Última ocupação do edifício antes da demolição, a CASACOR Espírito Santo 2026 resgatou memórias de um dos hotéis mais emblemáticos do estado
Publicado em 14 de out. de 2026, 18:00

Hotel Canto do Sol, antigo Hotel Porto do Sol (CASACOR)
A CASACOR Espírito Santo 2026 marcou um momento de despedida. Antes de ser demolido para dar lugar a um novo condomínio, o antigo Hotel Porto do Sol — posteriormente rebatizado de Canto do Sol — abriu novamente suas portas para receber histórias, memórias e novos olhares. Fundado em 1984 pelo empresário João Dalmácio Castello Miguel, o empreendimento se tornou uma referência da hotelaria capixaba e um dos endereços mais conhecidos do Espírito Santo nas décadas de 1980 e 1990.
Durante seu auge, o hotel recebeu hóspedes ilustres, sediou grandes eventos e ajudou a transformar a paisagem de Jardim Camburi, em Vitória. Quatro décadas depois, a CASACOR ocupou seus espaços com 37 ambientes entre 16 de julho e 8 de setembro, em uma espécie de último capítulo antes da demolição. Entre os profissionais que participaram dessa despedida estava Isabela Castello, designer, artista visual e filha de João Dalmácio, que levou para dois ambientes da mostra as memórias de uma vida ligada ao hotel.
Hotel Canto do Sol, antigo Hotel Porto do Sol (Folha Vitória/Thiago Soares/CASACOR)
“O Hotel Porto do Sol foi um marco na hotelaria, na arquitetura e na gastronomia capixaba e brasileira. Meu pai não construiu um hotel. Ele ergueu um palco para memórias”, conta Isabela. A relação com o empreendimento ia além dos laços familiares: entre 1989 e 2001, ela também trabalhou ali como gerente administrativa financeira, acompanhando de perto a trajetória do negócio.
Ao lado das arquitetas Flavia e Leticia Abaurre, Isabela encontrou nos ambientes da CASACOR uma forma de recontar a história do hotel. “Meu pai adorava arquitetura, arte e design. Era um frequentador da CASACOR. Fui a algumas mostras com ele. E acredito que tenha sido uma despedida muito especial. E o tema Mente e Coração não poderia ter sido mais alinhado com essa edição”, afirma.
Hotel Canto do Sol, antigo Hotel Porto do Sol (CASACOR)
Com 26 mil m², o antigo Hotel Porto do Sol foi projetado pelo arquiteto Paulo Casé diante do mar de Jardim Camburi. Logo nos primeiros anos, tornou-se endereço de grandes eventos corporativos, acadêmicos e sociais, além de ganhar fama pelas festas de Réveillon. Mais do que um lugar para hospedagem, o empreendimento passou a fazer parte da vida cultural e social de Vitória.
Pelos seus corredores também passaram grandes personalidades brasileiras, como Xuxa Meneghel, Roberto Carlos e Fernanda Montenegro. Os restaurantes com música ao vivo, que transitavam do axé ao jazz, ajudaram a construir a atmosfera única. “Eram experiências que os capixabas não tinham antes da abertura do hotel”, relembra Isabela.
Hotel Canto do Sol, antigo Hotel Porto do Sol (Cacá Lima/CASACOR)
Em 2001, a família Castello vendeu o empreendimento, que passou a se chamar Canto do Sol. Com o surgimento de novos hotéis em Vitória, o endereço enfrentou dificuldades para manter a mesma relevância. Em 2009, parte do terreno foi vendida para a construção de um condomínio residencial de cinco torres.
Fechado desde 2015, o edifício ainda passou por uma tentativa de revitalização em 2017 e retomou parcialmente as atividades em 2023. A iniciativa, porém, não prosperou diante da ausência dos alvarás necessários. Em 2026, a CASACOR ocupou o espaço pela última vez, antes da demolição prevista para os meses seguintes ao encerramento da mostra.
A história do Hotel Canto do Sol ganhou novos contornos na CASACOR quando Isabela se uniu a Flavia e Leticia Abaurre, da Abaurre Arquitetura. No Lounge JD, as profissionais partiram de três aspectos que marcaram a trajetória de João Dalmácio: a precisão ligada ao Cartório, o pioneirismo na hotelaria e a paixão pelo Flamengo. A frase de Maya Angelou — “Seu legado é cada vida que você toca” — ajudou a sintetizar o conceito.
Isabela Castello, Flavia Abaurre e Leticia Abaurre - Lounge JD. Projeto da CASACOR Espírito Santo 2026. (Felipe Araújo/CASACOR)
No Auditório João Dalmácio, a referência foi interpretada de outra maneira. O ambiente recuperou a memória do antigo centro de convenções do hotel e preservou seu forro original em tom de vinho. A escolha reforçou a relação entre o espaço e os grandes acontecimentos que fizeram parte da história do empreendimento, dos eventos sociais às celebrações que reuniam convidados de diferentes partes do país.
Isabela Castello, Flavia Abaurre e Leticia Abaurre - Auditório João Dalmácio. Projeto da CASACOR Espírito Santo 2026. (Felipe Araújo/CASACOR)
Para Isabela, a participação na mostra cumpriu justamente o papel de transformar essa trajetória em memória compartilhada. “Essa mostra nos proporcionou eternizar o legado incrível que o hotel deixou para o Espírito Santo e para a vida de tantos funcionários, clientes e parceiros que construíram essa jornada conosco. O concreto pode ser temporário, mas o legado é eterno”.
Hotel Canto do Sol, antigo Hotel Porto do Sol (Ricardo Medeiros/CASACOR)
Durante os dois meses da CASACOR, o antigo hotel voltou a receber pessoas que tinham uma relação direta com seus espaços — e também visitantes que jamais haviam entrado ali. O Livro de Ouro dos ambientes de Isabela tornou-se um pequeno arquivo dessas lembranças, reunindo relatos dos visitantes.
“Eu já imaginava que as pessoas que frequentaram o hotel iriam gostar de relembrar e reviver o local onde eles tiveram tantas memórias. E assim foi”, conta. Para ela, a surpresa esteve justamente na amplitude dessa repercussão: “A mostra também teve um impacto que eu não esperava, que foram as pessoas das novas gerações ou mesmo as pessoas que vivem no Estado, mas que nunca tinham tido a oportunidade de entrar no hotel e conhecer o espaço, sua história e sua relevância”.
No fim, a despedida ganhou um significado que ultrapassa a arquitetura. O edifício que durante décadas abrigou encontros, celebrações e histórias está prestes a desaparecer, mas encontrou na CASACOR uma última oportunidade de ser vivido. “O principal sentimento que me guia é o orgulho profundo desse homem visionário, que ousou erguer o melhor hotel do Espírito Santo”, diz Isabela. “Há uma tristeza inevitável ao saber que, em breve, a estrutura física será demolida. Mas o convite da CASACOR trouxe também a alegria da reconstrução poética", conclui.