Na CASACOR Espírito Santo 2026, os sofás aparecem em grandes dimensões para privilegiar a permanência, a conversa e o convívio, indicando uma mudança na maneira de ocupar a casa
Publicado em 26 de ago. de 2026, 12:00

Cris Locatelli - Living Maria. Projeto da CASACOR Espírito Santo 2026. (Felipe Araújo/CASACOR)
Uma sala de estar pode dizer muito sobre a maneira como uma casa é vivida. Nos ambientes da CASACOR Espírito Santo 2026, uma escolha recorrente chama atenção: sofás de grandes dimensões, desenhados para comportar grandes grupos, ocupar espaço e organizar a sala em torno da permanência.
A mudança acontece em um momento em que a casa se tornou mais equipada e multifuncional. A sala, que antes concentrava a convivência, passou a acomodar a televisão e uma sucessão de dispositivos. Agora, alguns dos projetos parecem recolocar o convívio no centro do ambiente — não como oposição à tecnologia, mas como uma escolha de prioridade.
A leitura se aproxima do tema nacional da CASACOR 2026, Mente e Coração, que propõe uma reflexão sobre o impacto do excesso de estímulos e sobre a necessidade de reconexão. No Espírito Santo, a ideia aparece em projetos voltados à memória, ao acolhimento e à desaceleração. A edição ocupa o antigo Hotel Canto do Sol, na Praia de Camburi, e reúne 37 ambientes assinados por mais de 40 profissionais.
João Daniel Arquitetura - Memórias Todeschini. Projeto da CASACOR Espírito Santo 2026. (Felipe Araújo/CASACOR)
Em Memórias Todeschini, João Daniel Silva e Martins parte da arte de receber. A mesa de jantar é o elemento escultural e o centro das conexões humanas, enquanto o layout fluido evita uma divisão rígida entre os usos. Madeira nobre, superfícies minerais, tons terrosos e formas orgânicas completam o ambiente.
Fernando Zacché Arquitetos - Estar Pulsar. Projeto da CASACOR Espírito Santo 2026. (Felipe Araújo/CASACOR)
A lógica também está presente no Estar Pulsar, de Fernando Zacché Arquitetos. O living foi concebido a partir dos laços afetivos e combina pedra preta, madeira escura e couro em uma atmosfera mais envolvente. A arquitetura tem forte presença, mas o mobiliário é disposto para favorecer a permanência.
São configurações diferentes, mas com uma premissa semelhante: a sala não é organizada em torno de uma única atividade. Ela comporta conversa, recepção e descanso sem que um uso precise anular o outro.
Débora Bicalho Arquitetura - De Volta. Projeto da CASACOR Espírito Santo 2026. (Felipe Araújo/CASACOR)
No De Volta, Débora Bicalho Arquitetura explicita essa intenção ao projetar uma sala de TV como resposta ao excesso de estímulos contemporâneos. A tecnologia está presente, mas de maneira discreta. Madeiras, texturas artesanais, iluminação cênica e uma tapeçaria em ponto cruz assumem maior importância, enquanto peças de Victor Vasconcelos e Rodrigo Laureano reforçam a presença do design nacional.
Cris Locatelli - Living Maria. Projeto da CASACOR Espírito Santo 2026. (Felipe Araújo/CASACOR)
No Living Maria, Cris Locatelli leva a questão para o campo da memória. Inspirado em sua mãe, o projeto usa madeira, texturas e luz para construir uma atmosfera doméstica, com tons terrosos e verdes desbotados e uma cristaleira revestida de floral.
A referência familiar ajuda a deslocar o ambiente da ideia de sala como composição decorativa para a de casa como lugar de lembranças. É uma diferença sutil, mas importante: quando o projeto parte de histórias pessoais, o conforto deixa de ser apenas visual e passa a depender também daquilo que o espaço evoca.
Sergio Paulo Rabello - Loft do Artista/Placas do Brasil. Projeto da CASACOR Espírito Santo 2026. (Felipe Araújo/CASACOR)
No Loft do Artista/Placas do Brasil, Sergio Paulo Rabello chega a outro resultado. Inspirado no universo criativo do estilista Jay Boggo, o ambiente combina moda, arte e arquitetura, reunindo peças de diferentes épocas, mobiliário contemporâneo, elementos vazados e obras de arte sob um teto de vidro estrutural.
A mistura evita a sensação de ambiente montado a partir de um único repertório. Há memória, referências pessoais e objetos contemporâneos convivendo no mesmo espaço — uma imagem mais próxima da casa real do que de uma composição inteiramente coordenada.
Geraldo Lino Arquitetura e Interiores - Presença – Espaço Gourmet Deca. Projeto da CASACOR Espírito Santo 2026. (Felipe Araújo/CASACOR)
Aqui o sofá grande deixa de ser apenas uma questão de proporção. Seu tamanho acompanha uma mudança na própria configuração do estar: menos compartimentado, menos dependente de uma função específica e mais aberto a diferentes formas de ocupação.
O movimento também aparece em outros ambientes da mostra. No Presença – Espaço Gourmet Deca, Geraldo Lino cria um espaço integrado e sem barreiras físicas, com sofás de formas orgânicas entre os elementos que estruturam a área de convivência. No Cooltiva Café e Bistrô, do Studio Sì, lounges circulares foram desenhados para incentivar a permanência prolongada e a troca entre os visitantes.
Studio Sì - Cooltiva Café e Bistrô. Projeto da CASACOR Espírito Santo 2026. (Felipe Araújo/CASACOR)
Depois de incorporar telas, automação e múltiplas funções, a casa volta a reservar espaço para atividades que não precisam de equipamento algum. Receber amigos, conversar depois do jantar, assistir a alguma coisa acompanhado, ler perto de outra pessoa, ficar sem fazer nada.
Nesse cenário, o sofá é menos protagonista do que indicador. Seu crescimento acompanha uma sala que volta a admitir que nem todo espaço precisa justificar sua existência por uma função produtiva.
Quando: de 16 de julho a 8 de setembro de 2026
Horários: terça a domingo e feriados, das 11h às 22h
Onde: Antigo Hotel Canto do Sol – Orla da Praia de Camburi, Vitória
Ingressos: de R$ 50 (meia) a R$ 100 (inteira)
Bilheteria: online, aplicativo oficial da CASACOR e venda presencial no local.