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Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR discute Centro do Rio e transformações urbanas

No Palácio Gustavo Capanema, cinco painéis reuniram diferentes perspectivas sobre patrimônio, moradia, clima e legislação

Por Milena Garcia

Publicado em 24 de set. de 2026, 20:00

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Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR.

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR. (Marcio Ferreira/CASACOR)

O 1º Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR no Rio de Janeiro reuniu representantes do poder público, da iniciativa privada e da arquitetura para discutir caminhos para o futuro das cidades brasileiras. Ao longo do dia, cinco painéis abordaram temas como regeneração do Centro do Rio, urbanismo ambiental e legislação urbana.


Com entrada gratuita, o encontro – iniciativa da CASACOR, que já teve uma edição em São Paulo – ocupou um endereço emblemático da cidade: o Palácio Gustavo Capanema, marco da arquitetura moderna brasileira projetado por uma equipe que reuniu nomes como Lúcio Costa, Carlos Leão e Oscar Niemeyer. A escolha do local também criou uma conexão direta com a CASACOR Rio 2026, realizada até 8 de novembro no Aliança da Bahia, em frente ao edifício.

Discussões sobre os desafios da regeneração do Centro iniciaram o dia


A revitalização do Centro do Rio abriu as discussões do fórum. Mediado por Thaís Lauton, Diretora de conteúdo da CASACOR e Diretora de redação de Casa e Jardim, o primeiro painel reuniu reflexões sobre retrofit, reúso, patrimônio, habitação e uso misto das áreas centrais, tendo o próprio Centro e o projeto Reviver Centro como referências concretas.

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR. (Marcio Ferreira/CASACOR)

Para Miguel Pinto Guimarães, titular do MPG Arquitetura e cofundador da OPY Soluções Urbanas, uma das chaves para trabalhar com retrofit está em escutar o que os edifícios têm a dizer. “A parte técnica é mais difícil, mas a parte criativa é fácil. Porque aquele edifício sussurra o que ele espera para si”.


O debate também passou pela relação entre ocupação urbana e segurança. Segundo o arquiteto e urbanista Washington Fajardo, a percepção de insegurança na região central nem sempre corresponde à realidade. Ele completou: “O futuro do Centro do Rio está com as mulheres, porque elas têm uma percepção muito fina da segurança da cidade”.

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR. (Marcio Ferreira/CASACOR)

Celso Rayol, arquiteto do elenco da CASACOR Rio 2026, aproximou conservação e transformação ao destacar a importância de compreender a cidade a partir de suas demandas atuais. “Nós precisamos caminhar pela cidade (...) Assim, nós entendemos seus novos usos e conseguimos combiná-los à arquitetura”.

O assunto ganhou novas camadas sobre moradia e vida urbana


O segundo painel manteve o Centro do Rio como eixo, mas ampliou a discussão para as condições de moradia, trabalho, circulação e comércio. Também mediada por Thaís Lauton, a conversa mostrou que regenerar uma região central envolve muito mais do que recuperar fachadas ou voltar a ocupar edifícios.

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR. (Marcio Ferreira/CASACOR)

Alexandre Pessoa, diretor da FAU-UFRJ, retomou a história da ocupação urbana da cidade, relacionada à atividade comercial portuária, para refletir sobre seus aprendizados. “O processo histórico nos trouxe até aqui, mas nós não precisamos ficar repetindo os erros que aconteceram”, propôs.


Para o arquiteto e sócio-fundador do RAF Arquitetura, Aníbal Sabrosa, compreender as diferentes características que formam o Centro é fundamental para que o mercado imobiliário responda a públicos e demandas diversas. “O mercado tem que identificar cada região e entender o tipo de produto para ela. Claro que isso precisa dar lucro, certo? Senão, o mercado não vai construir”.

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR. (Marcio Ferreira/CASACOR)

Já o presidente do CAU/RJ, Sydnei Menezes, destacou as transformações na relação dos profissionais com a região central e o momento atual de sua reocupação. “Hoje nós estamos vivenciando, sem perceber, uma mudança histórica sob o ponto de vista da reocupação do Centro do Rio. E isso está acontecendo com uma geração absolutamente madura quanto à qualificação profissional”, concluiu.

Memória e patrimônio orientaram o terceiro painel


A transformação urbana também envolve memória, identidade e pertencimento — tema central do terceiro painel do Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR, mediado por Darlan Firmato, Diretor de Operações da CASACOR São Paulo. A conversa propôs ampliar o entendimento sobre preservação, não apenas como conservação, mas também como parte ativa dos processos de transformação das cidades.

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR. (Marcio Ferreira/CASACOR)

Entre os participantes estava Lucas Padilha, secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro, que destacou o simbolismo histórico do Palácio Gustavo Capanema e a importância da presença da CASACOR Rio na região. “Memória sem futuro é nostalgia e futuro sem memória é improviso. O papel da política cultural é conectar ação, programação, instituições e eventos artísticos em uma plataforma de uso”, defendeu.


