Entre o concreto de Niemeyer, o vinho, os livros e a vista da cidade, uma noite foi suficiente para entender por que o Copan desperta tanto fascínio
Publicado em 16 de jul. de 2026, 10:28

Livraria Megafauna, Copan. (Livraria Megafauna/CASACOR)
Você entra sob o gigante monumento de concreto. À esquerda, uma loja de discos. À direita, um bar de vinhos. Logo em frente, uma cachaçaria. Tudo isso se desenha no caminho sinuoso de galerias que acompanham as curvas do Copan. Elis Regina ecoa de um dos bares. Se o bipe da fechadura eletrônica do meu Airbnb não tivesse tocado, eu certamente acreditaria que havia viajado no tempo.
Foi assim que começou a minha experiência de passar uma noite no Copan.
Você, leitor, certamente já conhece a história desse icônico prédio projetado por Oscar Niemeyer, um dos maiores complexos residenciais da América Latina. (E, se ainda não conhece, recomendo este guia completo.) Como jornalista, escrevo com frequência sobre arquitetura. Já perdi as contas de quantas vezes o Copan — ou o traço de seu criador — apareceu nos meus textos. Mas passar uma noite ali me fez sentir, de perto, essa mistura de amor e caos. O tipo de sentimento que só São Paulo consegue despertar.
Cheguei ao Copan por volta das seis da tarde de uma sexta-feira. Aluguei um apartamento pelo Airbnb e subi carregando a curiosidade de quem visita um lugar que conhece há anos, mas apenas pelas páginas e fotografias.
(@vossabossastay. Foto: Rodrigo Pivas (@pivas.foto)/CASACOR)
Se, por um lado, o edifício desperta uma nostalgia imediata, por outro, basta entrar em um dos apartamentos para encontrar um contraste entre passado e presente. A decoração contemporânea conversa com a arquitetura modernista sem disputar protagonismo. É quase uma prova de que o novo pode reverenciar o antigo sem tentar imitá-lo.
Fiquei hospedada no apartamento 2206, bloco B (aqui o anúncio se você quiser conhecer o espaço). A primeira coisa que me capturou foi o janelão voltado para a cidade. É impossível olhar para aquela paisagem sem pensar: "então isso é São Paulo."
Para completar a cena, uma banheira foi posicionada com vista para a janela. Diante daquela vista, qualquer um vira poeta.
Depois de deixar as malas, desci para explorar as galerias.
A primeira parada, naturalmente, foi a Megafauna, livraria que funciona até às 21h de terça a sábado (e até às 18h aos domingos). A curadoria reúne clássicos e contemporâneos, mas existe um fio condutor muito claro: celebrar a produção latino-americana. É uma seleção que parece dizer, sem precisar explicar, que a nossa literatura basta. E que bom ser brasileiro.
Depois, caminhei até o Paloma, wine bar que combina bons vinhos, pratos bem executados e um projeto que dialoga com o próprio prédio. O piso de caquinho e as estantes curvas parecem homenagear a fachada sinuosa do Copan. É um daqueles lugares que convidam a permanecer mais tempo do que o planejado.
A noite estava bonita demais para terminar cedo.
Continuei andando pelas galerias até encontrar uma cachaçaria, com tantos rótulos que seria fácil se perder entre eles. Descobri que a casa oferece experiências de degustação. Saí de lá com uma miniatura da Copan Umburana — uma maneira de levar um pequeno gole do edifício para casa, como se algumas memórias também pudessem ser engarrafadas.
Falar do Copan também é falar do que acontece ao redor dele. Da juventude ocupando o centro da cidade, das conversas que atravessam as mesas, da mistura de gente, sotaques e ideias. Um lugar onde a rua volta a ser, de fato, pública.
Gosto de pensar que a minha noite no Copan foi feita de dois movimentos: introspecção e encontro.
Conversei com desconhecidos na livraria, depois, voltei ao apartamento para assistir sozinha a um jogo da Copa do Mundo.
É possível desfrutar o melhor dos dois mundos ali.
(@vossabossastay. Foto: Rodrigo Pivas (@pivas.foto)/CASACOR)
Para fechar a noite, pedi uma pizza do Bixiga. Parecia a combinação perfeita para acompanhar uma taça de vinho.
Tudo ganha outra textura em uma noite como essa. O banho de banheira, a mesma playlist de sempre, as luzes da cidade. Nada mudou, mas tudo parecia diferente. Como se o Copan tivesse esse estranho poder de ampliar as pequenas experiências.
(Yeska Coelho/CASACOR)
Por coincidência (ou talvez não) eu estava lendo justamente um romance ambientado ali. Crime no Copan, de Victor Bonini, publicado pela Companhia das Letras este ano. É um suspense envolvente, mas, para mim, o grande protagonista continua sendo o edifício. O livro transforma o prédio em personagem e faz da arquitetura parte da narrativa. Vale a leitura.
Na manhã seguinte, voltei à Megafauna. Dessa vez, para tomar café no Cuia Café (@cuia_restaurante), comandado pela chef Bel Coelho. Comida simples, fresca e muito bem executada. O encerramento perfeito para uma experiência que parecia pedir exatamente isso: calma. E ainda saí de lá com dois livros debaixo do braço.
Aos 60 anos, o Copan continua fazendo aquilo que poucos edifícios conseguem: permanecer contemporâneo sem abrir mão da própria memória. Ele nos lembra que o centro de São Paulo ainda guarda descobertas para quem aceita caminhar sem pressa. E, ao sair dali, finalmente entendi o que Caetano quis dizer quando cruza a Ipiranga com a Avenida São João: alguns lugares a gente visita, outros passam a nos lembrar quem realmente somos.