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Ambientes

Além das paredes: como a água e o saneamento fazem parte dos espaços que habitamos

Na CASACOR Tocantins 2026, a Casa Despida reuniu arquitetura, arte e educação ambiental ao revelar as estruturas por trás do cotidiano

Por Redação

Publicado em 3 de nov. de 2026, 14:00

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Gabriela Melo - Recontá Arquitetura - Casa Despida - BRK. Projeto da CASACOR Tocantins 2026.

Gabriela Melo - Recontá Arquitetura - Casa Despida - BRK. Projeto da CASACOR Tocantins 2026. (Edgard César/CASACOR)

A casa começa a despertar antes mesmo de todos se levantarem. Na água que passa pelo filtro, no banho que antecede o trabalho, na torneira aberta para preparar o café. Ao longo do dia, ela acompanha o preparo das refeições, a limpeza dos ambientes e o cuidado com as plantas. São gestos tão familiares que raramente pensamos na estrutura necessária para que aconteçam.


Quando imaginamos um lugar para morar, costumamos pensar na distribuição dos cômodos, nos móveis, nas cores e na luz que entra pela janela. Mas o conforto também depende do que está sob o piso, atrás das paredes e para além do terreno. A água que chega e o esgoto que precisa ser coletado e tratado conectam a intimidade de cada residência à infraestrutura da cidade.


Essa relação esteve presente na CASACOR Tocantins 2026. No Orquidário de Palmas, a Casa Despida, projetada pela arquiteta Gabriela Melo, convidou o público a observar aquilo que habitualmente permanece escondido. Tubulações, conexões e caixa-d’água passaram a integrar a experiência do ambiente, aproximando o saneamento das conversas sobre arquitetura e qualidade de vida.

Uma casa que revela suas camadas


A proposta partiu de uma casa típica brasileira e de uma intenção educativa. Em vez de concentrar a experiência em acabamentos e objetos de luxo, Gabriela trouxe para o primeiro plano os elementos que permitem o funcionamento de uma moradia. “Chamo de ‘casa despida’ porque é como se ela revelasse camadas de uma casa que costumamos parar para não enxergar, mas que existem”, explica a arquiteta. Essa escolha conduziu o projeto. Canos de PVC se transformaram em mobiliário, enquanto as instalações aparentes ajudaram a contar uma história sobre o caminho da água e o destino do que descartamos. O material normalmente associado à obra ganhou presença no espaço de convivência.

Gabriela Melo - Recontá Arquitetura - Casa Despida - BRK. Projeto da CASACOR Tocantins 2026.

Gabriela Melo - Recontá Arquitetura - Casa Despida - BRK. Projeto da CASACOR Tocantins 2026. (Edgard César/CASACOR)

“Ao transformar os canos de PVC em mobiliário, tiramos a ideia da função técnica do encanamento e levamos para o campo do design e da reflexão”, afirma Gabriela. A mudança de perspectiva também apareceu em uma luminária que reuniu objetos que não deveriam ser lançados na rede de esgoto. Incorporados à peça, eles chamaram a atenção para hábitos domésticos cujas consequências ultrapassam os limites da residência. O descarte feito dentro de casa passa a fazer parte de uma estrutura compartilhada por outras pessoas, ruas e bairros.


Os tons de azul e a exposição das tubulações deram unidade ao ambiente. Ao final do percurso, a vegetação natural reforçou a ligação entre água e vida. Como resume Gabriela, “sem a água nada floresce, nem as plantas, nem as pessoas”.

A arte aproxima a água do território


Gabriela Melo - Recontá Arquitetura - Casa Despida - BRK. Projeto da CASACOR Tocantins 2026.

Gabriela Melo - Recontá Arquitetura - Casa Despida - BRK. Projeto da CASACOR Tocantins 2026. (Edgard César/CASACOR)

Na Casa Despida, a reflexão sobre o morar também encontrou expressão na arte tocantinense. Duas pinturas murais de Sarah Gomes, conhecida como Leoa do Norte, incorporaram à arquitetura uma paisagem de cores, texturas e referências da fauna e da flora.


No centro da composição, o tuiuiú estabeleceu uma conexão com os ambientes aquáticos. Presente em áreas alagadas do país, inclusive na Ilha do Bananal, a ave trouxe para o espaço uma referência do território tocantinense e da relação entre os seres vivos e a água. “O tuiuiú é um animal emblemático e poderoso, que já aparece em outros trabalhos meus. Além de dialogar com o tema aquático, sua escolha permite apresentar outra referência da nossa fauna, para além das imagens mais recorrentes da arara-canindé e do tucano”, explica Sarah.


Palmense, Sarah encontra nessa relação uma das bases de sua produção. “Parte do meu trabalho está ligada ao território. A fauna e a flora são a forma como expresso essa conexão e construo cenas que falam da nossa relação com o meio ambiente”, afirma.

Gabriela Melo - Recontá Arquitetura - Casa Despida - BRK. Projeto da CASACOR Tocantins 2026.

Gabriela Melo - Recontá Arquitetura - Casa Despida - BRK. Projeto da CASACOR Tocantins 2026. (Edgard César/CASACOR)

Na área externa da mostra, outra intervenção aproximou arte e infraestrutura. Com a obra “Exuberante Canindé”, Dio Carvalho transformou uma caixa-d’água em suporte para uma composição inspirada nas araras que fazem parte do cotidiano de Palmas.


O trabalho nasceu em aquarela e ganhou escala na estrutura. Pinceladas soltas e sobreposições criaram imagens que se reorganizavam conforme a distância do observador. Um equipamento funcional passou, assim, a participar da experiência visual da mostra. “Acredito que devemos espalhar arte por todos os lugares, levando beleza e poesia às pessoas, sem aprisioná-la em espaços privados e excludentes”, defende Dio.

O cuidado com a casa continua na cidade


Ao reunir essas linguagens, a Casa Despida abriu espaço para uma conversa sobre o significado de habitar. Uma cozinha é lugar de encontro e de preparo de alimentos, mas depende de abastecimento e de instalações adequadas. O banheiro acolhe momentos de cuidado pessoal e está conectado a uma rede que precisa conduzir o esgoto ao tratamento.


Essa continuidade entre casa e cidade ajuda a compreender por que o saneamento faz parte da arquitetura, da saúde e do desenvolvimento urbano. O bem-estar de uma residência depende também das condições do bairro e dos serviços que atendem à população. Pensar os espaços de convivência exige considerar essas conexões desde o projeto até o uso cotidiano.

Gabriela Melo - Recontá Arquitetura - Casa Despida - BRK. Projeto da CASACOR Tocantins 2026.

Gabriela Melo - Recontá Arquitetura - Casa Despida - BRK. Projeto da CASACOR Tocantins 2026. (Edgard César/CASACOR)

Na Casa Despida, essa conversa ganhou forma por meio de elementos conhecidos: uma torneira, uma luminária, um móvel, uma pintura. A experiência aproximou o público de um tema que frequentemente aparece apenas em discussões técnicas e mostrou como ele atravessa escolhas e hábitos dentro de casa.


Para Leny Araújo, sócia-diretora da CASACOR Tocantins, a Casa Despida ampliou a reflexão proposta pelo tema “Mente e Coração”. “Pensar uma casa envolve olhar para o que torna possível viver bem dentro dela, inclusive para as estruturas que nem sempre enxergamos. Por trás do café compartilhado, do banho de uma criança ou da planta cultivada na sala, a água conecta o espaço construído à vida que acontece nele”, afirma.