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Marcio Kogan: "Arquitetura é um trabalho de maturidade. Eu talvez hoje esteja começando a aprender"

Em conversa com a CASACOR, o arquiteto à frente do Studio MK compartilha reflexões sobre sua trajetória no cinema, na arquitetura e no design

Por Milena Garcia

Publicado em 22 de out. de 2026, 16:00

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Márcio Kogan, fundador do Studio MK27, é um dos nomes mais reconhecidos da arquitetura brasileira contemporânea.

Márcio Kogan, fundador do Studio MK27, é um dos nomes mais reconhecidos da arquitetura brasileira contemporânea. (Gui Gomes/Editora Globo/Divulgação)

Um dos nomes mais reconhecidos da arquitetura brasileira contemporânea, Marcio Kogan construiu uma linguagem própria ao aproximar os princípios do modernismo nacional de uma estética marcada pela simplicidade formal, pela precisão dos detalhes e pela integração entre espaços internos e externos. Nascido em São Paulo, em 1952, o arquiteto formou-se pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 1976. Filho do engenheiro Aron Kogan, responsável por edifícios emblemáticos da capital paulista, cresceu em um ambiente próximo à construção e ao pensamento arquitetônico.

Marcio Kogan, expo Osaka 2025, pavilhão do Brasil

(@blackhaus_studio/Divulgação)

Nos primeiros anos de carreira, Kogan dividiu o trabalho com a arquitetura com a produção cinematográfica, em projetos realizados ao lado de Isay Weinfeld, colega dos tempos de faculdade. Essa aproximação entre diferentes linguagens criativas acompanha uma trajetória dedicada à experimentação e à construção de narrativas por meio dos espaços. Em 2001, seu escritório passou a se chamar Studio MK27, consolidando um modelo de trabalho colaborativo que reúne arquitetos, designers e profissionais de diferentes áreas. Hoje, com mais de 70 integrantes e uma rede internacional de colaboradores, o estúdio desenvolve projetos no Brasil e em países da Europa, das Américas e da Ásia.

Essa visão também se estende ao design de mobiliário e às colaborações internacionais. Desde 2017, o Studio MK27 mantém uma parceria com a grife italiana Minotti, traduzindo referências do modernismo tropical em peças que exploram madeira, pedras e metal. Entre os destaques dessa colaboração está a coleção de poltronas Elas, expostas na flagship da marca em São Paulo. Em conversa com a CASACOR durante evento da Minotti, o arquiteto revisita diferentes momentos de sua carreira e compartilha reflexões sobre arquitetura, design e seu processo criativo.

1. Você costuma relacionar diretamente sua arquitetura à experiência que teve no cinema. Depois de tantos anos de carreira, o que o cinema ainda influencia em sua maneira de projetar?

Marcio Kogan: Eu tive um momento da vida, quando eu estava na faculdade, que eu não sabia se eu ia ser arquiteto ou cineasta. Eu tinha essa dúvida, apesar de acho já ter nascido arquiteto por causa do meu pai, que era um arquiteto-engenheiro. Depois, surge o cinema como opção. Eu fiz vários curtas com Isay [Weinfeld], que era meu parceiro de cinema naquela época.


Foi indo, me formei arquiteto e o sonho de fazer um longa-metragem profissional se realizou em 1987, com o filme Fogo e Paixão, também com Isay. Foi algo grandioso, mas que acabou não me agradando plenamente. Os curtas eu gostava de todos, mas o longa não era isso, até por falta de experiência nossa. Acho que se tivéssemos continuado, teríamos aprendido a fazer. Simultaneamente, eu perdi muito dinheiro e isso prejudicou meu escritório de arquitetura na época.


Com esse trauma, apesar de adorar ter feito isso, eu decidi ser arquiteto 24 horas e meu sonho de cinema foi embora. Mas aí vem a grande experiência de tudo: eu trago para a arquitetura aquilo que eu fiz no cinema. Por exemplo, as proporções de tela, a luz e o jeito de pensar o projeto, pra mim é um pouco o roteiro de um filme.


Eu vejo no cinema a importância de uma equipe completa para fazer um filme, com diretor de fotografia, cenógrafo e diversos outros profissionais. Isso acabou virando também um pouco a história do Studio MK27, a começar pelo fato que eu tirei o meu próprio nome do Studio. Então, foi uma coisa que aconteceu na minha vida para virar outra.

Fogo e Paixão

Fogo e Paixão (BBC/Divulgação)

2. Os seus trabalhos ao longo da carreira tiveram forte influência do modernismo brasileiro. O que ainda considera essencial nesse legado e o que foi reinterpretado no contexto contemporâneo?

MK: Eu acho talvez como todo o arquiteto brasileiro, pelo menos quem veio da FAU e do Mackenzie, talvez de todas as escolas da cidade de São Paulo, todos nós somos filhos do modernismo. Foi um movimento que, na minha opinião, foi o mais importante do mundo naquela época, a partir dos anos 1940, e culmina na inauguração de Brasília em 1960. Foi algo muito forte, é impossível se livrar disso.


Nós fazemos um trabalho mais contemporâneo que modificou isso, mas a raíz é aquela e nunca vai deixar de ser. Eu acho, por exemplo, que você nunca vai ver nascer aqui [no Brasil] um arquiteto inspirado em Zaha Hadid.


