Da recuperação de pisos e marcenarias originais do casarão histórico ao uso de fibras naturais e materiais de baixo impacto, projetos da 32ª edição mostram que o novo nem sempre precisa substituir o que já está ali
Publicado em 24 de ago. de 2026, 8:00

Bruna Dória | BD Interiores - Casa Vitalina. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
Antes de qualquer material novo entrar em cena, uma parte significativa da sustentabilidade na CASACOR Bahia 2026 começou por uma decisão mais simples: manter o que já existia. Na 32ª edição da mostra, montada na Casa Nossa Senhora das Mercês, em Salvador, vários arquitetos optaram por preservar estruturas, acabamentos e elementos originais do casarão histórico, em vez de substituí-los — uma escolha que dialoga diretamente com outra frente da mostra, o uso de materiais naturais, renováveis e de baixo impacto ambiental.
Marlon Gama Arquitetura - Marlon Gama = Vik Muniz +55DESIGN. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
O olhar ambiental atravessa a mostra em diferentes escalas, a começar pela decisão de ocupar um patrimônio histórico existente. No Espaço de Convivência, da +55 Design com Marlon Gama Arquitetura, o escritório optou por aproveitar ao máximo a estrutura já existente, com intervenção pontual e o menor impacto possível de obra — argumento que ganha peso diante do dado de que o Brasil gera cerca de 106,3 milhões de toneladas de resíduos da construção civil por ano, segundo pesquisa setorial da Abrecon de 2025. Toda a produção do ambiente foi concentrada em um raio de 3 quilômetros da mostra, reduzindo deslocamentos e pegada de carbono, e as madeiras dos móveis têm certificação FSC.
Carol Barreto - Travessia - Restaurante a Taberna. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Camila Santos/CASACOR)
Essa lógica de preservação se repetiu em vários pontos do casarão, sobretudo nos pisos originais. No Lounge Escarlate, de Anete Bacelar, Celeste Leão e Pedro Mahcario, a iluminação cênica destaca o piso original restaurado. Na Casa Bem Vivida Electrolux, Wesley Lemos manteve o assoalho original. No Lounge Entre Camadas, de Dayse Pellegrini e Michele Wharton, o piso original foi mantido com as marcas do tempo, e o bambuzal veio replantado de outro espaço, um café no Corredor da Vitória. No restaurante Travessia, A Taberna, Carol Barreto preservou piso e paredes com marcas do tempo. Além disso, Carol trabalhou com corda de sisal, fibras naturais, cerâmica, tintas à base de água com baixa emissão de compostos orgânicos voláteis, iluminação em LED e equipamentos de alta eficiência.
Neto Cunha Arquitetura - Loft Desígnio. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Bia Nauiack/CASACOR)
Outros projetos foram além do piso e mantiveram estruturas inteiras. No Nero & Bianco, Rodrigo Cassieri preservou marcenaria, teto e piso de madeira existentes e concebeu o espaço para aproveitar a ventilação cruzada natural, dispensando o ar-condicionado. No restaurante Soho, Paula Risério e Marco Reis mantiveram os tijolos aparentes da construção original — recurso que também aparece na cozinha do Loft Desígnio, de Neto Cunha. Já no loft CasaCura-Qualivida, Milena Saraiva manteve a estrutura original da edificação, a parede secular em blocos aparentes e o teto em assoalho com estrutura original em madeira.
Bruna Dória | BD Interiores - Casa Vitalina. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
Dois projetos foram além e trataram a reversibilidade como método. Na Casa Vitalina, da BD Interiores, Bruna Dória encontrou no depósito do Casarão das Mercês uma estante de madeira que pertencia à escola, recuperou a peça e lhe deu nova identidade com tinta acrílica à base de água, sem solventes, preservando a madeira para reaproveitamento futuro. O piso vinílico clicado foi instalado sobre o ladrilho existente sem cola, de modo que possa ser removido e reutilizado ao fim da mostra enquanto o ladrilho retoma a leitura original do ambiente; o balcão em pedra natural também foi assentado sem colagem, permitindo desmontagem. O ambiente foi concebido e executado em 40 dias.
Lab IV EBA/UFBA - Coord.: Bruna Dória - Sala de Imprensa Quitanda. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
No LABIV, da Escola de Belas Artes da UFBA, também coordenado por Bruna Dória, as estantes foram desenhadas em sistema modular de quatro módulos independentes, e o mezanino — projetado em parceria com Felipe Cotrim e executado em eucalipto de reflorestamento — usa encaixes como principal método construtivo, sem colas permanentes, para ser desmontado e reaproveitado integralmente.
Dinah Lins - Varanza Raízes Igui. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
Na Varanda Raízes iGUi, Dinah Lins reuniu biriba de eucalipto, deck em cumaru, aproveitamento do piso existente, manutenção do teto em assoalho, iluminação em LED, tintas à base de água e paredes em drywall — sistema que reduz a geração de resíduos.
Wesley Lemos - Casa Bem Vivida Electrolux. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
Wesley Lemos assina a poltrona Wura, sua primeira criação voltada ao uso do corpo, feita em trançado de junco pela técnica vernacular, com estrutura em aço carbono e revestimento em veludo de algodão, apresentada em três tamanhos para atender diferentes estaturas.
Milena Saraiva Arquitetura e Interiores - Casacura-Qualivida - Loft Regenerativo. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Camila Santos/CASACOR)
No CasaCura-Qualivida, Milena Saraiva partiu da neuroarquitetura e da biofilia para uma curadoria em que cada material cumpre função: cobre pelas propriedades antimicrobianas, linho, mármore Bege Bahia pela estabilidade térmica e argila como reguladora natural de umidade — tudo com prioridade para design e produção de Salvador e região, o que reduz a pegada logística.
Joia Piscinas Biológicas | Daiane Reis - Jardim de Oração. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Camila Santos/CASACOR)
No banheiro Mãe Terra, de Bia Nery, Flacy Andrade e Michelle Araújo, argila, pedra e madeira constroem a materialidade. A Minha Garagem, dos NN Arquitetos, integra água e vegetação em uma proposta sustentável, e o Jardim de Oração, de Daiane Reis, tem como elemento central um lago ornamental com sistema biológico, que dispensa tratamento químico convencional.