O ambiente Da Terra ao Solo, de Maria Fernanda Marques, apresenta esculturas vivas que unem design, biodiversidade e conscientização ambiental
Publicado em 4 de ago. de 2026, 12:46

Maria Fernandes Marques Paisagismo - Da Terra ao Solo. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Roberta Gewehr/CASACOR)
Esculturas costumam ocupar os jardins pela força estética, mas, na CASACOR São Paulo 2026, elas também desempenham outra função: servir de abrigo para abelhas nativas brasileiras. No ambiente Da Terra ao Solo, assinado por Maria Fernanda Marques Paisagismo, as peças criadas pelo artista João Machado transformam arte em ferramenta de conservação, funcionando como verdadeiras colmeias vivas.
Maria Fernandes Marques Paisagismo - Da Terra ao Solo. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Roberta Gewehr/CASACOR)
A proposta dialoga diretamente com o conceito do jardim, que reúne mais de 70 espécies de plantas nativas brasileiras em uma composição naturalista. Segundo Maria Fernanda, conhecer a pesquisa desenvolvida por João Machado foi determinante para incorporá-la ao projeto. "Conhecendo o trabalho do João, aqui era o local ideal para mostrar a importância das abelhas. Nós falamos das abelhas através dessa escultura e valorizamos esse trabalho que ele faz, que é maravilhoso, porque ele se aprofunda realmente no tema das abelhas nativas."
As esculturas desenvolvidas por João Machado são produzidas em cerâmica, mas escondem uma estrutura cuidadosamente pensada para receber colônias de abelhas nativas. Internamente, cada peça é revestida com madeira e cera de abelha, materiais que ajudam a criar um ambiente adequado para a instalação dos enxames. O tamanho também não é aleatório: cada escultura é projetada para atender às necessidades específicas de determinadas espécies.
"O Brasil tem a maior biodiversidade de abelhas do mundo: são cerca de 3.000 espécies, com necessidades muito específicas em relação a biomas, tamanho de abrigo, umidade, temperatura, entre outros fatores. Além da minha formação como artista, tenho 20 anos de experiência como meliponicultor", explica João.
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Depois de pronta, a escultura pode permanecer no jardim aguardando uma enxameação espontânea, embora o artista prefira introduzir previamente a colônia desejada. A partir desse momento, a obra passa a desempenhar um papel ativo no ambiente: além de servir como abrigo, contribui para a polinização das plantas ao redor e ainda permite o acesso à parte superior para eventual retirada de mel.
"Na minha opinião, o principal benefício é a conservação de espécies ameaçadas, que são fundamentais para o equilíbrio do nosso ecossistema. Também gosto muito da ideia de uma obra de arte interativa, que funciona como uma conexão entre abelhas e pessoas", acrescenta o artista.
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Embora façam parte de um ambiente expositivo, as esculturas também foram concebidas para ocupar jardins residenciais. Segundo João Machado, elas podem ser instaladas tanto em áreas urbanas quanto rurais, desde que estejam próximas de parques ou áreas com floração.
Os principais cuidados acontecem justamente na instalação. É importante posicionar a peça em um local protegido do sol direto e garantir alimento para as abelhas por meio da vegetação do entorno. Depois disso, a recomendação é interferir o mínimo possível na colônia. "As abelhas estão na Terra há cerca de 130 milhões de anos, enquanto nós estamos aqui há aproximadamente 4 milhões. Elas não precisam de nós, mas nós dependemos totalmente delas. Quanto menos interferirmos no enxame, melhor e mais saudáveis elas viverão", orienta.
Maria Fernandes Marques Paisagismo - Da Terra ao Solo. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Roberta Gewehr/CASACOR)
A presença das esculturas de João Machado não é a única estratégia utilizada para favorecer os polinizadores no ambiente Da Terra ao Solo. O jardim também abriga um hotel de insetos, estrutura executada por um bioconstrutor, a pedido de Maria Fernanda Marques Paisagismo, para incentivar a permanência de diferentes espécies que desempenham papel importante no equilíbrio do ecossistema.
Segundo João Gabriel, diretor-executivo do escritório, a ideia é ajudar a transformar a percepção que as pessoas têm sobre esses animais. "A intenção é falar da necessidade de termos os insetos como algo normal no jardim, que nós, numa sociedade urbana, aprendemos a repelir. Então, que eles são necessários para a saúde fitossanitária do jardim e para a polinização."
As aberturas distribuídas pela estrutura funcionam como locais de abrigo e reprodução. "Essas cavidades são aonde os insetos procuram para poder fazer seus ninhos. Então, nós falamos em nidificação. Eles procuram esses locais para poder abrigar e continuar a espécie", ele completa.
Ambas as obras encontram no jardim assinado por Maria Fernanda Marques um cenário pensado justamente para favorecer a biodiversidade. Com 320 m², o projeto leva à tiny house Cubikoo e a mais duas áreas externas antes de desembocar na entrada monumental do primeiro casarão da CASACOR São Paulo. O foco do paisagismo está na valorização das espécies nativas brasileiras – incluindo taioba, maranta-riscada, helicônias, gengibre-azul, palmeirinha-petrópolis e tantas outras.
Maria Fernandes Marques Paisagismo - Da Terra ao Solo. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Roberta Gewehr/CASACOR)
"As espécies nativas fortalecem a cadeia ecossistêmica. Elas fizeram parte do desenvolvimento do nosso país, então estão totalmente adaptadas às bactérias no solo, aos insetos polinizadores e aos demais fatores que influenciam a saúde fitossanitária. Tudo isso já está integrado há milhões de anos", ressalta a responsável.
Maria Fernandes Marques Paisagismo - Da Terra ao Solo. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Roberta Gewehr/CASACOR)
Em conclusão, João Gabriel complementa que a proposta do Da Terra ao Solo é justamente trazer um manifesto aos visitantes da CASACOR. "Vamos primeiro começar a valorizar o nosso país para depois olhar para o que têm fora. Isso vale para cultura, arte e também para a biodiversidade. Nossa proposta é educativa, trazendo um treinamento desse olhar: mostrar que é possível montar um jardim com plantas nativas brasileiras", finaliza.