Banheiro, frente de estante, rodapé e backsplash: a mostra deste ano revela um deslocamento de onde a arte costuma ser exibida e aponta para uma nova relação entre arte e funcionalidade na arquitetura
Publicado em 29 de jul. de 2026, 12:00
Composições de quadros originais roubam a cena na CASACOR São Paulo. (Reprodução/CASACOR)
Existe uma lógica mais ou menos fixa para pendurar um quadro em um projeto de interiores: na altura dos olhos, em uma parede livre, no living ou no corredor. Foi essa lógica que vimos sendo colocada em xeque em vários ambientes da CASACOR São Paulo 2026. Na mostra, o quadro aparece dentro do banheiro, na frente da estante, quase encostado no rodapé e até como pano de fundo da pia da cozinha.
Reunimos os ambientes que melhor ilustram essa tendência de quadros em lugares inesperados. Confira!
À direita, o ambiente Banheiro Galeria do Estúdio Carlos Navero. À direita, o Espaço Gênese, de Camilo Jr. (Reprodução/CASACOR)
No Banheiro Galeria (na imagem, à direita), de Carlos Navero Studio, a marcenaria em MDF preto absoluto vira pano de fundo para obras de Sônia Menna Barreto, Luiz Martins, Eleutherio Netto e Marcelo Mendonça, formando uma pequena galeria que conduz até o lavatório e as duas cabines acessíveis deste banheiro de 12 m². É um dos exemplos mais diretos do que estamos falando: arte tratada com o mesmo cuidado de uma sala de estar num ambiente que costuma ser só funcional.
Já no Espaço Gênese (à esq.), assinado por Camilo Jr., o banheiro de 25 m² com ilha de conforto usa pedra, madeira e inox como camadas de materialidade. Entre elas aparecem 18 obras da série Forjados no Mar, de Hanna Dank, reforçando a ideia de um espaço pensado para ser observado, não só usado.
À dir., a Casa Cosentino Sanare, de Natan Gil Arquitetura. À esq., o Banho da Saudade, de Bruno Borges - BSB Arquitetura. (Reprodução/CASACOR)
Na Casa Cosentino Sanare (à esq.), projeto de Natan Gil Arquitetura, o quadro entra na composição de um loft de 106 m² construído em torno da palavra sanare — cura, introspecção, fé. Num espaço minimalista e escultural, onde vazio e silêncio têm peso próprio, a arte aparece encostada à estante como mais uma camada de significado, ao lado do mobiliário desenhado pelo próprio escritório.
No Banho da Saudade (à dir.), de Bruno Borges - BSB Arquitetura, esse recurso ganha um tom mais psicológico: as obras de Bruno Passos e Caio Cruz recebem quem entra neste banheiro unissex de 33 m², pensado como uma experiência de autorreconhecimento antes mesmo de chegar às cabines.
A Cozinha Brastemp, assinada por Beatriz Quinelato. (Reprodução/CASACOR)
E na Cozinha Brastemp, de Beatriz Quinelato, a proposta de 72 m² prioriza a circulação e a rotina do dia a dia — e é justamente ao lado do mobiliário funcional que a arte aparece, reforçando que um ambiente pensado para o uso intuitivo não precisa abrir mão da presença estética.
À dir, a Casa Origens Mercado Livre, por Josemar Costa Neto. À esq., o ambiente Carmim, por PN + | Paula Neder. (Reprodução/CASACOR)
Na Casa Origens Mercado Livre (esq.), de Studio Costa e Azevedo, a dupla Josemar Costa e André Azevedo criou um apartamento de 53 m² quase sem divisões, "uma casa que entrega o melhor do Brasil pelo olhar de quem seleciona, coleciona e mistura". É nesse espírito de curadoria pessoal que a arte passa a dividir espaço com o cobogó desenhado pelos próprios profissionais no hall e ao lado da cama.
Já no Carmim (dir.), de PN+| Paula Neder, o loft de 84 m² propõe releituras contemporâneas da tradição francesa — boiseries, molduras, uma base clássica em preto e branco. As telas em grande formato de Raul Mourão reforçam essa base, enquanto a arte se distribui em alturas menos previsíveis pelo espaço, ao lado de outras peças como a colagem de Bebel Franco e o móbile de Eugenio Vojkovic.
Eduardo Baldelomar - Coliving Chiquitano. Projeto da CASACOR São Paulo 2026. (Carolina Mossin/CASACOR)
No Coliving Chiquitano, projeto do boliviano Eduardo Baldelomar, a arte não é um complemento — é o eixo do ambiente de 31 m². Mais de 200 obras de autores bolivianos e artesãos indígenas ocupam a recepção, a sala e a copa, com traços que remetem às missões jesuíticas e ao barroco mestiço da selva. É nesse contexto que a proximidade entre a arte e a área da pia deixa de ser um detalhe e passa a fazer parte da narrativa do projeto: a cultura chiquitana como pano de fundo literal do cotidiano.