Eduardo Srur

Autor da série Trampolim, Eduardo Srur construiu carreira que atravessa espaço público, crítica ambiental e iniciativas de democratização da arte

Por Milena Garcia

Publicado em 16 de set. de 2026, 10:00

08 min de leitura
Eduardo Srur e Trampolim, O Velho

Eduardo Srur e Trampolim, O Velho (Renato Stockler e Felipe Araújo/CASACOR)

Uma figura humana de aproximadamente dois metros de altura e 100 quilos, posicionada na ponta de uma prancha, parece estar prestes a saltar a qualquer momento. A cena, que causou estranhamento entre os visitantes, foi um dos destaques da CASACOR Espírito Santo 2026. Trata-se da escultura Trampolim, O Velho, criação do artista visual Eduardo Srur levada ao ambiente Arte Habita, de Fontoura Grasselli Arquitetura, em parceria com a Galeria Matias Brotas.

Trampolim, O Velho

Trampolim, O Velho (Felipe Araújo/CASACOR)

A instalação está entre as obras mais emblemáticas dos 30 anos de carreira do artista paulistano. Formado em Artes Plásticas pela FAAP, Eduardo Srur construiu sua trajetória sobretudo a partir de intervenções urbanas de grande escala – que ocupam a paisagem das cidades para provocar reflexões sobre questões ambientais e, ao mesmo tempo, aproximar a arte do cotidiano.

Na CASACOR, a escultura despertou surpresa entre visitantes e até entre pedestres e motoristas que circulavam nas proximidades do antigo Hotel Canto do Sol. Houve quem acreditasse estar diante de um homem de verdade prestes a pular. A reação ecoa, em outra escala e contexto, o impacto provocado pela primeira apresentação da série Trampolim, em São Paulo, em 2014.

A obra que fez São Paulo olhar para o rio


Trampolim, O Velho é uma das seis obras que integraram a série Trampolim, instalada sobre pontes do Rio Pinheiros, na capital paulista. “Eu queria provocar um novo olhar para a paisagem urbana diante desse rio superpoluído”, explica Eduardo em entrevista à CASACOR. Os manequins hiper-realistas foram posicionados nas extremidades de pranchas voltadas para o rio, criando uma imagem tão familiar quanto impossível: pessoas aparentemente prontas para mergulhar em águas que, devido à poluição, não podiam ser desfrutadas pelos cidadãos.

Trampolim - O Velho

Trampolim - O Velho (CASACOR)

A intervenção teve grande repercussão na cidade e ganhou as redes sociais de maneira inesperada. Entre os episódios registrados durante sua permanência em São Paulo, estão mais de 200 ligações preocupadas à polícia e até um disparo de arma de fogo contra justamente O Velho. Outra das esculturas teve a cabeça arrancada durante o período de exposição.

Trampolim

Trampolim (Kana Filmes/CASACOR)

O Velho, que estava em exposição na CASACOR Espírito Santo, levou um tiro à queima-roupa. A bala atravessa a escultura — e eu abracei esse tiro, ele está lá pintado! A partir do momento que a obra vai para a rua, você não tem mais o controle da situação. Acho que a intervenção urbana tem essa questão orgânica, essa relação com a própria vida”, explica.

A cidade como matéria-prima


Eduardo Srur já participou de exposições individuais e coletivas no Brasil e em países como Suíça, Inglaterra, Eslováquia, Alemanha, Espanha, Holanda e Croácia. Nos anos 2000, decidiu se afastar do circuito oficial das artes e passou a construir uma trajetória independente, que ele próprio relaciona à figura do artista-empreendedor. A partir daí, pontes, rios poluídos, parques públicos e terrenos baldios passaram a funcionar como as "telas" para sua produção.

Pets, de Eduardo Srur

Pets, de Eduardo Srur (CASACOR)

Não existe uma única fórmula visual nos trabalhos de Srur. Materiais, escalas e técnicas se transformam de um projeto para outro, enquanto um elemento permanece constante: o interesse por questões incômodas do cotidiano contemporâneo. Segundo o artista, seu processo criativo costuma começar justamente pela identificação dos “erros da sociedade”. “Meu trabalho como artista é trazer luz para esses espaços escuros e esquecidos”, diz.

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Ao falar sobre seu processo, Srur também estabelece uma relação com Mente e Coração, tema que orienta os projetos da CASACOR em 2026. “Você tem que ter mente, razão e estratégia para que sua obra chegue às outras pessoas. Eu penso que a arte tem que falar para os outros, não apenas para o artista — acredito que a arte contemporânea tem um pouco dessa falha. Enquanto isso, você também precisa da sensibilidade para criar, e o coração é o símbolo desse campo emocional”.

Três décadas de arte reunidas em um livro


O encontro de Eduardo Srur com a CASACOR Espírito Santo 2026 também marcou um momento importante em sua trajetória: o lançamento de seu segundo livro. Doze anos depois de Manual da Intervenção Urbana, o artista esteve na mostra para apresentar uma publicação que revisita seus 30 anos de produção artística. “É a história de um artista bastante outsider, que acabou construindo sua trajetória sem a dependência do mercado de arte e seus agentes”, descreve.

Livro

Livro (CASACOR)

Intitulado A Arte Salva, o livro começa nas primeiras pinturas realizadas por Srur no início dos anos 1990 e percorre cronologicamente suas principais intervenções artísticas. A publicação também reúne esculturas, gravuras e trabalhos audiovisuais desenvolvidos nas décadas seguintes, até chegar às ações sociais que passaram a ocupar uma parcela importante de sua produção mais recente.

Da intervenção urbana à formação de novos públicos


Depois do lançamento do livro, um dos principais focos de Eduardo Srur em 2026 é o projeto social Retratos Plásticos. A iniciativa leva atividades artísticas e exposições coletivas a diferentes comunidades de São Paulo (SP). Segundo o artista, mais de 15 mil crianças e professores já foram alcançados pelo programa nos últimos três anos.

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A próxima exposição será realizada no CEU Casablanca, até 25 de setembro, com entrada gratuita. “É um projeto grande, que tem demandado bastante do meu tempo e da minha energia. Estou muito satisfeito com ele, porque eu levo a arte para lugares que nunca teriam essa possibilidade”, conclui.

Retratos Plásticos

Retratos Plásticos (CASACOR)