Em cartaz até 6 de setembro na Casa Nossa Senhora das Mercês, em Salvador, a 32ª edição da CASACOR Bahia apresenta seu primeiro inventário de emissões e o primeiro ambiente carbono neutro da mostra
Publicado em 20 de ago. de 2026, 10:58

Andrade Schimmelpfeng Arquitetura - Dois Jeitos, Um Querer. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
A 32ª edição da CASACOR Bahia, em cartaz até 6 de setembro na Casa Nossa Senhora das Mercês, em Salvador, marca uma virada na relação da mostra com a sustentabilidade. Pela primeira vez em sua história, o evento realiza um inventário de emissões baseado na metodologia GHG Protocol e elabora um relatório ESG, resultado da parceria com a The Planet, consultoria em governança climática fundada por Gilda Gomes, Climate Leader pelo The Climate Reality Project.
A parceria também deu origem ao Manual dos Arquitetos, guia de reflexões sobre o papel da arquitetura diante da emergência climática, ao Manual de Governança ESG da edição e ao Inventário de Gases de Efeito Estufa do masterplan da mostra, além de ações de formação voltadas a arquitetos, fornecedores e equipes. "A sustentabilidade nesta edição deixou de ser um gesto pontual para se tornar um compromisso de gestão. Pela primeira vez vamos medir as emissões da mostra e publicar um relatório ESG, e isso muda a conversa com arquitetos, fornecedores e patrocinadores. O visitante percebe o resultado nos ambientes, mas a transformação começa nos bastidores", afirma Magali Sant'Ana, diretora da CASACOR Bahia.
Andrade Schimmelpfeng Arquitetura - Dois Jeitos, Um Querer. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
A face mais visível dessa agenda está no Living Dois Jeitos, Um Querer, do escritório Andrade Schimmelpfeng — primeiro ambiente carbono neutro da história da CASACOR Bahia. A neutralidade foi alcançada com o Carbon Track M2, tecnologia exclusiva desenvolvida pelo escritório em parceria com a The Planet, capaz de mensurar as emissões do projeto e orientar a compensação por meio da aquisição de créditos de carbono. O ambiente incorpora ainda práticas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Andrade Schimmelpfeng Arquitetura - Dois Jeitos, Um Querer. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
As escolhas são concretas e visíveis ao visitante: a porta principal, desenvolvida com a Plasticaria a partir de plástico reciclado pós-consumo; a bancada verde, criada exclusivamente para o espaço com cimento e materiais reaproveitados, como fragmentos de garrafas de vidro, blocos e resíduos de mármore; e a parede divisória, revestida pela Castelatto com agregados de louças sanitárias trituradas incorporados ao concreto. O guarda-corpo e as prateleiras vieram de sucata metálica reaproveitada, o deck é de pinus de reflorestamento, e a fonte das mil colheres opera com água da condensação do ar-condicionado, reservada e reutilizada tanto na fonte quanto na irrigação das plantas.
Um aplicativo monitora em tempo real os principais indicadores de sustentabilidade do projeto ao longo da mostra: volume de água reaproveitada, economia de energia, redução de emissões proporcionada pelos materiais e pegada de carbono da obra — coerente com a trajetória do escritório, certificado como Empresa B, selo internacional concedido a organizações que comprovam em auditoria altos padrões de desempenho socioambiental, transparência e responsabilidade.
Studio Cady Arquitetura e Interiores - Abraço, para Manolo Wellness. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Gabriel Matos/CASACOR)
A edição ajuda a desfazer um estereótipo persistente: o de que material reciclado ou de reuso resulta em estética precária, associada à improvisação. A Plasticaria, que produz placas a partir de plástico pós-consumo, assina peças em diferentes espaços. No Abraço, do Studio Cady para a Manolo Wellness, os tampos das mesas são do material reciclável da empresa, que também produziu uma mesa de apoio com design autoral do arquiteto Felipe Cady.
Nath Veloso Arquitetura - Loft a Rotina do Agora. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
No loft A Rotina do Agora, de Nath Veloso, um móvel foi produzido com 30 quilos de placas de plástico reciclado — o equivalente ao indicador PP+ de seis meses, medida de Peso Plástico Positivo adotada pela empresa e fundamentada em pesquisa da Blue Keepers, segundo a qual cada pessoa gera cerca de 64 quilos de plástico por ano, dos quais aproximadamente 16 quilos acabam nos oceanos.
