Com foco no upcycling, a by Kamy Verde transforma retalhos de tapetes em criações desenvolvidas com arquitetos, designers e artistas
Publicado em 28 de out. de 2026, 14:00

by Kamy Verde (Studio by Kamy/Divulgação)
Mais de 90 milhões de toneladas de resíduos têxteis são geradas todos os anos no mundo, segundo a Fundação Ellen MacArthur. Desse volume, menos de 1% retorna à cadeia produtiva como matéria-prima para novos produtos, enquanto cerca de 80% segue para descarte ou incineração. Em meio a esse cenário, a by Kamy Verde (BKV) nasceu com uma proposta simples e, ao mesmo tempo, desafiadora: transformar sobras de tapetes em novas criações, em processos colaborativos com arquitetos, designers, artistas e outros profissionais criativos.
(Reprodução/Divulgação)
A iniciativa foi uma das selecionadas para o Marcas que Movem, seleção anual de CASACOR e Casa e Jardim que reconhece marcas e iniciativas que estão transformando a vida contemporânea. No caso da BKV, a mudança passa pela maneira de repensar o ciclo produtivo. Em cerca de dez anos, a marca reduziu pela metade os resíduos de sua produção e chegou próximo ao descarte zero de materiais, criando novos caminhos para os retalhos por meio da experimentação e do trabalho coletivo.
Tulio Xenofonte Arquitetos - Loft Milanese. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/Divulgação)
Antes de se tornar uma frente estruturada da by Kamy, a Verde ocupava um pequeno quartinho de retalhos no ateliê de Francesca Alzati. A arquiteta e designer italiana ainda não sabia o que faria com aquelas sobras, mas enxergava nelas possibilidades que iam além do descarte.
by Kamy Verde (Studio by Kamy/Divulgação)
"O primeiro passo foi rever a nossa produção, ou seja, desperdiçar menos e criar menos sobras, dos materiais à eletricidade que gastávamos na fábrica", conta Francesca à CASACOR. A partir dessa revisão, vieram os primeiros produtos da BKV. Os primeiros tapetes encontraram destinos fora do mercado tradicional, chegando gratuitamente a instituições sociais, centros de acolhimento e até aulas de yoga.
by Kamy Verde (Divulgação)
O reaproveitamento de materiais precisou enfrentar o preconceito associado a produtos sustentáveis e à ideia de que a reutilização poderia significar perda de qualidade. Aos poucos, porém, a própria evolução do debate sobre economia circular ajudou a mudar essa percepção.
"Foi uma persistência muito grande, porque nos primeiros anos a by Kamy Verde foi bancada, tivémos que investir muito dinheiro para mantê-la de pé. O que começou como uma experiência, hoje é um ecossistema que funciona. Estamos falando de uma by Kamy Verde profissional, que nasceu de uma boa vontade e virou realidade. Temos um orgulho imenso disso", completa sobre o setor que passou para o comando da filha, Giovanna Abrarpour.
Francesca Alzati, da by Kamy Verde (Divulgação)
Entre os capítulos mais recentes (e marcantes!) dessa trajetória está a parceria com a Warner Bros., reconhecida com os prêmios LicensingCon e Discovery Global Consumer Products 2026. A marca também concorreu a "Melhor Iniciativa de Sustentabilidade” no Licensing International 2026.
Outro ponto de virada da by Kamy Verde foi a chegada dos tapetes aos ambientes da CASACOR. Presente na mostra há diversas edições, a marca passou a olhar para o destino dos tapetes após a desmontagem do evento. Para Francesca, havia uma oportunidade de evitar que materiais novos fossem simplesmente expostos e descartados.
Marta Calasans - Pequena Amazônia - Quarto do Filho. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Daniela Magario/Divulgação)
A solução foi incentivar o elenco CASACOR a incorporar os tapetes da by Kamy Verde aos seus projetos. O resultado foi um sucesso: graças à presença na mostra, as peças passaram a receber novos olhares do mercado! "Vamos sempre respeitar os projetos, mas é possível fazer isso de uma maneira politicamente correta", explica.
Duno Arquitetura + Interiores - Hall Tempo de Chegar. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Daniela Magario/Divulgação)
Na CASACOR São Paulo 2026, por exemplo, quatro ambientes receberam tapetes criados em parcerias entre os membros do elenco e a equipe BKV. Entre eles estão o Loft Milanese, de Tulio Xenofonte; Pequena Amazônia, de Marta Calasans; e Tempo de Chegar, de Duno Arquitetura. Em cada trabalho, os resíduos deixam de ser apenas matéria remanescente e passam a integrar a concepção do ambiente.
O ponto de partida de cada peça está na seleção dos fragmentos. Retalhos de produção, tapetes que já passaram pelo serviço de aluguel ou até doações em bom estado são separados pelos artesãos da BKV de acordo com cor, textura e possibilidades de composição. Em seguida, o material disponível passa a dialogar com a proposta de cada tapete.
by Kamy Verde (Studio by Kamy/Divulgação)
A lista de parcerias já incluiu nomes como o paisagista Luciano Zanardo, os designers Neza Cesar e Gustavo Jansen e os artistas Kiko Maldonado e Tico Canato. O desenho orienta o processo, mas o resultado também nasce das características próprias de cada fragmento. "O desenho é o ponto inicial, mas não é a essência dos tapetes da by Kamy Verde. A essência é o conjunto de tudo isso, o design verdadeiro", explica Francesca. A montagem dos tapetes é manual e acontece peça por peça.
É esse processo que define o upcycling adotado pela marca: em vez de destruir o material para transformá-lo novamente em matéria-prima, a técnica reaproveita sua estrutura e atribui a ela uma nova função e um novo valor. Assim, um tapete deixa de ser apenas aquilo que foi e passa a compor outra história.
by Kamy Verde (Divulgação)
Essa lógica aparece em um portfólio que vai de pequenas tapeçarias a peças maiores, além de modelos que combinam sobras com tecidos novos ou recebem intervenções das bordadeiras do projeto social da by Kamy, chamado 1+1. Até os fragmentos menores encontram utilidade: parte deles é incorporada a cartões de papel produzidos artesanalmente pela mãe de Francesca, que enfrenta o Alzheimer, e sua equipe.
by Kamy Verde (Divulgação)
"Muita gente que trabalha com upcycling sabe que trabalhar com sobras é muito mais difícil (e mais caro) do que utilizar produtos novos. O que fazemos é reconstruir novas histórias para peças que já existem", finaliza Francesca.
https://youtube.com/shorts/hBnkpMZEWZs?si=dkGLhR8hhLL0mG6I
O Marcas que Movem é uma seleção anual realizada por CASACOR e Casa e Jardim, que reúne as trajetórias, audiências e experiências das duas plataformas para reconhecer marcas e iniciativas que estão transformando a vida contemporânea. A proposta é identificar, contextualizar e amplificar projetos que promovem movimentos relevantes na sociedade e nas formas de viver.
(Reprodução/Divulgação)
Os cases selecionados são organizados em seis categorias — Produto que Move, Espaço que Move, Experiência que Move, Tecnologia que Move, Comportamento que Move e Cultura que Move. Juntas, elas apresentam um panorama diverso de iniciativas que estão produzindo mudanças nos produtos, espaços, experiências, relações e modos de viver.