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Arte

Painel histórico de Aldo Locatelli passa por processo de conservação na CASACOR RS 2026; como funciona?

Criado em 1953, A Conquista do Espaço enfrenta fungos, craquelamentos e outros danos agravados pelas enchentes no Rio Grande do Sul em 2024

Por Milena Garcia

Publicado em 2 de out. de 2026, 14:00

08 min de leitura
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Karen Berta Arquitetura e Mari Fogliato Studio de Arquitetura - Il Mago Dei Colori. Projeto da CASACOR Rio Grande do Sul 2026.

Karen Berta Arquitetura e Mari Fogliato Studio de Arquitetura - Il Mago Dei Colori. Projeto da CASACOR Rio Grande do Sul 2026. (Cristiano Bauce/CASACOR)

O living Il Mago Dei Colori, assinado por Karen Berta e Mari Fogliatona CASACOR Rio Grande do Sul 2026, chama atenção pelas cores vibrantes, pelos materiais sensoriais e pé-direito duplo — mas também pela presença de uma estrutura pouco habitual nos ambientes da mostra. Um imponente andaime metálico atravessa de um lado ao outro a parede principal do espaço.

Aldo Locatelli Rio Grande do Sul

(Divulgação/CASACOR)

A estrutura não é uma instalação artística, tampouco um vestígio da montagem. Ela já estava no local antes mesmo da chegada da CASACOR e foi incorporada ao ambiente por um motivo que ultrapassa a duração da mostra: dar suporte aos trabalhos de conservação de A Conquista do Espaço, painel do artista italiano Aldo Locatelli que teve seu estado deteriorado após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.

A Conquista do Espaço

A Conquista do Espaço (CASACOR)

Encomendada em 1950 e inaugurada em 1953, a obra foi concebida para Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Com cerca de 50 m², a pintura retrata a história da aviação e o desejo humano de conquistar os céus, reunindo referências que passam por Leonardo da Vinci e Santos Dumont. Mais de sete décadas depois, preservar essa narrativa tornou-se um desafio urgente.

Uma obra de 1953 sob novos olhares


Hoje, A Conquista do Espaço está sob os cuidados de uma equipe formada pela arquiteta Verônica Di Benedetti, responsável pela elaboração e coordenação do projeto; pela restauradora Lenora Rosenfield, de 74 anos e chamada pelos colegas de “a Papisa do Restauro”; e pelo biólogo alemão Markus Wilimzig, encarregado de identificar amostras de fungos e bactérias presentes no painel.


O diagnóstico de conservação começou há pouco mais de dois anos, contou Verônica em entrevista à CASACOR, por encomenda da Fraport (empresa responsável pela gestão do Aeroporto Salgado Filho). O painel ocupa um dos terminais desativados do aeroporto, justamente onde ocorre a CASACOR Rio Grande do Sul 2026.

Caroline Kreling Arquitetura - Lounge A Conquista do Espaço. Projeto da CASACOR Rio Grande do Sul 2025.

Caroline Kreling Arquitetura - Lounge A Conquista do Espaço. Projeto da CASACOR Rio Grande do Sul 2025. (Claudio Fonseca/CASACOR)

"Nós temos uma máxima na arquitetura, principalmente na arquitetura histórica: casa fechada é casa condenada! Quando você fecha um imóvel, já pode começar a contagem regressiva. É impressionante como eles se deterioram rapidamente – e com o painel não foi diferente!", relembra Verônica.


Os primeiros estudos ajudaram a compreender a estrutura, os materiais e as patologias desenvolvidas ao longo do tempo. A pintura foi realizada sobre uma parede dupla de tijolos, revestida por uma argamassa de cerca de cinco centímetros, com aplicação de têmpera e óleo. "Características bem italianas mesmo", acrescenta.

As enchentes mudaram o estado de preservação


Até então, o cenário era relativamente positivo: havia necessidade de manutenção, mas não tinham sido identificados fungos ou perdas significativas das tintas. A situação, porém, mudou após as enchentes de maio de 2024, quando o Aeroporto Salgado Filho permaneceu cerca de 28 dias severamente alagado.

Lenora Rosenfield, restauradora

Lenora Rosenfield, restauradora (Verônica di Benedetti/CASACOR)

Instalado a quase quatro metros do chão, o painel de Locatelli não entrou em contato direto com a água. Ainda assim, o microclima de elevada umidade favoreceu o surgimento de mofo, fungos e craquelamentos na pintura — problemas que, segundo a equipe, não haviam acontecido ao longo das sete décadas anteriores. Sem os cuidados necessários, existe agora o risco de desprendimento da película pictórica, camada na qual estão depositados os pigmentos.

Markus Willinzig, biólogo

Markus Willinzig, biólogo (Verônica di Benedetti/CASACOR)

"Nós estamos nesse momento de entender a situação posterior aos ensaios iniciais que havíamos feito, porque a situação mudou. Precisamos identificar os tipos de fundo para escolher o biocida correto, desinfetar e fazer a higienização. Fizemos também testes de consolidação para colar de volta essa película pictórica", explica Verônica.

Conservação emergencial, não restauração


Os trabalhos realizados em A Conquista do Espaço durante a CASACOR Rio Grande do Sul 2026 fazem parte de um processo de conservação emergencial, e não de restauração. A primeira busca estabilizar e preservar a obra diante dos problemas identificados; enquanto a segunda envolve uma intervenção mais ampla, baseada em análises específicas das patologias existentes.

Karen Berta Arquitetura e Mari Fogliato Studio de Arquitetura - Il Mago Dei Colori. Projeto da CASACOR Rio Grande do Sul 2026.

Karen Berta Arquitetura e Mari Fogliato Studio de Arquitetura - Il Mago Dei Colori. Projeto da CASACOR Rio Grande do Sul 2026. (Cristiano Bauce/CASACOR)

"Nós deveríamos estar com um projeto de restauração agora porque o estado dele é alarmante. Só que na época que nós planejamos, era só uma conservação que seria necessária, ou seja, pequenas questões que precisaríamos eliminar para que ele não precise ser restaurado", esclarece.

Visibilidade para preservar o patrimônio


Um dos principais desafios enfrentados atualmente pela equipe é a captação de recursos para dar continuidade ao projeto. Segundo Verônica, o Pronac (Programa Nacional de Apoio à Cultura) aprovou uma proposta que permite às empresas destinar à conservação do painel o equivalente a 4% de seu Imposto de Renda.


O valor estimado inicialmente para o trabalho é de R$ 700 mil, dos quais R$ 200 mil já foram aportados pela Fraport. Com a presença do projeto na CASACOR, a expectativa da equipe é ampliar a visibilidade da obra e viabilizar a arrecadação dos R$ 500 mil restantes.


"A presença na mostra é uma oportunidade que mais pessoas conheçam o painel – é o que chamamos de educação patrimonial. Você só cuida daquilo que sente que lhe pertence. Você só sente que lhe pertence aquilo que você conhece. Essa é a tônica da conservação", finaliza a arquiteta.