Hugo Ribeiro - Cozinha e Jantar. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
Na Cozinha e Jantar, de Hugo Ribeiro, o pendente sobre a mesa de jantar foi desenvolvido exclusivamente para o ambiente em parceria com o Studio L, a partir de sobras de couro reaproveitadas de processos produtivos. Nesses projetos, o material de descarte aparece incorporado com acabamento e intenção, lado a lado com madeiras nobres, mármores e mobiliário assinado — prova de que sofisticação e responsabilidade ambiental deixaram de ser escolhas opostas.
O compromisso se estende à operação da mostra. Toda a sinalização da edição foi produzida em Ecobord, material totalmente reciclável de papelão com impressão em tinta à base d'água, trazido pela Blue Artes, empresa de sinalização de Salvador que detém os direitos do material na Bahia. O Ecobord já havia sido usado este ano na sinalização do Salone del Mobile, em Milão, principal evento de design do mundo.
A mostra também sedia o Prêmio Plasticaria de Ecodesign Circular 2026, realizado pela Plasticaria em parceria com a CASACOR Bahia e a Secretaria de Sustentabilidade, Resiliência e Bem-Estar e Proteção Animal de Salvador (SECIS), com apoio institucional de organizações como a Embaixada da França no Brasil e a cátedra Unesco de sustentabilidade da Universitat Politècnica de Catalunya. O prêmio convida arquitetos, estudantes, designers e criativos em geral — mesmo sem experiência — a desenvolver projetos autorais que transformem plástico reciclado em arquitetura, design e inovação, com categorias que partem de volumes concretos de resíduo, como uma saboneteira produzida com um mês de descarte plástico ou um banquinho com o equivalente a um ano; uma delas é exclusiva para o elenco de arquitetos da CASACOR Bahia. Os vencedores serão anunciados em 31 de agosto, junto à premiação da mostra, e os protótipos ficam expostos ao público na última semana do evento.
Gabriel Magalhães - Águias Que Acalmam - Deca. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Denilson Machado, do MCA Estúdio/CASACOR)
A pauta atravessa também as obras expostas. No Águas que Acalmam, ambiente de Gabriel Magalhães, o artista Mateus Morbeck apresenta Meia Água, série de monotipias criadas pela imersão de papel aquarelável nas manchas do derramamento de óleo que atingiu o mar do Nordeste brasileiro — um manifesto que converte o vestígio de um desastre ambiental em obra de arte, com relevos formados pelo óleo acumulado e marcas deixadas no instante em que cada papel foi retirado da água.
Sílvia Lectícia e Tays Mota | Sense2 Arquitetura - Adega Latência. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Camila Santos/CASACOR)
Na Adega Latência, da Sense2 Arquitetura, de Tays Mota e Sílvia Lectícia, as obras Entre Veias e Taninos, de Syene Brito, e Entre Safras, de Roberta Tagliapietra, usam fibra proveniente de pneus reciclados. O espaço abriga ainda a escultura Coração, de Juliana Maria para a Rizoma, produzida a partir de uma lata de lixo de ferro descartada, e uma instalação interativa na saída em que os visitantes assinam a experiência depositando rolhas de vinho usadas em um recipiente.
Neto Cunha Arquitetura - Loft Desígnio. Projeto da CASACOR Bahia 2026. (Bia Nauiack/CASACOR)
No Loft Desígnio, de Neto Cunha, a escultura O Propósito, atirantada com cabos de aço sobre a cama, foi produzida em ecoboard — material 100% reciclado e reciclável, com 247 camadas interligadas por cola hotmelt, modelada em impressora 3D e executada pela Blue Arts.
Os troféus da edição seguem o mesmo caminho: assinados pela artista plástica e designer Luciana Bittencourt, foram desenvolvidos a partir de raízes recolhidas na Chapada Diamantina, muitas provenientes de áreas atingidas por incêndios ou desmatamentos — fragmentos que poderiam representar destruição e ganham, na mostra, uma nova existência através da arte.