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Rico Mendonça: três décadas de CASACOR SC e uma trajetória movida pela vontade de experimentar

Com 96 obras distribuídas em cinco núcleos, a Galeria Paralelo 30 reúne diferentes momentos da produção artística do arquiteto, designer e artista plástico

By Milena Garcia

Submitted at Nov 7, 2026, 12:00 PM

10 min de leitura
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Rico Mendonça

Rico Mendonça (CASACOR)

O arquiteto, designer e artista plástico Rico Mendonça escolheu a CASACOR SC | Florianópolis para celebrar uma data especial em 2026: seus 30 anos de carreira. Presente na primeira edição catarinense da mostra, em 1996, ele retorna com a Galeria Paralelo 30, espaço que reúne 96 obras autorais, entre pinturas, cerâmicas e outras experimentações artísticas.

Rico de Moura Mendonça - Galeria Paralelo 30. Projeto da CASACOR Santa Catarina | Florianópolis 2026

Rico de Moura Mendonça - Galeria Paralelo 30. Projeto da CASACOR Santa Catarina | Florianópolis 2026 (Lio Simas/CASACOR)

Distribuída em cinco núcleos, a exposição revela o olhar sensível de Rico sobre corpo, arquitetura, paisagem, identidade e passagem do tempo. Em conversa com a CASACOR, o profissional revisita momentos importantes de sua trajetória e reflete sobre a curiosidade e a disposição para experimentar que mantêm sua produção em movimento após três décadas de criação.

Galeria Paralelo 30: arte, memória e experimentação


Com 144 m², a Galeria Paralelo 30 surgiu da combinação entre a oportunidade de ocupar a área de circulação central do antigo prédio da Estácio de Sá e o desejo de Rico Mendonça de apresentar ao público uma faceta menos conhecida de seu trabalho. "Já faz um tempo que eu queria mostrar para as pessoas esse meu lado artístico. Muita gente não sabia que eu faço artes, sendo que eu comecei até mesmo antes da arquitetura", conta à CASACOR.

Rico de Moura Mendonça - Galeria Paralelo 30. Projeto da CASACOR Santa Catarina | Florianópolis 2026

Rico de Moura Mendonça - Galeria Paralelo 30. Projeto da CASACOR Santa Catarina | Florianópolis 2026 (Lio Simas/CASACOR)

A convite da mostra, o profissional transformou completamente a área, que antes apresentava uma atmosfera escura e desgastada. O piso original foi reconstruído e as paredes receberam aquarelas, desenhos em nanquim, bordados, cerâmicas e mais. A proposta era criar um espaço que revelasse diferentes linguagens e etapas de seu processo criativo.

Cores, mobiliário, iluminação e disposição das obras foram cuidadosamente definidos para conduzir o visitante por uma espécie de autobiografia visual. Um detalhe especial completa a narrativa: sobre uma mesa de centro, o anuário da CASACOR SC de 1996 remete à estreia de Rico na mostra e estabelece uma conexão entre o início da trajetória e a comemoração dos 30 anos.

Cinco núcleos, cinco olhares sobre a criação


Os cinco núcleos da Galeria Paralelo 30 representam diferentes temas e momentos da produção de Rico Mendonça. A transição entre eles acontece por meio de persianas que funcionam como divisórias, delimitando os espaços sem interromper a conexão visual entre as galerias. São eles:

  • Identidade — o ser: aborda a individualidade e as referências que constituem quem somos;

  • Habitar — o lugar: explora a relação entre as pessoas e os espaços que ocupam;

  • Da Terra — a origem: aproxima a narrativa da natureza e das referências ancestrais;

  • Tempo — as marcas: reúne reflexões sobre as transformações e experiências acumuladas ao longo da vida;

  • Matéria — o vestígio: investiga os registros que permanecem e aquilo que ganha significado com o passar dos anos.

A seleção reúne 96 peças, em referência ao ano de 1996, entre trabalhos do acervo pessoal de Rico e de seus pais. Muitas delas nunca haviam sido exibidas. "Uma das principais obras, que está logo na entrada do ambiente, foi uma das primeiras telas que eu desenhei e pintei. Estava guardada há 30 anos, eu nunca havia mostrado para ninguém", revela.

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Uma trajetória entre arquitetura, design e arte


Formado em Arquitetura e Design, com mestrado em Moda, Rico Mendonça construiu uma trajetória que transita por diferentes frentes criativas. Em comum, seus trabalhos compartilham uma forte relação com memória, ancestralidade e identidade, além de pesquisas aprofundadas sobre matéria e passagem do tempo.

Rico Mendonça - Wine Bar BRB. Projeto da CASACOR Santa Catarina | Florianópolis 2025.

