Na edição que celebra 30 anos da mostra, instrumento símbolo do congo capixaba é reinterpretado por arquitetos, artistas e personalidades em projeto que une design, memória e solidariedade
Publicado em 18 de ago. de 2026, 12:10

(Cloves Louzada/CASACOR)
Mais do que um dos principais instrumentos do congo capixaba, a casaca carrega em sua forma a identidade do Espírito Santo. Tradicionalmente esculpida em madeira, com a característica cabeça humana entalhada e o lombo sulcado que produz seu som, ela atravessa gerações como símbolo de uma ancestralidade profundamente ligada à cultura capixaba.
Na edição em que são celebrados os 30 anos da CASACOR Espírito Santo, essa tradição ganhou novas interpretações. O instrumento tornou-se ponto de partida para um exercício de criação que reuniu profissionais do elenco, personalidades e artistas capixabas, entre eles Attilio Colnago e Ana Paula Castro, convidados a customizar suas próprias casacas.
(Cloves Louzada/CASACOR)
Depois de uma temporada de exposição no Shopping Vitória, as peças passaram a integrar a curadoria da mostra principal. O próximo destino é um leilão beneficente, cuja renda será destinada à ACACCI e à ONG Vira-Lata, Vira-Luxo. Assim, cada intervenção aproxima arquitetura, arte e responsabilidade social.
“A CASACOR ES chega às suas três décadas provando que a vanguarda do design contemporâneo reside na nossa capacidade de olhar para dentro, para as nossas raízes. Conectar a força ancestral da casaca capixaba ao talento do nosso elenco e personalidades, em prol de causas tão nobres, é a materialização exata do manifesto ‘Mente e Coração’”, pontua Ligia Diniz, diretora da mostra.
A relação entre música e cultura capixaba foi o ponto de partida para a intervenção da artista plástica Ana Paula Castro. A inspiração veio da banda Casaca, considerada uma das mais inovadoras do cenário musical brasileiro e reconhecida por contribuir para a preservação e divulgação do instrumento.
“O grupo tem um papel fundamental na preservação e divulgação desse instrumento, levando o som e a tradição da casaca para além das fronteiras do nosso Estado. A partir dessa conexão entre música, memória e identidade, desenvolvi uma intervenção que busca homenagear tanto o instrumento quanto sua importância para a nossa cultura”, destaca Ana Paula.
À esq., casaca estilizada por Ana Paula Castro. À dir, casaca estilizada por Solana Marianeli. (Cloves Louzada/CASACOR)
Para a arquiteta Solana Marianeli, a proposta surgiu justamente do contraste entre tradição e linguagem contemporânea. Sua criação parte do rigor formal da Bauhaus e das linhas puras do Neoplasticismo. “O maior desafio foi encontrar um equilíbrio entre o respeito à tradição da casaca e a liberdade de imprimir uma identidade autoral”, revela Solana.
O diálogo com esses movimentos aparece no uso de cores primárias e na incorporação de volumes e relevos. Esferas que simulam botões, por exemplo, ajudam a deslocar o instrumento de sua função original e aproximá-lo do universo da escultura contemporânea.
Além de propor um exercício de criação, o projeto tem um destino que amplia o significado das peças. A renda arrecadada no leilão virtual será revertida para instituições que atuam em diferentes frentes de cuidado.
Madrinha da ACACCI, a estrategista de posicionamento Renata Cani participou da customização ao lado dos filhos, Lucas e Miguel. “Para mim foi uma honra, um prazer, porque a ACACCI faz um belíssimo trabalho, que me emociona.” A iniciativa também é destacada por Luciene Sales Sena, superintendente executiva da ACACCI, que ressalta a atuação da instituição há mais de três décadas no apoio a crianças e adolescentes em tratamento oncológico.
“A arquitetura tem o poder de transformar espaços, despertar emoções e melhorar a qualidade de vida. Quando essa sensibilidade se une à solidariedade, o impacto vai muito além da estética e se converte em oportunidades concretas de transformação social”, afirma Luciene.
Para a instituição, o projeto representa uma possibilidade de ampliar essa rede de cuidado. “Para as crianças assistidas pela associação, essa união se traduz em acolhimento, suporte às famílias e fortalecimento de uma rede de proteção que faz a diferença. É a demonstração de que a arte e o compromisso social podem, verdadeiramente, caminhar juntos para transformar vidas”, destaca.
ACACCI — Associação de Apoio à Criança com Câncer do Espírito Santo
A instituição atua há mais de três décadas no suporte a crianças e adolescentes em tratamento oncológico e suas famílias, oferecendo acolhimento e fortalecendo uma rede de proteção que vai além do ambiente hospitalar.
ONG Vira-Lata, Vira-Luxo
Fundada em 2016, a organização nasceu com o objetivo de garantir dignidade a animais abandonados. Entre seus pilares de sustentabilidade está a arrecadação de tampinhas plásticas, metálicas e lacres, posteriormente vendidos para reciclagem, além de um grupo fixo de doadores.