Lina Bo Bardi marcou o design brasileiro com móveis que unem os ideais modernistas com a cultura popular
Publicado em 19 de ago. de 2026, 14:00

Lina Bo Bardi em meio às cadeiras do auditório do primeiro MASP, na Rua Sete de Abril, em São Paulo. (Galerie Brazil Modernist/Divulgação)
Lina Bo Bardi é um dos grandes nomes da arquitetura moderna brasileira e sua contribuição para o design também merece destaque. Nascida na Itália em 1914, a arquiteta chegou ao Brasil em 1946 e encontrou no país um campo fértil para desenvolver uma produção profundamente conectada à cultura, aos materiais e aos modos de vida locais.
Lina Bo Bardi em sua residência, sentada em uma Poltrona de Três Pés, criada em parceria com Giancarlo Palanti no Studio Arte Palma. (Divulgação/Divulgação)
Ao longo da carreira, criou móveis, objetos e soluções que ultrapassavam a ideia de simples peças funcionais: eram experimentos sobre o corpo, os materiais, a fabricação e a própria maneira de ocupar os espaços.
A aproximação de Lina Bo Bardi com o design aconteceu ainda nos primeiros anos de sua trajetória no Brasil. Em 1948, ela participou da criação do Studio d'Arte Palma, ao lado de Pietro Maria Bardi e Giancarlo Palanti, iniciativa voltada à produção de mobiliário moderno.
Exposição Lina Bo Bardi e Giancarlo Palanti: Studio d’Arte Palma, 1948–1951, organizada pela galeria Nilufar e apresentada durante a Semana de Design de Milão de 2018. (Nilufar/Divulgação)
O estúdio buscava conciliar técnicas industriais e materiais brasileiros, explorando madeira, couro e tecidos em peças que também dialogavam com referências da cultura popular. Para Lina, o móvel não deveria ser apenas um objeto bonito: precisava responder às necessidades do cotidiano e proporcionar novas formas de interação entre corpo e espaço.
Mobiliário de Lina Bo Bardi: 1. Carrinho de Chá LBB; 2. Cadeira Girafa; 3. Poltrona Tripé; 4. Mesa de mosaico (Casa de Vidro); 5. Cadeira Bola de Latão; 6. Poltrona Bowl; 7. Cadeira Frei Egídio; 8. Cadeira dobrável do MASP (Sete de Abril). (Ruy Teixeira/Nelson Kon/Divulgação/Divulgação)
Criado em 1948 para o Studio Arte Palma, o Carrinho de Chá LBB combina madeira e formas geométricas em uma estrutura leve e funcional. A peça traduz a busca de Lina por um mobiliário moderno, mas atento aos materiais e às possibilidades de produção no Brasil.
Desenvolvida em 1986 em parceria com Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki, a Cadeira Girafa foi criada para o restaurante Casa do Benin, em Salvador. Com estrutura de madeira maciça e espaldar alto, tornou-se um dos móveis mais reconhecidos da colaboração entre Lina e a Marcenaria Baraúna.
Criada no período do Studio Arte Palma, a Poltrona Tripé explora uma estrutura simples combinada a uma superfície de couro ou lona suspensa. A solução remete às redes de dormir e demonstra o interesse de Lina por formas de sentar mais informais e próximas da cultura brasileira.
A mesa de tampo revestido por pequenas pedras coloridas chama atenção pelo contraste entre a superfície artesanal e a estrutura metálica de desenho moderno. A peça evidencia o interesse de Lina pela combinação entre materiais, texturas e referências populares.
Desenhada em 1951 para a Casa de Vidro, a Cadeira com Bola de Latão possui uma estrutura metálica cujos pés dianteiros se elevam e terminam em duas esferas douradas. De caráter quase escultórico, foram produzidas apenas seis unidades para a residência de Lina e Pietro Maria Bardi.
Talvez o móvel mais famoso de Lina, a Bowl foi criada em 1951 a partir de um assento semiesférico apoiado sobre uma estrutura metálica. Inspirada nas tigelas utilizadas por caiçaras, a peça permite que o usuário ajuste sua posição, colocando o corpo e o conforto no centro do projeto. Hoje, integra a coleção do MoMA, em Nova York.
Criada em 1987 por Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki, a Frei Egídio foi desenvolvida para o Teatro e Fundação Gregório de Mattos, em Salvador. Dobrável e construída em madeira, a cadeira nasceu de uma necessidade prática e se tornou um dos exemplares marcantes da parceria de Lina com a Marcenaria Baraúna.
Projetada em 1947 para o pequeno auditório da primeira sede do MASP, na Rua Sete de Abril, a cadeira foi inspirada nos modelos utilizados em circos. Dobrável e empilhável, sua solução simples respondia diretamente às necessidades do espaço e é considerada uma das primeiras cadeiras modernistas do Brasil.
A Casa de Vidro foi um espaço de convivência, experimentação e criação para Lina Bo Bardi, onde arquitetura, design, arte e natureza se encontravam no cotidiano. (Nelson Kon/Divulgação)
A Casa de Vidro, projetada por Lina em 1950 e concluída em 1951, também pode ser entendida como um grande laboratório de experimentação de interiores. A arquiteta não pensava a arquitetura separadamente dos objetos que a ocupavam: móveis, luminárias e elementos decorativos faziam parte da concepção do espaço.
Localizado junto à Casa de Vidro, o ateliê funcionava como um espaço de trabalho e criação, onde Lina desenvolvia projetos e reunia referências para sua produção em arquitetura, design e artes. (Nelson Kon/Divulgação)
Entre as peças criadas para a residência está a Cadeira Bola de Latão, produzida em apenas seis exemplares, com estrutura que se destaca pelos pés dianteiros elevados e pelas esferas douradas. A casa também recebeu diferentes experimentações de mobiliário e objetos desenvolvidos pela própria Lina.
A produção de Lina Bo Bardi continua atual porque questiona a separação entre arquitetura, design, arte e cultura. Seus móveis mostram que o modernismo brasileiro poderia incorporar materiais locais, referências populares e diferentes formas de uso sem abrir mão da inovação.
As poltronas Bowl, criadas por Lina Bo Bardi em 1951, ganharam uma versão industrializada pela italiana Arper, distribuída no Brasil pela Dpot. (Divulgação/Divulgação)
Décadas depois de sua criação, peças como a Bardi’s Bowl continuam sendo produzidas em novas edições, enquanto outros móveis e objetos são recuperados a partir de desenhos, fotografias e documentos preservados pelo Instituto Bardi.