Rico Mendonça - Wine Bar BRB. Wine Bar para o Banco BRB, onde o tênis inspira o projeto. Tons de azul, em sintonia com a marca, acolhem quem chega para degustar vinhos. Lounges separados por cortinas evocam quadras de tênis, criando privacidade e leveza. Nas paredes, arte se mistura a painéis de madeira que remetem ao clima praiano, unindo sofisticação e descontração em um ambiente único. (Lio Simas/CASACOR)

Ao longo de três décadas, desenvolveu projetos de interiores, criou mobiliário, manteve uma produção artística própria e participou de nove edições da CASACOR Santa Catarina. A relação entre essas diferentes linguagens sempre esteve presente em seu trabalho, mas atualmente a arte ocupa um espaço cada vez mais expressivo. "Eu sempre tentei equilibrar o meu lado artístico com o meu lado de arquiteto. O engraçado é que hoje as coisas estão começando a se inverter: a arte tem aparecido até um pouco mais do que a arquitetura", pontua.

Aos 60 anos, o profissional define o momento atual como uma fase de "libertação". Depois de um período afastado da produção artística, passou a selecionar com mais critério os projetos arquitetônicos que assina, reservando mais tempo para suas próprias criações e para a descoberta de novas técnicas, como cerâmica e crochê.

Nove participações na CASACOR Santa Catarina


Ao revisitar suas nove participações na CASACOR Santa Catarina, Rico Mendonça reconhece transformações importantes na maneira de projetar, especialmente com a incorporação de novas tecnologias. "Nós fazíamos pesquisas nas revistas que assinávamos de outros países. Hoje, ninguém mais faz isso", relembra. Apesar das mudanças, o arquiteto acredita que sua essência permaneceu a mesma, agora acompanhada de mais experiência e confiança.

CASACOR Santa Catarina 2016. Galeria Lounge Avex - Rico Mendonça. O voo de Ícaro e o labirinto do Minotauro da mitologia grega remetem à busca pela liberdade. Eis o conceito deste ambiente de 35m², formado por um corredor, sala e banheiro funcional. Todos conectados pelo tapete que dá a sensação de pisar em nuvens. A tela do grande olho, do Arteria Estúdio, remete à arte do designer Fornasetti. Outra parede foi reservada à asa escultural do artista plástico Rafael Sartori. (CASACOR)

"Eu tenho muito orgulho de ter me mantido na mesma frequência desde o início. Com uma visão mais contemporânea, é claro. Eu mudei o meu olhar, os tons e até forma de pesquisar, mas não mudei a minha base emocional e cultural", afirma.

Projeto de Rico Mendonça na CASACOR Santa Catarina 2012.

Projeto de Rico Mendonça na CASACOR Santa Catarina 2012. (Mariana Boro/CASACOR)

Entre as participações que guarda com carinho está a edição de 2012, quando assinou o Loft do Chef, concebido como uma homenagem ao renomado chef catarinense Vitor Gomes. A realização do projeto representou um reconhecimento importante de sua trajetória profissional. "Para mim, foi uma confirmação de que eu estava indo bem no mercado".

A curiosidade de aprender e experimentar em qualquer idade


Um aspecto que se destaca na conversa com Rico Mendonça é a disposição para experimentar, característica que atravessa seus 30 anos de carreira. Essa curiosidade aparece tanto na diversidade de projetos apresentados na CASACOR quanto no interesse em explorar novas técnicas artísticas. Para ele, manter-se aberto ao aprendizado é uma maneira de preservar a criatividade e continuar construindo um legado positivo para as próximas gerações.


As inspirações vêm de diferentes lugares, das viagens aos pequenos acontecimentos cotidianos, que frequentemente se transformam em textos e dão origem a novas coleções. A variedade de técnicas também faz parte desse processo, como explica: "Às vezes, eu tenho uma lista enorme de coisas que eu poderia criar. Eu faço de tudo um pouco: mosaico, bordado, grafite, nanquin, aquerela, óleo... Eu não tenho medo de testar!"


Sete anos após perder a mãe e assumindo os cuidados do pai idoso, Rico também reflete sobre a passagem do tempo e a importância de encarar os desafios que surgem ao longo da vida. Sua mensagem final ultrapassa o universo profissional e revela uma maneira particular de encarar a maturidade, sem abrir mão da curiosidade e do entusiasmo pela criação: "Eu não me sinto velho, engraçado que a minha cabeça é muito jovem ainda. Acho que serei eternamente criativo, eu sou um buscador de possibilidades. Sabe aquela história de que podemos morrer a qualquer momento? Vamos fazer tudo o que pudermos, porque o tempo está correndo!"