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Cultura, Cidades

Cidades Criativas da UNESCO: quando a cultura vira estratégia

Na Semana Criativa de Tiradentes, especialistas explicaram como a Rede de Cidades Criativas da UNESCO transforma cultura e criatividade em estratégias de desenvolvimento para os territórios

Por Marina Pires

Publicado em 29 de out. de 2026, 16:00

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Cidades Criativas da UNESCO: quando a cultura vira estratégia

(Divulgação/CASACOR)

Criada para aproximar municípios que colocam a cultura e a criatividade no centro de suas estratégias de desenvolvimento, a Rede de Cidades Criativas da UNESCO reúne mais de 400 cidades ao redor do mundo. Porém, fazer parte dela significa mais do que receber um reconhecimento internacional. Envolve assumir compromissos, criar políticas públicas e fortalecer quem produz cultura nos territórios.

Isabel de Paula, coordenadora de Cultura da UNESCO no Brasil, e Marcelo Barros, coordenador da Rede Brasileira de Cidades Criativas da UNESCO

Isabel de Paula, coordenadora de Cultura da UNESCO no Brasil, e Marcelo Barros, coordenador da Rede Brasileira de Cidades Criativas da UNESCO (Allison Ferrarezi/CASACOR)

O tema esteve em pauta durante a 10ª Semana Criativa de Tiradentes, que em 2026 teve a UNESCO como parceira pela primeira vez. A conversa reuniu Isabel de Paula, coordenadora de Cultura da UNESCO no Brasil, e Marcelo Barros, coordenador da Rede Brasileira de Cidades Criativas da UNESCO, para explicar como essa articulação funciona e o que ela pode representar para as cidades brasileiras.

Embora Tiradentes não integre oficialmente a rede, Isabel chamou atenção para a relação da cidade mineira com seus princípios. “É um território criativo pulsante, onde você vê na prática todos os princípios e a execução de atividades que podem caracterizar uma cidade criativa”, afirmou.

Brasília (DF) é considerada Cidade Criativa do Design

Brasília (DF) é considerada Cidade Criativa do Design (ckturistando/CASACOR)

O que são as Cidades Criativas da UNESCO?


Criada em 2004, a Rede de Cidades Criativas da UNESCO conecta municípios que reconhecem cultura e criatividade como parte de seu desenvolvimento. As cidades participantes estão distribuídas entre áreas como música, artesanato e artes populares, gastronomia, literatura, design, arquitetura, artes midiáticas e cinema.

Porém, entrar para a rede não significa apenas receber um selo. Cada cidade apresenta um plano de desenvolvimento ligado ao seu campo criativo e precisa demonstrar, ao longo do tempo, que as ações previstas estão sendo colocadas em prática.

“Não é um recebimento de chancela nem de prêmio e que agora você é melhor do que os outros”, explicou Isabel. O reconhecimento traz responsabilidades, entre elas criar um ambiente mais favorável para artistas e profissionais da cultura e ampliar oportunidades de trabalho e renda.

São Paulo – Cidade Criativa do Cinema

São Paulo – Cidade Criativa do Cinema (João Tzanno /CASACOR)

Marcelo amplia essa discussão ao falar em territórios criativos, que podem ir além dos limites de um único município. São lugares conectados por patrimônios, saberes, cadeias produtivas e uma vocação cultural compartilhada.

Na Paraíba, por exemplo, existe o Território Criativo da Cachaça, que reúne diferentes cidades ligadas à produção e à cultura em torno da bebida. O exemplo mostra que uma identidade criativa também pode nascer das relações entre municípios e comunidades.

Isabel de Paula, coordenadora de Cultura da UNESCO no Brasil, e Marcelo Barros, coordenador da Rede Brasileira de Cidades Criativas da UNESCO

Isabel de Paula, coordenadora de Cultura da UNESCO no Brasil, e Marcelo Barros, coordenador da Rede Brasileira de Cidades Criativas da UNESCO (Allison Ferrarezi/CASACOR)

As Cidades Criativas da UNESCO no Brasil


No Brasil, 15 cidades reconhecidas pela UNESCO integram a rede. Na gastronomia estão Belém, Florianópolis, Paraty e Belo Horizonte. Brasília, Curitiba e Fortaleza representam o design. João Pessoa integra a categoria de artesanato e artes populares, enquanto Salvador e Recife fazem parte da área de música. No cinema estão Santos, Penedo e São Paulo. O Rio de Janeiro representa a literatura e Campina Grande, as artes midiáticas.

Segundo Marcelo, o trabalho desenvolvido por essas cidades alcança ainda dezenas de outros municípios por meio de projetos, cadeias produtivas e iniciativas relacionadas ao patrimônio cultural.

Estátua de Carlos Drummond de Andrade, em Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), cidade reconhecida pela UNESCO como Cidade Criativa da Literatura.