Na mesma direção, Marlova Noleto, diretora e representante da UNESCO no Brasil, reforçou a ideia de um patrimônio capaz de permanecer vivo ao longo do tempo. “Eu sempre gosto de lembrar que preservar o patrimônio material não é congelá-lo no tempo, mas é garantir as condições para que ele continue vivo, seja transmitido e possa se transformar junto com as comunidades”.


Eduardo Vettorazzi, fundador da City Zine, trouxe a responsabilidade coletiva para a discussão sobre a identidade urbana. “O arquiteto é quem organiza, o poder público regulariza, mas são as pessoas que moldam os espaços”.

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR. (Marcio Ferreira/CASACOR)

O painel terminou com um olhar voltado ao futuro e às novas formas de ocupação dos centros urbanos. Marcus Damon, sócio-fundador e diretor criativo do Estúdio Módulo, contribuiu: “Eu percebo que as novas gerações têm um otimismo maior quanto à ocupação do Centro, tanto no Rio quanto em São Paulo. As pessoas estão mais dispostas a vivenciar o Centro de maneira diferente e superar alguns preconceitos que as gerações anteriores tinham”.

Eventos extremos colocaram a resiliência urbana no centro da discussão


O quarto painel ampliou a escala da discussão ao abordar os efeitos dos eventos climáticos extremos e o papel do urbanismo na construção de cidades mais resilientes. Arborização, sombra, drenagem e soluções baseadas na natureza estiveram entre os temas discutidos pelos convidados.

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR. (Marcio Ferreira/CASACOR)

Mediada por Miguel Pinto Guimarães, a conversa teve como uma de suas principais referências as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. “Esse episódio mostrou que nós somos parte do sistema, o sistema da cidade não está para nós”, afirmou Luciana Fonseca, sócia da OSPA e fundadora do Instituto Cidades Responsivas.


A justiça climática também apareceu como ponto essencial para pensar o urbanismo ambiental. Juliana Baladelli Ribeiro, bióloga e gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, destacou o papel da natureza na resposta aos desafios urbanos: “As cidades terem a natureza como parte da solução, tanto para a drenagem, quanto para fazer um resfriamento urbano beneficia a todos – principalmente aqueles que não têm outra opção”.

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR (Marcio Ferreira/CASACOR)

Como diretor regional da C40 para a América Latina, Ilan Cuperstein trouxe exemplos de resiliência urbana em cidades como Curitiba, Medellín e Buenos Aires, além dos jardins de chuva de São Paulo e do monitoramento de calor no Rio de Janeiro. “O Rio tem o hoje o monitoramento de ondas de calor mais avançado da América Latina, isso é algo que várias cidades querem replicar”, destaca.

Legislação e planejamento encerraram o fórum com foco na transformação urbana


O quinto e último painel do Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR reuniu alguns dos temas que atravessaram o encontro e direcionou o olhar para a legislação urbana e as condições necessárias para transformar a cidade existente. Mediado por Rafael Galdo, editor de Rio do jornal O Globo, o debate aproximou perspectivas do poder público, do mercado e de outros agentes envolvidos nesse processo.

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR. (Marcio Ferreira/CASACOR)

Ao retomar a revitalização do Centro do Rio, Osmar Lima, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico do Rio de Janeiro, destacou os desafios de criar políticas capazes de se sustentar no longo prazo. “Você tem que construir uma política pública perene, mas precisa ter o financiamento, o mercado, a sociedade e uma visão de longo prazo – senão nós paramos no meio do caminho e produzimos problemas que depois são mais difíceis de resolver”.


Leonardo Mesquita, copresidente executivo da Cury Construtora, acrescentou ao debate a perspectiva do setor privado e a relação entre demanda e viabilidade dos novos empreendimentos. “Não é o incorporador quem vai mudar a sociedade, é a demanda (...) Esse é o mercado, mas se encontrarmos uma equação onde o volume de pessoas que querem morar no Centro seja possível e as suas rendas sejam possíveis, pode ter certeza: vai começar a se produzir absurdamente”.

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR

Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR. (Marcio Ferreira/CASACOR)

Já Tomas Alvim, cofundador da BEĨ Editora, trouxe a legislação e a preservação do patrimônio para o centro desse equilíbrio entre interesses públicos e privados. “Precisamos respeitar a regulação e ajustar o que não estiver endereçando. Na outra ponta, o setor construtivo também precisa ter um olhar sobre esse patrimônio, um cuidado com o projeto”, finaliza.


Ao reunir profissionais da arquitetura, urbanismo, gestão pública, mercado e meio ambiente, o evento mostrou como os desafios das cidades exigem leituras construídas a partir de diferentes áreas e perspectivas. O Fórum de Arquitetura e Urbanismo CASACOR foi uma realização da CASACOR, CBN e Editora Globo, com patrocínio da Cury Construtora e apoio institucional da Ademi RJ.