Pintor, paisagista e colecionador, Burle Marx transformou a relação entre natureza, arte e arquitetura e deixou um legado que ultrapassa os jardins
Publicado em 18 de ago. de 2026, 9:00

Roberto Burle Marx (1909-1994). (Luiz Knud Correia de Araújo/Divulgação)
Quando se fala em paisagismo brasileiro, é impossível não mencionar o nome Roberta Burle Marx. Ao longo de seis décadas de atuação, o paisagista transformou a maneira de pensar os jardins ao aproximar pintura, arquitetura, botânica e natureza tropical. Seus projetos romperam com modelos tradicionais de composição e ajudaram a estabelecer uma linguagem moderna para os jardins no Brasil.
Nascido em São Paulo, em 1909, e criado no Rio de Janeiro, Burle Marx teve uma trajetória que passou por diferentes áreas artísticas. Foi pintor, escultor, designer, ceramista, cenógrafo, tapeceiro e pesquisador, além de paisagista. Morreu no Rio de Janeiro, em 1994, após projetar cerca de 3 mil jardins no Brasil e no exterior.
O interesse de Burle Marx pela vegetação brasileira ganhou força durante o período em que viveu na Alemanha, entre 1928 e 1929. Em visita ao Jardim Botânico de Dahlem, em Berlim, ele se impressionou ao encontrar espécies tropicais brasileiras cultivadas nas estufas e passou a observar a flora de seu país sob outra perspectiva. De volta ao Rio de Janeiro, em 1930, estudou na Escola Nacional de Belas Artes, onde teve contato com diferentes linguagens artísticas e com nomes que seriam importantes para a consolidação da arquitetura moderna brasileira.
Burle Marx. (Instituto Burle Marx/Divulgação)
Foi nesse contexto que se aproximou do arquiteto Lúcio Costa, então diretor da Escola Nacional de Belas Artes. A relação entre os dois seria decisiva para a entrada de Burle Marx no paisagismo: Costa o convidou, em 1932, a projetar o jardim de uma residência que ele próprio havia desenhado no Rio de Janeiro. O trabalho chamou atenção por incorporar uma linguagem moderna e valorizar plantas tropicais. Em 1934, Burle Marx assumiu o setor de parques e jardins do Recife, onde passou a desenvolver projetos públicos e consolidou algumas das características que marcariam sua obra.
Uma das características mais reconhecíveis de sua produção está na aproximação entre pintura e paisagismo. As plantas, caminhos, espelhos d'água e pisos eram organizados como elementos de uma composição abstrata, muitas vezes com grandes formas curvas e contrastes cromáticos. O jardim deixava de ser apenas uma moldura para a arquitetura e passava a participar ativamente do projeto.
Casa Cavanellas: arquitetura de Oscar Niemeyer e paisagismo de Roberto Burle Marx ((Reprodução/Malcon Ragget)/Divulgação)
Outro aspecto fundamental foi a valorização da flora brasileira e tropical. Burle Marx pesquisou, coletou e cultivou inúmeras espécies, inclusive plantas pouco utilizadas no paisagismo de sua época. Alguns exemplos são pau-brasil, jerivá, guaimbê e paineira. A escolha não era apenas estética: ele buscava compreender as características de cada espécie e sua relação com o clima e o solo do local onde seria utilizada.
A produção do paisagista inclui projetos de diferentes escalas, de jardins residenciais a grandes áreas públicas. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão os jardins do antigo Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, projetados em 1938; os jardins do Conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte; e o paisagismo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Conjunto Moderno da Pampulha, em Belo Horizonte, Minas Gerais. (Qu4rto Studio/Acervo Belotur/Divulgação/Divulgação)
No Rio, sua presença também está associada ao Aterro do Flamengo e ao desenho do calçadão de Copacabana, concluído em 1970. Em São Paulo, participou do projeto paisagístico do Parque Ibirapuera, em colaboração com Oscar Niemeyer, embora o plano de 1953 não tenha sido executado como originalmente concebido.
Calçadão de Copabana (onatas Dabravolskas/Divulgação/Divulgação)
Sua atuação ultrapassou as fronteiras brasileiras. Burle Marx desenvolveu projetos em outros países da América Latina, nos Estados Unidos e na Europa, incluindo os jardins da sede da UNESCO, em Paris. O MoMA, em Nova York, dedicou ao artista uma retrospectiva em 1991 — a primeira exposição do museu dedicada a um paisagista.
Entre todos os projetos, o Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba, no Rio de Janeiro, ocupa um lugar especial. Adquirido pelo artista e seu irmão em 1949, o local funcionou durante décadas como espaço de experimentação botânica e artística, reunindo jardins, edificações, obras de arte e uma coleção com cerca de 3.500 espécies de plantas.
Sítio Roberto Burle Marx, na Barra de Guaratiba. (Leo Martins/Agência O Globo/Divulgação)
Burle Marx doou a propriedade ao governo federal em 1985, com o objetivo de garantir a continuidade das pesquisas e a preservação do conjunto. Em 2021, o Sítio foi reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial, na categoria de paisagem cultural. A organização destaca justamente seu caráter de “laboratório” onde o artista experimentou, por mais de quatro décadas, a combinação entre ideias modernistas e plantas tropicais nativas.
A principal contribuição de Burle Marx foi ampliar o entendimento sobre o papel do paisagismo. Seus jardins não funcionavam apenas como espaços verdes ao redor de edifícios, mas como composições autônomas, capazes de estabelecer relações entre arquitetura, arte e natureza.
Há 30 anos, morria Roberto Burle Marx, maior nome do paisagismo brasileiro. (TYBA/Divulgação/Divulgação)
Décadas depois de sua morte, essa abordagem continua presente no paisagismo brasileiro e internacional. O reconhecimento do Sítio como Patrimônio Mundial reforça a dimensão de seu legado: mais do que um conjunto de jardins famosos, sua obra representa uma maneira particular de olhar para a paisagem brasileira e transformá-la em linguagem artística.
CASACOR Publisher é um agente criador de conteúdo exclusivo, desenvolvido pela equipe de Tecnologia da CASACOR a partir da base de conhecimento do casacor.com.br. Este texto foi editado por Milena Garcia.