Na Casa Entre Tempos, Gisele Taranto combina tecnologia, arte e flexibilidade para acolher diferentes gerações sob o mesmo lar
Publicado em 6 de nov. de 2026, 14:00

Gisele Taranto Arquitetura - Casa Entre Tempos | Brastemp. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2026. (André Nazareth/CASACOR)
A arquiteta Gisele Taranto, presença recorrente na CASACOR há 25 anos, é reconhecida pela busca constante por inovação. Na CASACOR Rio 2026, suas pesquisas a levaram a explorar o conceito de casa multigeracional em parceria com a Brastemp. Formada pela Universidade Santa Úrsula (USU), a profissional parte das novas dinâmicas familiares para propor uma residência que considera a convivência entre avós, filhos e netos, especialmente diante das transformações sociais, profissionais e econômicas intensificadas pela pandemia de Covid-19.
Gisele Taranto Arquitetura - Casa Entre Tempos | Brastemp. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2026. (André Nazareth/CASACOR)
Batizado de Casa Entre Tempos, o ambiente explora a evolução dos estilos de vida para criar um lar capaz de se adaptar às diferentes fases, relações e demandas da rotina. A integração entre arquitetura, inovação e design dá forma a espaços em que a tecnologia facilita as atividades domésticas, enquanto as obras de arte acrescentam personalidade. Em entrevista à CASACOR, Gisele Taranto apresenta o conceito de casa multigeracional e suas aplicações na mostra.
O pontapé inicial para a Casa Entre Tempos veio das observações de Gisele em jornais, sites e redes sociais. "Eu comecei a reparar que muitos jovens estão demorando para sair da casa dos pais depois da pandemia. E muitos quando saem, voltam", comenta. Por outro lado, a arquiteta também notou a preocupação quanto os cuidados com os idosos. "Graças à ciência, a população está envelhecendo com mais saúde e vivendo muito mais".
Gisele Taranto Arquitetura - Casa Entre Tempos | Brastemp. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2026. (André Nazareth/CASACOR)
As próprias experiências familiares também ajudaram a dar forma à pesquisa. Aos 60 anos, Gisele divide a casa com o filho recém-formado, de 24 anos, e recebe frequentemente a visita do pai, de 87. Dessa realidade surgiu a ideia de uma residência capaz de acolher três gerações, respeitando suas particularidades e diferentes necessidades.
Gisele Taranto Arquitetura - Casa Entre Tempos | Brastemp. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2026. (André Nazareth/CASACOR)
O projeto partiu de duas premissas consideradas indispensáveis: individualidade e convivência familiar. Para conciliá-las, a arquiteta organizou a residência em dois grandes ecossistemas, chamados Preparo e Convívio. "Crianças, jovens e adultos precisam ter os seus próprios espaços, porém não podemos viver em núcleos, cada um de um lado com o seu celular. Precisamos também de espaços para estarmos todos juntos".
Um dos destaques da Casa Entre Tempos é a cozinha, denominada Ecossistema do Preparo. Nesse espaço, o conceito de casa multigeracional se traduz em soluções que contemplam os diferentes hábitos dos moradores. Gisele incluiu dois fogões — um tradicional, com pés, e outro de indução —, além de uma torre com lavadora e secadora de roupas, ampliando as possibilidades de uso e organização da rotina.
Gisele Taranto Arquitetura - Casa Entre Tempos | Brastemp. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2026. (André Nazareth/CASACOR)
"Pensei muito em minha família quando chega o Natal. Nos encontramos e eu gosto de cozinhar determinadas coisas, enquanto os jovens querem cozinhar outras. Ficamos brigando por um fogão só", brinca. A reunião familiar também se estende à mesa de jantar, preparada para receber diferentes gerações, com assentos que incluem desde uma cadeira de alimentação infantil até uma cadeira de rodas. "Todo mundo está junto e misturado".
Gisele Taranto Arquitetura - Casa Entre Tempos | Brastemp. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2026. (André Nazareth/CASACOR)
Do outro lado do ambiente, o living recebe o nome de Ecossistema do Convívio e tem como protagonista um grande sofá, pensado para acomodar a família inteira. "São módulos que eu posso organizar na configuração que quiser a qualquer momento, desde um living tradicional até um grande abraço para todos se jogarem", completa.
A experiência se estende também à trilha sonora, com uma playlist exclusiva para a CASACOR Rio, elaborada para contemplar as preferências musicais das três gerações. A proposta também encontra identificação entre os visitantes: Gisele relata que muitas pessoas reconhecem no projeto situações semelhantes às que vivem em suas próprias casas, mesmo sem terem adotado adaptações específicas para essa convivência.
Com curadoria de Vanda Klabin, as obras de arte acrescentam cor e identidade à base neutra da Casa Entre Tempos. A escolha dos trabalhos parte de uma colaboração entre arquitetura e curadoria, como explica Gisele: "Eu não escolho as obras, escolho uma curadora que vai estar comigo entendendo o conceito do espaço e me trazendo opções que conversem com a arquitetura". Entre os artistas selecionados estão Mano Wladimir, Thomaz Velho, Duda Moraes, Vanderlei Lopes, Ricardo Siri e Sérgio Allevato.
Gisele Taranto Arquitetura - Casa Entre Tempos | Brastemp. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2026. (André Nazareth/CASACOR)
A sustentabilidade, presente em diversos projetos anteriores de Gisele na CASACOR, também orientou as decisões desta edição. Para reduzir o descarte de materiais, a arquiteta preservou o piso e o teto originais do Edifício Aliança da Bahia, sede da mostra. No chão, a solução foi trabalhar com camadas de diferentes tapetes; já na iluminação, foram aproveitados os tubos existentes para a instalação dos spots. Os móveis também foram escolhidos de maneira a permitir o reaproveitamento após o fim do evento, sem a necessidade de estruturas fixas.
Depois de acumular experiência em escritórios de arquitetura no Brasil e no exterior, Gisele fundou a Progetto Arquitetura e Interiores, em 2000, e, posteriormente, em 2011, o escritório Gisele Taranto Arquitetura, com atuação em projetos residenciais de alto padrão e empreendimentos corporativos. Sua trajetória na CASACOR inclui participações nas mostras do Rio de Janeiro e de São Paulo. Entre os trabalhos mais recentes estão também Futuro Possíveis e Viver Marambaia, ambos apresentados em 2025.
Gisele Taranto Arquitetura - Futuros Possíveis por Peugeot. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
Para a profissional, uma das principais diferenças entre os projetos desenvolvidos para clientes e aqueles apresentados na mostra está na liberdade para investigar questões que ultrapassam a dimensão estética. "Fazer bonito, nós fazemos todos os dias na casa dos clientes. Na CASACOR, eu tenho a oportunidade de refletir sobre as formas de habitar, as mudanças de comportamento, as novas tecnologias e outras questões relacionadas à arquitetura. É isso que traz essa vontade de continuar na CASACOR", finaliza.
Gisele Taranto Arquitetura - Viver Marambaia. (André Nazareth/CASACOR)