Estátua de Carlos Drummond de Andrade, em Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), cidade reconhecida pela UNESCO como Cidade Criativa da Literatura. (Divulgação/CASACOR)

A Rede Brasileira de Cidades Criativas promove encontros presenciais e reuniões periódicas para que experiências desenvolvidas em um território possam ser compartilhadas com os demais. A ideia é identificar projetos que funcionam localmente e avaliar como podem ser adaptados a outras realidades.

“Só tem um jeito de fazer. Trabalhando em rede”, afirmou Marcelo. Isso envolve reunir poder público, universidades, pesquisadores, empresários, empreendedores, associações e trabalhadores da cultura em torno de objetivos comuns.

Para Isabel, a experiência brasileira tem uma característica importante. A articulação nacional vai além das obrigações formais da UNESCO e também aproxima municípios que ainda não fazem parte da rede internacional, mas já desenvolvem ou começam a estruturar iniciativas ligadas à economia criativa.

Salvador (BA) – Cidade Criativa da Música

Salvador (BA) – Cidade Criativa da Música ( José Maldonado/CASACOR)

O que muda para quem vive nesses territórios?


Para a UNESCO, uma Cidade Criativa só faz sentido quando a população participa desse desenvolvimento. Isso passa por fortalecer quem produz cultura, criar oportunidades econômicas e fazer com que os projetos cheguem também a regiões que têm menos acesso a equipamentos e iniciativas culturais.

“Não existe uma cidade criativa sem que as pessoas estejam no centro desse desenvolvimento”, afirmou Isabel. Artistas, artesãos e outros trabalhadores da cultura precisam encontrar condições para desenvolver seu trabalho e permanecer nesses territórios.

Os resultados podem aparecer na geração de emprego e renda, na valorização dos saberes locais e também em áreas que parecem distantes da política cultural.

João Pessoa (PA) é a Cidade Criativa do Artesanato e da Arte Popular

João Pessoa (PA) é a Cidade Criativa do Artesanato e da Arte Popular (Rany Lops/CASACOR)

Na Paraíba, o projeto Poesia do Cuidado utiliza literatura de cordel, música, jogos e histórias ligadas à ancestralidade para apoiar profissionais da atenção primária do SUS no acompanhamento de crianças e adolescentes em tratamentos de longa duração.

Para Marcelo, iniciativas como essa mostram que cultura e criatividade podem responder a problemas concretos. “Isso é cultura na veia”, afirmou ao explicar como o projeto aproxima repertório cultural, tecnologia e saúde pública.

Isabel de Paula, coordenadora de Cultura da UNESCO no Brasil

Isabel de Paula, coordenadora de Cultura da UNESCO no Brasil (Allison Ferrarezi/CASACOR)

Cultura também é desenvolvimento


Na visão apresentada por Isabel, a cultura não ocupa um papel secundário no desenvolvimento de uma cidade. Ela movimenta cadeias econômicas, fortalece identidades, cria oportunidades e participa da maneira como uma comunidade pensa seu próprio futuro.

“A cultura, no caso das cidades criativas, não é secundária ao desenvolvimento. Pelo contrário, ela propicia o desenvolvimento”, afirmou.

Essa visão também está relacionada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Embora a cultura não tenha hoje um objetivo exclusivo dentro da Agenda 2030, Isabel destacou que ela atravessa diferentes áreas e pode contribuir para enfrentar questões sociais e ambientais.

“A cultura ajuda, sim, a combater a pobreza. Cultura apoia, sim, novos hábitos em relação ao meio ambiente”, disse Isabel. Para ela, o tema também conecta diferentes tempos de uma sociedade. “A cultura é um elo que nos une, une os nossos antepassados, a nossa vida atual e o planeta futuro.”

Curitiba (PR) – Cidade Criativa do Design

Curitiba (PR) – Cidade Criativa do Design (Marcelo Harassen do Ó/CASACOR)

Mais importante que o reconhecimento é o caminho


Para Marcelo, uma cidade interessada em integrar a rede não deve transformar o reconhecimento internacional em uma corrida pelo selo da UNESCO. O trabalho feito até chegar a uma candidatura consistente pode ser tão importante quanto o resultado.

“O reconhecimento pela UNESCO é a cereja do bolo, mas o melhor de tudo não é isso. É o caminho que você percorre até chegar lá”, afirmou.

Belo Horizonte – Cidade Criativa da Gastronomia

Belo Horizonte – Cidade Criativa da Gastronomia (Jonathan Borba/CASACOR)

Esse percurso envolve reconhecer a própria vocação cultural, mobilizar pessoas, organizar projetos, fortalecer a governança e criar condições para que o patrimônio continue vivo.

No fim, ser uma cidade criativa começa antes de qualquer reconhecimento internacional. Está na maneira como um território valoriza aquilo que já produz, apoia as pessoas que mantêm sua cultura viva e transforma criatividade em oportunidades para quem mora ali.