O Super El Niño 2026 pode ser o mais intenso dos últimos 150 anos, com impactos distintos em cada região e consequências diretas para as residências
Publicado em 18 de jul. de 2026, 8:00

Chuva forte (iStock/Divulgação)
Os modelos climáticos atuais indicam que 2026 pode marcar a quinta ocorrência de um Super El Niño nos últimos 150 anos — fenômeno que ocorre quando a anomalia de temperatura da superfície do mar ultrapassa +2°C em relação à média histórica. Projeções da NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Naciona dos Estados Unidos) apontam que fenômeno se mantenha até fevereiro de 2027. No Brasil, os possíveis efeitos variam por região: riscos de enchentes e deslizamentos no Sul, de ondas de calor e insegurança hídrica no Sudeste, e de secas e queimadas no Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Diante desse cenário, a casa deixa de ser apenas um projeto estético e passa a ser uma estrutura de proteção. Telhados, sistemas de drenagem, impermeabilizações, esquadrias, isolamento térmico e escolhas de revestimento ganham protagonismo quando o clima se torna extremo. A arquiteta Maria Fernanda Wiethorn Aliano, CEO do escritório we.arch, explica quais medidas concretas podem tornar as residências mais resilientes ao El Niño.
Para Maria Fernanda, a arquitetura contemporânea envolve pensar em desempenho, resistência e bem-estar nas construções. "As mudanças climáticas impactaram definitivamente a forma de projetar. Hoje não basta entregar uma casa bonita. Ela precisa ser confortável em diferentes estações, consumir menos recursos naturais, responder melhor às variações climáticas e manter seu desempenho ao longo das próximas décadas", afirma à CASACOR.
(MDL/Divulgação)
Uma casa resiliente começa pela implantação correta no terreno, passa pelo dimensionamento adequado da drenagem, impermeabilizações, coberturas e esquadrias de alto desempenho, e inclui a especificação de materiais compatíveis com o clima da região. Também ganham força soluções como pisos drenantes, jardins de chuva, reservatórios para reaproveitamento da água da chuva, paisagismo funcional e coberturas com melhor isolamento térmico. Pensar a casa como um organismo que responde ao clima é o que determina os projetos mais duradouros.
Para quem tem uma casa pronta e quer se preparar, Maria Fernanda destaca três frentes de ação. A primeira é revisar toda a cobertura: "A maior parte dos problemas durante períodos de chuvas intensas começa por falhas nesses sistemas" — telhado, lajes, impermeabilizações, calhas, rufos e condutores merecem atenção frente à chegada do Super El Niño.
A segunda é investir em drenagem eficiente do terreno, se possível, que evita infiltrações, sobrecarga estrutural e reduz os riscos de alagamento. A terceira é preparar a casa para temperaturas mais elevadas por meio de estratégias passivas de conforto térmico: "Quanto mais eficiente for a arquitetura, menor será a dependência de soluções mecânicas para climatização".
Mauricio Nóbrega, Bia Wolf, Maria Estellita e Patricia Vieira - Estar na Varanda. Projeto da CASACOR Rio de Janeiro 2025. (André Nazareth/Divulgação)
A climatização começa muito antes do ar-condicionado. Ventilação cruzada, brises, beirais, pergolados, vegetação para sombreamento e vidros com controle solar reduzem significativamente o ganho térmico da residência. A cobertura também exerce papel central: isolamento termoacústico e mantas térmicas fazem com que a casa absorva muito menos calor ao longo do dia.
Nos interiores, cada escolha interfere no conforto. "Pisos em madeira, por exemplo, proporcionam uma sensação térmica muito mais agradável do que materiais que acumulam calor. Tapetes, tecidos naturais e revestimentos adequados também contribuem para uma experiência mais confortável", orienta a especialista.
Quando o ar-condicionado é necessário, equipamentos com tecnologia inverter garantem maior eficiência energética. Além disso, há um detalhe pouco lembrado: um projeto luminotécnico bem elaborado, com LED de alta eficiência e valorização da iluminação natural, reduz a geração de calor e melhora o consumo energético da residência.
Pam Faccin Arquiteura Paisagística - Conhecer para Preservar. (Bia Nauiack/Divulgação)
A manutenção preventiva continua sendo um dos melhores investimentos que um proprietário pode fazer. Limpeza de calhas, revisão de impermeabilizações, inspeção de esquadrias e avaliação do sistema de drenagem evitam problemas que podem gerar reformas mais caras.
Também vale analisar se existem áreas excessivamente impermeabilizadas no terreno — pisos drenantes e jardins de chuva são soluções de bom custo-benefício para reduzir os impactos de chuvas intensas.
Vale mencionar que o El Niño é um fenômeno natural, mas a gravidade de seus impactos não. Os governos federal, estaduais e municipais têm responsabilidade de agir antes do pior acontecer — investindo em ciência, infraestrutura, defesa civil e proteção ambiental. Acompanhar alertas meteorológicos é tão importante quanto cobrar dos órgãos públicos da existência de planos de adaptação climática e prevenção a desastres, especialmente para as famílias mais vulneráveis.