O modernismo é parte da nossa cultura: um jeito de pensar sem excessos, muito racional e focado nas proporções. É como se você fosse projetar em um lugar da África em que a arquitetura é toda de terra e, de repente, você construísse um objeto alienígena ali.

Casa Pátios, projeto do Studio MK27.

Casa Pátios, projeto do Studio MK27. (Pedro Kok/Studio MK27/Divulgação)

3. Depois de décadas construindo uma linguagem tão reconhecível, o que ainda é capaz de tirá-lo da zona de conforto diante de um novo projeto?

MK: Eu acho que [saio da zona de conforto] todos os dias. Primeiro que tem a luta mais dramática para os iniciantes: encontrar os clientes que queiram fazer os projetos que você deseja. Essa é a essência do problema de todos os arquitetos.


Atualmente, é comum que apareçam clientes que queiram projetos idênticos aos meus anteriores. Nós sempre tentamos romper, às vezes conseguimos, às vezes não. Mas eu gostaria muito de nunca me acomodar.


Muitas vezes nós temos que fazer as mesmas coisas, mas é fundamental tentar trazer novas linguagens. Recentemente, nós entregamos um projeto totalmente diferente. O cliente estranhou e falou: "O que é isso, não parece vocês!" e nós respondemos que queríamos fazer uma coisa nova. Ele rebateu: "Mas justo comigo?" (risos).

Residencial Redux, projeto do Studio MK27.

Residencial Redux, projeto do Studio MK27. (Fernando Guerra/Studio MK27/Divulgação)

4. Sua colaboração com a Minotti já resultou em diversas peças e coleções. Como funciona essa troca entre o Studio MK27 e a equipe da marca?

MK: A colaboração começou em visita ao Studio MK há cerca de 13, 14 anos. Eles vieram conhecer o Brasil e um amigo em comum os levou ao escritório. Eles visitaram algumas obras, gostaram do trabalho e sugeriram fazermos algo em conjunto. O convite expresso só veio em 2017.


A empresa estava começando a receber três ou quatro arquitetos novos para a equipe deles, sob a direção de arte de Rodolfo Dordoni, um designer super importante que estava ajudando a repensar a parte do desenho, e nós começamos a trabalhar juntos. Nosso primeiro trabalho foi uma coleção outdoor, que é o Quadrado.


Nunca tínhamos feito isso. Desenhávamos muito para clientes, mas a nossa expertise do desenho industrial vinha dos móveis que desenhávamos para os projetos. Arriscamos, e o Quadrado foi um best-seller. A partir disso, ganhamos carta-branca para criar.


Por ser uma família, os primeiros contatos foram estranhos para os dois lados, parecia que estávamos entrando na casa de alguém. Mas fomos aprendendo a trabalhar juntos. Reparamos que eles sempre fazem as coisas muito bem feitas – o que nosso escritório adora! Então, aprendemos um pouco com eles e eles com a gente.

Quadrado Minotti

Quadrado Minotti (Divulgação)

5. O que você considera mais desafiador ao traduzir a linguagem arquitetônica do escritório para a escala do mobiliário?

MK: As proporções, a forma elegante de desenhar e alguns elementos mais explícitos. Por exemplo, nós assinamos uma mesa com alguns frisados de madeira com mármore. Isso já se tornou parte da nossa linguagem. Já o Quadrado é todo baseado nos fabris, mas depois a coleção foi se desapegando dessas referências. Nós percebemos que a relação com a arquitetura não precisa ser tão explícita assim.

6. Depois de décadas de Studio MK27, há profissionais que trabalham ao seu lado há muitos anos e assumem coautorias recorrentes. Atualmente, como funciona essa dinâmica dentro da equipe e como vocês fazem para esse modelo colaborativo funcionar no dia a dia?

MK: Qualquer projeto que entra no Studio MK hoje, eu começo a desenhar com mais duas ou três pessoas. Às vezes até um estagiário que começou a trabalhar um mês antes. Isso acontece bastante, duvido encontrar igual em outros lugares. Nós fomos aprendendo a fazer isso até chegar à maneira que funcionamos hoje.


Foi um processo difícil, era uma coisa caótica. Teve uma época em que testamos fechar o escritório um dia na semana. Eram quatro ou cinco equipes e, ao final da semana, elas apresentavam suas ideias para um projeto. Não foi o modelo que seguimos, mas foi algo que nos deu muitos outros caminhos e pensamentos.


No geral, o escritório tem um espírito muito colaborativo entre as pessoas. Se você olhar, não tem um projeto do escritório que não tem um coautor na ficha técnica. São sempre duas ou três pessoas.

Studio MK27

Studio MK27 (Divulgação)

7. Qual conselho você dá para os profissionais que estão entrando no mercado agora?

MK: O que os estudantes mais gostam de ouvir do que eu falo é que tudo é muito lento. Todo mundo fica afobado para as coisas acontecerem, mas arquitetura é um trabalho de tempo e maturidade. No meu caso, são 40 anos [de carreira] e talvez hoje eu esteja começando a aprender a fazer. Às vezes tem uma obra que você faz, não gosta de algum coisa e pensa em fazer diferente da próxima vez. Só que a próxima vez pode demorar anos para chegar.


Você vai entendendo que até para arrumar um cliente, seja para o seu próprio escritório ou trabalhando para alguém, tem uma maturidade para as coisas acontecerem. Eu pessoalmente gosto muito disso.