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Arquitetura

Vila Itororó: as muitas vidas de um conjunto arquitetônico no coração de São Paulo

Hoje utilizada como centro cultural, a Vila Itororó data do início dos anos 1910 e carrega em sua arquitetura as marcas de mais de um século de transformações, diferentes usos e histórias

Por Giovanna Jarandilha

Publicado em 3 de set. de 2026, 18:00

05 min de leitura
Vila Itororó: as muitas vidas de um conjunto arquitetônico no coração de São Paulo

(Nelson Kon/Instituto Pedra/CASACOR)

Quem adentra a Vila Itororó não encontra uma imagem fácil de entender. O conjunto não se apresenta como um edifício único, nem como uma vila homogênea: há casas em diferentes níveis, escadarias, muros, jardins e construções que parecem ter sido acrescentadas umas às outras ao longo do tempo. Essa, na verdade, é uma boa síntese da sua história.

Vila Itororo

(Nelson Kon/Instituto Pedra/CASACOR)

Localizada na Bela Vista, em uma área que já foi atravessada pelas águas do Ribeirão do Itororó – córrego hoje aterrado sob a Avenida 23 de Maio –, a Vila começou a ser construída no início do século XX pelo acadêmico Francisco de Castro. O projeto arquitetônico tem origem eclética: materiais provenientes de outras edificações passaram a integrar a construção, prática comum em uma cidade que era marcada por sucessivas obras e demolições.


A Vila foi crescendo assim: sem a uniformidade de um projeto executado de uma só vez e com uma arquitetura que, ainda hoje, revela diferentes momentos de sua construção.

Vila Itororó

Entrada da Vila Itororó. (Acervo Milu Leite/Vila Itororó/CASACOR)

No alto do terreno, Castro construiu o palacete onde viveu. Abaixo dele, desenvolveu casas destinadas ao aluguel e, em outra parte da propriedade, uma área de lazer em torno de uma piscina. O conjunto reunia, portanto, funções diferentes dentro de uma mesma área: moradia, investimento imobiliário e espaços de convivência.

Uma vila que continuou mudando


Vila Itororó

Dia a dia dos moradores da Vila Itororó. (Acervo Benedito Lima de Toledo/Vila Itororó/CASACOR)

Apesar de ter sido inaugurada em 1922, a vila continuou recebendo novas construções e intervenções. Parte de seus elementos decorativos veio, inclusive, do antigo Teatro São José, demolido na região central de São Paulo.


Depois da morte de Francisco de Castro, em 1932, a propriedade foi levada a leilão e adquirida por Augusto Oliveira Camargo. Ao longo das décadas, as transformações continuaram: casas foram adaptadas, espaços foram subdivididos e novas soluções surgiram para atender às necessidades dos moradores. O próprio palacete passou por modificações para abrigar diferentes famílias.

O processo até o patrimônio


O interesse pela preservação da Vila começou a ganhar força nos anos 1970. Uma proposta para transformar o local em centro cultural apareceu em 1974. A ideia não avançou naquele momento, mas o debate continuou. Ao longo das décadas seguintes, a Vila passou a ocupar um lugar particular nas discussões sobre patrimônio em São Paulo. Isso porque sua importância estava na forma como reunia diferentes períodos da cidade, na mistura de linguagens e materiais e na história de quem havia vivido ali.

Vila Itororó

(Fernando Stankuns/Instituto Pedra/CASACOR)

Em 2002, a área que inclui a Vila Itororó foi tombada pelo Conpresp. Três anos depois, veio o tombamento pelo Condephaat. As decisões reconheciam a importância arquitetônica do conjunto, mas também colocavam uma questão delicada em primeiro plano: como preservar um lugar que continuava sendo, antes de tudo, moradia?


Nos anos que se seguiram, o processo que levaria à sua transformação em equipamento cultural seria marcado justamente pela tensão entre o desejo de preservação, os projetos para o futuro e a permanência dos moradores.

Restaurar sem apagar a história


Evento na Vila Itororó.

Evento na Vila Itororó. (Camila Picolo/Instituto Pedra/CASACOR)

Após a desapropriação, a Vila passou a ser destinada a usos culturais. Em 2013, o Instituto Pedra iniciou, em parceria com a Prefeitura de São Paulo, os estudos para um novo projeto de restauro. O trabalho exigiu um levantamento detalhado do conjunto e a adaptação do projeto às condições encontradas.

Vila Itororó

(Camila Picolo/Instituto Pedra/CASACOR)

As obras começaram em 2016, e a primeira etapa do restauro foi entregue em 2019. Hoje, a Vila Itororó funciona como centro cultural, recebendo exposições, atividades educativas, oficinas e diferentes iniciativas abertas ao público.


Sua transformação em centro cultural é resultado de uma história marcada por mudanças e diferentes usos. Sua arquitetura guarda marcas de suas muitas outras vidas antes de chegar até aqui. Mais do que isso, hoje, a Vila oferece uma outra leitura do que pode ser preservado: não uma arquitetura congelada no tempo, mas um lugar onde diferentes histórias continuam visíveis — às vezes lado a lado, às vezes sobrepostas, mas quase sempre impossíveis de separar completamente.