De residências modernistas a habitações sociais, Ruy Ohtake acumulou mais de 300 obras e consolidou uma arquitetura tão brasileira quanto inovadora
Publicado em 20 de ago. de 2026, 15:00

Ruy Ohtake (Ohtake/Divulgação)
Ruy Ohtake nasceu em São Paulo em 27 de janeiro de 1938 e cresceu imerso no universo da arte — filho primogênito da artista plástica nipo-brasileira Tomie Ohtake, uma das figuras mais importantes da arte abstrata brasileira. Esse ambiente criativo foi decisivo para a formação do seu olhar.
Em 1960, formou-se na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e, ainda durante a graduação, já realizava seus primeiros projetos na área. Em 1961, Ruy Ohtake fundou o escritório que levaria seu nome.
Ao longo de seis décadas de carreira, o arquiteto acumulou mais de 300 obras e 25 prêmios, entre eles o Colar de Ouro. Desenvolveu projetos dos mais variados usos: residências unifamiliares, edifícios comerciais e institucionais, equipamentos públicos, parques urbanos e habitação social.
A formação de Ruy Ohtake foi marcada pela influência das duas grandes escolas da arquitetura moderna brasileira: a paulista e a carioca. Vilanova Artigas e Oscar Niemeyer são referências declaradas em sua trajetória — e a herança do concreto aparente, característica da escola paulista, está presente sobretudo em seus primeiros projetos residenciais, produzidos entre as décadas de 1960 e 1970. Obras como as residências Tomie Ohtake (1966), Nadir Zacarias (1970) e Fábio Yassuda (1974) são exemplos desse período, quando o rigor estrutural dialogava com uma expressividade plástica já bastante singular.
Ruy Ohtake (CAU BR/Divulgação)
Com o tempo, Ruy Ohtake foi arejando sua linguagem e se distanciando do racionalismo predominante. A virada estética se consolida a partir da construção da Embaixada Brasileira em Tóquio, em 1981 — momento em que o arquiteto assume um compromisso mais explícito com as cores vibrantes e as formas orgânicas que se tornariam sua marca registrada. Nas décadas seguintes, sua obra ganha maturidade e ousadia em doses iguais, sem jamais abrir mão da clareza estrutural e da integração entre espaço, natureza e pessoas.
O vocabulário formal de Ruy Ohtake é reconhecível à distância. As curvas, em geral executadas em concreto aparente, são o elemento mais característico de seus projetos, conferindo às edificações uma sensualidade e leveza que parecem desafiar a dureza do material. A elas se somam as cores fortes, usadas nas fachadas como elemento compositivo — não como ornamento, mas como parte da estrutura visual do edifício.
Casa-ateliê de Tomie Ohtake - Projeto de Ruy Ohtake e Adolfo Sato. (Ohtake/Divulgação)
Ruy Ohtake também se notabilizou por utilizar materiais que contrastavam com seu traço extremamente leve, e por integrar luz, vegetação e escala humana em todos os seus projetos. Para ele, a arquitetura era, antes de tudo, obra de arte — e deveria causar surpresa e emoção. "Se não marcar época nem causar surpresa e emoção, meu trabalho não faz sentido", declarou em diversas ocasiões.
A produção de Ruy Ohtake abrange escalas e usos muito distintos, mas algumas obras se destacam pela repercussão, pela ousadia formal e pelo impacto que causaram na paisagem urbana.
(Divulgação/Divulgação)
Localizado na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo, o Hotel Unique é provavelmente a obra mais conhecida de Ruy Ohtake. O edifício de sete andares tem uma fachada em forma de arco invertido (com 100 metros de extensão) que remete a uma meia-lua esverdeada sustentada por duas bases de concreto. No terraço, a icônica piscina vermelha, assinada em parceria com o paisagista Gilberto Elkis, tornou-se símbolo do hotel e da cidade.
Instituto Tomie Ohtake (Ohtake/Divulgação)
Inaugurado em novembro de 2001, o Instituto Tomie Ohtake é uma homenagem do arquiteto à sua mãe — e um dos espaços mais relevantes para a arte contemporânea em São Paulo. O edifício, localizado no bairro de Pinheiros, é um dos poucos exemplos na cidade de um espaço projetado, arquitetônica e conceitualmente, para receber mostras de arte, arquitetura e design em escala internacional.
Parque Ecológico do Tietê (Divulgação/Divulgação)
Projeto que rendeu a Ruy Ohtake o Prêmio Bienal de Arquitetura, o Parque Ecológico do Tietê é um dos maiores parques urbanos da América Latina e um exemplo pioneiro de arquitetura paisagística comprometida com a integração entre cidade, natureza e lazer público. O projeto, desenvolvido ainda nos anos 1970, antecipa discussões sobre sustentabilidade urbana que só ganhariam força décadas depois.
Embaixada Brasileira em Tóquio, por Ruy Ohtake (Reprodução/Divulgação)
Implantada no sofisticado bairro de Aoyama, em uma rua de apenas 5,90 metros de largura, a Embaixada Brasileira em Tóquio é um dos projetos mais representativos da maturidade criativa de Ruy Ohtake. O projeto consolida o uso de cores vibrantes e formas geométricas regulares como elementos centrais da linguagem do arquiteto, características que se tornariam sua assinatura nas décadas seguintes.
Um dos capítulos mais significativos da trajetória de Ruy Ohtake é seu envolvimento com a comunidade de Heliópolis, na Zona Sul de São Paulo. O projeto nasceu de um mal-entendido: em 2003, uma revista atribuiu ao arquiteto a declaração de que "o que acho mais feio em São Paulo é Heliópolis". O que ele teria dito, na verdade, era "o que acho feio é a diferença entre os bairros ricos e Heliópolis". O líder comunitário João Miranda procurou Ohtake não para cobrar explicações, mas para fazer um convite: ajudar a tornar Heliópolis mais bonita.
Conjunto Residencial de Heliópolis. (Nelson Kon/Divulgação)
O arquiteto aceitou o desafio e mergulhou no que chamou de "arquitetura real" — um trabalho voluntário que resultou nos famosos "redondinhos": 19 edifícios residenciais cilíndricos com fachadas coloridas que transformaram a paisagem da comunidade. O projeto foi além da habitação e incluiu o Polo Educativo e Social de Heliópolis, com biblioteca pública, cinema, espaço para feira de artesanato e uma unidade do Centro Paula Souza.
Ruy Ohtake faleceu em 27 de novembro de 2021, aos 83 anos. No entanto, sua influência entre as gerações de arquitetos que vieram depois dele é indiscutível. Ele mostrou que é possível ser rigoroso e ousado, técnico e sensível, moderno e profundamente brasileiro.
Mais do que um conjunto de edifícios, o legado de Ruy Ohtake é uma visão de mundo: a de que a arquitetura deve surpreender, emocionar e transformar — não apenas quem encomenda um projeto, mas todos que convivem com ele.