Entre oratórios, rituais ancestrais, referências a orixás e espaços de contemplação, a mostra revela um morar que busca acolher também a vida interior
Publicado em 8 de set. de 2026, 10:00

Joia Piscinas Biológicas | Daiane Reis - Jardim de Oração. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Camila Santos/CASACOR)
Com o tempo, a conversa sobre bem-estar dentro do lar ganhou uma nova camada: além do conforto, a casa passou a também cuidar da alma. A CASACOR Bahia 2026 é reflexo dessa mudança. Os projetos abrem espaço para rituais, ancestralidade, proteção, contemplação e memória. São gestos que podem aparecer em um oratório, em uma referência a orixás ou simplesmente na criação de um lugar reservado para estar consigo mesmo.
A própria sede da mostra ajuda a colocar esse assunto em perspectiva. Em sua 32ª edição, a CASACOR Bahia ocupa novamente a Casa Nossa Senhora das Mercês, um casarão histórico no centro de Salvador que preserva elementos da antiga capela.
Dayse Pellegrini e Michele Wharton - Lounge Entre Camadas. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Bia Nauiack/CASACOR)
No Lounge Entre Camadas, Dayse Pellegrini e Michele Wharton partem da Bahia vivida, simbólica e ancestral para criar um ambiente em que natureza, identidade e espiritualidade se encontram. Tecidos suspensos em azul remetem ao céu e ao mar, a vegetação tropical atravessa o espaço e a presença de Iemanjá introduz uma dimensão de reverência e proteção. Ao fundo, a Galeria Espelho dos Orixás amplia a narrativa a partir de uma leitura sobre a cultura afro-diaspórica.
Mally Requião - Gabinete Legado Que Habita. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Camila Santos/CASACOR)
Essa dimensão fica ainda mais íntima no Gabinete Legado Que Habita, de Mally Requião. O projeto nasceu das lembranças do avô da arquiteta e reúne livros, objetos pessoais e sinais de sua religiosidade. Entre o cantinho do café e a cristaleira, há um oratório integrado à marcenaria — não como peça decorativa solta, mas como parte da vida cotidiana do personagem que inspira o espaço.
Gabriel Magalhães - Águias Que Acalmam - Deca. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
No Águas que Acalmam, Gabriel Magalhães parte de um ritual ancestral iorubá, Omí Tútú, para construir uma experiência em torno da água e da terra. Bambu ebanizado, texturas naturais, luz delicada e arte brasileira acompanham os diferentes espaços do ambiente, enquanto a água em movimento contínuo no spa externo reforça as ideias de renovação, fluxo e equilíbrio.
O projeto mostra uma possibilidade de incorporar espiritualidade à arquitetura sem depender de símbolos religiosos explícitos. O ritual é traduzido em matéria, movimento e experiência.
Joia Piscinas Biológicas | Daiane Reis - Jardim de Oração. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Camila Santos/CASACOR)
Algo semelhante acontece no Jardim de Oração, de Daiane Reis - Joia Piscinas Biológicas. Implantado diante da capela do Convento Nossa Senhora das Mercês, o jardim trabalha oração, contemplação e presença por meio de um lago ornamental, do som da água, de caminhos sinuosos e de vegetação tropical. O projeto aproxima espiritualidade e natureza, propondo uma leitura contemporânea do sagrado.
Sílvia Coelho - Living Gaia. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Bia Nauiack/CASACOR)
No Living Gaia, Sílvia Coelho parte da história da avó Dalcy e de sua relação intuitiva com pedras, mármores e texturas naturais. A personagem retratada pelo ambiente também pintava mulheres e orixás, e o projeto transforma essa memória em uma composição de formas orgânicas, matérias naturais e referências afetivas.
Nath Veloso Arquitetura - Loft a Rotina do Agora. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
Já no Loft A Rotina do Agora, Nath Veloso explicita uma dimensão que outros projetos deixam subentendida: o equilíbrio buscado pela casa envolve saúde física, mental, emocional e espiritual. O espaço se organiza entre corpo e vida interior, recorrendo a materiais naturais, luz indireta e uma estética silenciosa.
Bia Nery, Flacy Andrade e Michelle Araújo - Mãe Terra. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Bia Nauiack/CASACOR)
No Mãe Terra, de Bia Nery, Flacy Andrade e Michelle Araújo, essa procura aparece em outro registro. Água, argila, pedra e madeira compõem um ambiente de quietude, enquanto nomes como Terra, Raiz, Origem e Vida estruturam um percurso simbólico de retorno ao corpo e à memória.
Em um cotidiano marcado por excesso de estímulos, hiperconexão e pouca pausa, talvez a procura por esses espaços ateste pela necessidade de encontrar algum lugar de proteção e sentido. Na CASACOR Bahia 2026, entre referências afro-diaspóricas, memórias familiares, natureza e diferentes formas de contemplação, o espiritual aparece menos como ornamento do que como uma dimensão possível do morar. E talvez essa seja a parte mais contemporânea dessa busca: construir casas que não cuidem apenas de como vivemos, mas também de onde encontramos abrigo.
Quando: de 7 de julho a 6 de setembro de 2026
Horários: 15h às 22h (terça a domingo e feriados)
Onde: Casa Nossa Senhora das Mercês – Av. Sete de Setembro, 1105, Salvador, Bahia
Ingressos: R$ 110 (inteira) e R$ 55 (meia)
Bilheteria: online, aplicativo oficial da CASACOR e venda presencial no local
Redes sociais: @casacor_bahia
Mais informações: www.casacor.com.br/mostras/bahia/