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Hugo Ribas criou na CASACOR SP um ambiente que pertence às aldeias e a elas vai retornar

No último pátio do percurso da mostra paulistana, o arquiteto do Museu das Culturas Indígenas deixou os povos originários escolherem o que queriam mostrar e construiu seu projeto em torno disso

Por Giovanna Jarandilha

Publicado em 28 de jul. de 2026, 15:13

08 min de leitura
Hugo Ribas - Pira Sesá - Olho de Peixe. Projeto da CASACOR São Paulo 2026.

Hugo Ribas - Pira Sesá - Olho de Peixe. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Roberta Gewehr/CASACOR)

Há um banco no Pira Sesá em que nem todo mundo pode sentar, pois pertence apenas às mulheres. Para a etnia que o fez, isso é parte do que o objeto significa. Hugo Ribas, responsável pelo projeto que fecha o circuito da CASACOR São Paulo 2026, sabe disso porque foi ele quem iniciou o diálogo com os indígenas. Antes de qualquer traço de projeto, veio a pergunta: o que vocês querem mostrar?


"A premissa foi perguntar o que o indígena queria expor", explica Hugo. Na mostra em que o arquiteto costuma ser a figura central, é uma inversão que diz muito sobre os valores que orientam seu trabalho.

O último ambiente do percurso


Hugo Ribas - Pira Sesá - Olho de Peixe. Projeto da CASACOR São Paulo 2026.

Hugo Ribas - Pira Sesá - Olho de Peixe. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Camila Santos/CASACOR)

O Pira Sesá — que significa olho de peixe — ocupa um deck de eucalipto entre vinte árvores intocadas, o último dos 70 ambientes que compõem a mostra. Ali convivem bambus usados num ritual de dança, uma cestaria de pesca e o grafismo criado ao lado da artista Auá Mendes. "Se você vier daqui duas semanas, vai ter outro objeto em exposição", diz o arquiteto, apontando que o espaço funciona como uma coleção viva, em atualização constante.


Nada ali está por acaso ou por estética. A paisagista Maura Lima escolheu o bambu-mossó e espécies ornamentais que chegam em vasos de barro amassado com os pés, moldado à mão e queimado em fornos — um processo que reúne, numa única peça, heranças indígenas, africanas e portuguesas. Cada elemento carrega uma história anterior ao projeto.

Hugo Ribas - Pira Sesá - Olho de Peixe. Projeto da CASACOR São Paulo 2026.

Hugo Ribas - Pira Sesá - Olho de Peixe. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Camila Santos/CASACOR)

Hugo descreve o ambiente quase como uma co-criação. Cada peça muda de sentido conforme a etnia que a fez: o bastão de chuva é ritual para um povo, artesanato para outro; a cestaria de pesca tem um significado para o grupo Krenak e outro para os Guaranis. "Existem quase 380 povos indígenas no Brasil. A gente tem seis representados aqui".

Do Líbano aos povos originários


Hugo Ribas - Pira Sesá - Olho de Peixe. Projeto da CASACOR São Paulo 2026.

Hugo Ribas - Pira Sesá - Olho de Peixe. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Roberta Gewehr/CASACOR)

Hugo Ribas trabalha com museus há mais de quinze anos — passou pelo Catavento, pela Biblioteca Mário de Andrade, e há quatro anos e meio está no Museu das Culturas Indígenas, instituição que ajudou a implantar. Mas o caminho até os povos originários começou fora do Brasil, no Líbano, onde foi construir duas casas e saiu impressionado com a forma como aquelas pessoas carregavam a própria cultura. "Eu queria procurar algo que o Brasil valorizasse de uma cultura. E aí eu encontrei os povos originários."


O que aprendeu com eles atravessa o ambiente inteiro: valorizar as pequenas coisas, valorizar um tempo diferente do tempo não-indígena — o chamado "juruá". "A gente às vezes não valoriza o tempo. Mas eu aprendo sempre. Eles falam dos anciões, falam da família, valorizam os mais velhos, os antepassados".

Hugo Ribas - Pira Sesá - Olho de Peixe. Projeto da CASACOR São Paulo 2026.

Hugo Ribas - Pira Sesá - Olho de Peixe. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Roberta Gewehr/CASACOR)

Parte do mobiliário é assinado por Paulo Alves, parceiro de Hugo há quinze anos, escolhido por coerência, não por estética. "Tudo aqui precisava ter pessoas que de fato têm esse cuidado com a natureza". Sobre Paulo, ele afirma: "Para mim ele é uma inspiração. Não só pelos acabamentos, mas porque ele também ensina a fazer mobiliário em algumas comunidades ribeirinhas. Ele passa esse conhecimento e não se apropria de uma cultura."


Juntos, os dois já assinaram a exposição Redes de Povos, reunindo redes de dormir de várias etnias num mesmo espaço — e o projeto quer ir além do Brasil, já que os povos originários não existem só aqui. "A rede indígena é ergonômica e super confortável. E mostra como esse trabalho manual é feito", diz Hugo.

O sonho ainda por vir


Hugo Ribas - Pira Sesá - Olho de Peixe. Projeto da CASACOR São Paulo 2026.

Hugo Ribas - Pira Sesá - Olho de Peixe. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Roberta Gewehr/CASACOR)

O maior sonho de Hugo ainda está sendo formulado: um ambiente completo em que cada objeto — o tapete, a mesa de centro, o papel de parede — tenha sido desenhado por um indígena, com o nome de cada autor estampado na peça. "Não uma peça indígena e as demais de grandes marcas. Que as grandes marcas possam estar junto, sim, desde que tenha um propósito. Mas que seja o nome de cada indígena em cada peça."


Enquanto isso, Hugo realizou um outro desejo no Pira Sesá: o de retornar para as aldeias tudo o que está ali. O deck de eucalipto será remontado, e a estrutura da casinha foi projetada com medidas exatas para caber numa aldeia específica. "Esse projeto não nasceu aqui e não morre aqui. Ele já tem um destino pensado na aldeia".